Cultura

Arqueóloga busca resgatar sons perdidos de Notre-Dame

Arqueóloga busca resgatar sons perdidos de Notre-Dame

Arqueóloga Mylène Pardoen grava sons diante da conciergerie de Paris em 2016 - AFP/Arquivos

A tarefa de Mylène Pardoen, arqueóloga de paisagens sonoras, é árdua: tentar restaurar o “volume particular” da catedral parisiense de Notre-Dame após o incêndio que a destruiu.

Como a luz filtrada pelas janelas, ou o cheiro muito particular de velas, os sons de uma catedral fazem parte de seu DNA.

A acústica desse local depende de sua arquitetura, dos materiais utilizados, dos móveis escolhidos, mas também do tecido urbano circundante.

“Cada igreja, cada catedral tem uma acústica única e singular”, explica a engenheira de pesquisas do Instituto de Ciências Humanas (ISH) de Lyon.

Um elemento de madeira, por exemplo, não soa como uma pedra.

Na Notre-Dame, este coquetel único pegou fogo em 15 de abril, quando as chamas deixaram a catedral com três buracos importantes em sua abóboda.

“Agora não há som”, explica Pardoen, “apenas os ruídos externos, a agitação das máquinas, os aspiradores de pó…”, constata.

Desde sua primeira visita à catedral em chamas em julho, a especialista lembra o cheiro de madeira queimada, chumbo derretido e a forte luminosidade, devido a buracos no telhado e à ausência de vitrais.

A cientista do CNRS, apaixonada por história, coordena o grupo acústico, que funcionará por cinco anos.

O papel desses especialistas é identificar as melhores estratégias de restauração para que a catedral recupere sua acústica inicial.

Para isso, Pardoen e seu colega Brian Katz têm um registro acústico de 2013, que será o ponto de partida.

– Retrocesso no tempo –

A engenheira também “voltará no tempo” com a ajuda de especialistas e historiadores.

Ela recriará o interior e o exterior da catedral e deduzirá “os ambientes sonoros da Notre-Dame em um determinado momento”.

“O órgão precisa encontrar sua essência sonora”, diz Pardoen.

Um trabalho minucioso, já que a localização e o tamanho das capelas mudaram, os corredores mudaram, as cornijas e os móveis foram modificados. Até o tecido urbano de hoje é completamente diferente.

O átrio, por exemplo, era muito menor.

“Tudo isso tem um impacto direto no que é ouvido”, explica Pardoen.

Em seguida, usando um modelo virtual, os dois especialistas poderão calcular como cobrir os buracos, visando principalmente às pedreiras onde serão coletadas as pedras destinadas à reconstrução da abóbada.

“Quando soubermos quem ganhou as diferentes licitações, visitaremos os artesãos selecionados”, acrescenta.

“Também verificaremos cada trabalho realizado para readaptar o modelo, se necessário, e dizer o que pode, ou não, continuar”, completa ela.

Especialistas em som farão recomendações, embora a escolha final não dependa deles.

“O cientista não tem controle sobre a política”, ressalta Pardoen.

Ela acredita que poderá começar as medições acústicas na catedral entre o final de outubro e o início de novembro. Até lá, será preciso encontrar o financiamento necessário, especialmente para o material que não poderá sair da catedral, porque seria “contaminado”.

“Não há vínculo entre o dinheiro doado e nossos empregos”, explica.

O certo é que ela e sua equipe farão todo o possível para que os sons recuperem sua particularidade antes do desastre.

Especialmente para os coros e o órgão.

“O instrumento foi construído quase sob medida, para uma acústica específica. Trata-se de nossa herança musical”, conclui a especialista.