A Argentina atravessa uma nova fase de dificuldades econômicas mesmo após os avanços obtidos pelo governo de Javier Milei no combate à inflação e no equilíbrio das contas públicas.
Quase 6 milhões de argentinos estão inadimplentes, o equivalente a 13,6% da população do país. O aumento das dívidas das famílias ocorre em meio ao fechamento de empresas, à deterioração do mercado de trabalho e à perda de poder de compra acumulada nos últimos anos.
O cenário coloca em evidência os diferentes efeitos do programa econômico implementado desde a chegada de Milei à Presidência, no fim de 2023.
Por um lado, o governo conseguiu reduzir significativamente o ritmo de aumento dos preços e reverter o déficit fiscal. Por outro, parte da população ainda enfrenta dificuldades para transformar a estabilização dos indicadores macroeconômicos em melhora efetiva das condições de vida.
Inflação desacelera e contas públicas melhoram
A redução da inflação está entre os principais resultados obtidos pelo governo Milei. Nos primeiros oito meses de 2026, a inflação mensal argentina oscilou entre 1,9% e 3,4%, distante dos níveis superiores a 25% ao mês encontrados no início da atual gestão.
As contas públicas também passaram por uma mudança significativa. No primeiro ano do governo, o país registrou superávit primário equivalente a 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), depois de encerrar o ano anterior com déficit de 2,9%.
O resultado foi alcançado após uma política de forte redução das despesas públicas, incluindo cortes em subsídios, obras, programas sociais e transferências para as províncias.
Depois de uma contração de 1,3% da economia no primeiro ano da atual administração, o PIB argentino cresceu 4,4% em 2025. Para 2026, o governo trabalha com expansão de 3%, enquanto sua proposta de Orçamento para 2027 prevê crescimento de 4% e inflação anual de 18% no próximo ano.
Mais de 30 mil empresas fecharam desde 2023
A recuperação, porém, ocorre de maneira desigual entre os diferentes setores da economia.
Atividades ligadas às exportações, principalmente petróleo, gás e mineração, foram beneficiadas, enquanto segmentos da indústria e do comércio dependentes do mercado interno enfrentam maior pressão.
Mais de 30 mil empresas teriam encerrado suas atividades desde o início do governo Milei, segundo levantamento do centro independente Fundar. O governo argentino contesta esses dados e argumenta que as mudanças fazem parte de um processo de reorganização econômica após anos de distorções.
Entre as empresas que encerraram operações estão a fabricante de pneus Fate e unidades industriais de grupos dos setores de calçados, eletrodomésticos e têxteis.
Desemprego aumenta e salário mínimo perde poder de compra
O mercado de trabalho também apresenta sinais de deterioração.
A taxa de desemprego passou de 5,7% no quarto trimestre de 2023 para 7,8% no primeiro trimestre deste ano. Entre novembro de 2023 e maio de 2026, 241.176 postos formais no setor privado foram eliminados, com a indústria respondendo por mais de um terço da redução.
Ao mesmo tempo, a retirada de subsídios provocou forte aumento das despesas das famílias com serviços essenciais.
Um indicador que acompanha tarifas de energia elétrica, gás, água e transporte público acumulou aumento de 966% entre dezembro de 2023 e julho deste ano. No mesmo período, a inflação acumulada ficou em 241%.
O salário mínimo também perdeu poder de compra. Entre novembro de 2023 e abril de 2026, a queda real chegou a 39,3%.
Endividamento vira novo problema
A combinação entre perda de renda, desemprego e despesas maiores levou parte das famílias argentinas a recorrer ao crédito para manter o consumo e pagar contas básicas.
O resultado aparece no avanço da inadimplência, que agora alcança quase 6 milhões de pessoas.
O crédito fora do sistema bancário também ganhou espaço, especialmente por meio de plataformas digitais, algumas delas oferecendo empréstimos com taxas de juros extremamente elevadas.
A estabilização da inflação criou ainda uma mudança na dinâmica das dívidas. Durante períodos de inflação muito elevada, o valor real das parcelas diminuía rapidamente. Com a desaceleração dos preços, esse efeito perdeu força e o peso dos empréstimos sobre a renda das famílias aumentou.
Governo aposta na continuidade da recuperação
Apesar das dificuldades enfrentadas pelas famílias e por setores da indústria, o governo Milei sustenta que o ajuste econômico criou as bases para um período de crescimento mais sustentável.
A proposta de Orçamento de 2027 enviada ao Congresso nesta semana prevê expansão de 4% do PIB, superávit comercial superior a US$ 15 bilhões e inflação anual de 18%. Para 2026, a projeção oficial é de crescimento de 3% e inflação de 29%.
O desempenho dos próximos meses deverá mostrar se a estabilização dos principais indicadores macroeconômicos conseguirá avançar para o mercado de trabalho e para a renda das famílias, hoje entre os principais pontos de pressão da economia argentina.
Da IstoÉ