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Após reunião com EUA, Turquia suspende ofensiva na Síria em troca de retirada curda

Após reunião com EUA, Turquia suspende ofensiva na Síria em troca de retirada curda

Um míssil disparado pelas forças turcas na direção da cidade síria de Ras Al Ain, a partir de Ceylanpinar, em 15 de outubro - AFP

A Turquia suspenderá sua ofensiva no norte da Síria por cinco dias, período em que as forças curdas deixarão a região e, assim que essa retirada estiver completa, o cessar-fogo será permanente, anunciou nesta quinta-feira (17) o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, após se reunir com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

A ofensiva turca “será totalmente interrompida quando a retirada for concluída” durante o período de cessar-fogo, disse Pence à imprensa após uma reunião de mais de quatro horas com Erdogan.

O presidente americano, Donald Trump, saudou nesta quinta a decisão e acrescentou que se trata de “um grande dia” para os Estados Unidos, Turquia e os curdos.

“Temos um cessar-fogo de cinco dias”, disse Trump de Forth Worth, no Texas. “Os curdos estão incrivelmente felizes com esta solução”, acrescentou o presidente, que expressou sua satisfação pelo fato de as negociações terem produzido resultados “tão rapidamente”.

“Suspendemos a operação, não a terminamos”, destacou o ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu. “Iremos encerrar a operação apenas após a retirada completa (dos combatentes curdos) da região”.

Do outro lado do confronto, o comandante de uma aliança de combatentes curdos e árabes que resiste à ofensiva lançada pela Turquia no norte da Síria anunciou que o grupo está disposto a respeitar a iniciativa de cessar-fogo.

“Estamos dispostos a respeitar o cessar-fogo”, anunciou o chefe das Forças Democráticas Sírias (FDS), Mazloum Abdi, em uma entrevista por telefone na rede de televisão curda “Ronahi”.

Batizada “Manancial de paz”, a ofensiva turca contra as forças curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG) no noroeste da Síria, lançada em 9 de outubro, provocou indignação internacional.

A ofensiva já deixou cerca de 500 mortos, um centena deles civis, e forçou a fuga de 300 mil pessoas, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

– Missão complicada –

A missão de Pence se anunciava complicada, tendo em conta a posição do presidente turco, que descartou “sentar-se à mesa com terroristas”, e as declarações confusas de Trump sobre esta questão.

O presidente dos Estados Unidos deu a entender que havia liberado esta ofensiva, antes de receber uma avalanche de críticas internacionais e de seu próprio partido, que solicitaram a ele que pedisse à Turquia para encerrar a operação.

Os países do ocidente apoiam as YPG por seu papel na luta contra os jihadistas do Estado Islâmico (EI), mas para Ancara as Unidades de Proteção Popular são um grupo “terrorista”.

– “Não seja tolo” –

Uma carta de Trump a Erdogan, na qual tentava convencer o presidente turco a não iniciar a ofensiva, que vazou na quarta-feira, provocou espanto em Washington. “Não seja um cara durão. Não seja tolo”, escreveu o dirigente americano.

Fontes diplomáticas informaram à CNN na Turquia que o presidente turco recusou a proposta e “jogou fora” a carta.

O objetivo da ofensiva é a criação de uma “zona de segurança” de 32 km de profundidade ao longo da fronteira. Este espaço permitiria separar a área das zonas sob controle das YPG e repatriar parte dos 3,6 milhões de refugiados sírios instalados na Turquia.

Esta operação transformou o norte da Síria no novo epicentro do complexo conflito que devasta o país desde 2011.

A pedido das autoridades curdas, o governo Bashar al-Assad enviou tropas para áreas que não controlava há vários anos. E, no plano internacional, a Rússia começou a ocupar o vazio deixado pelos Estados Unidos.

Para os países europeus, a operação contra os curdos, que administram as prisões onde estão os jihadistas do EI, gera o temor de fuga de combatentes extremistas e o ressurgimento do grupo.

Em um comunicado, o EI anunciou que uma unidade “de soldados do califado” atacou na véspera um quartel-general das forças curdas perto de Raqa, “libertando mulheres muçulmanas sequestradas” por combatentes curdos.

– Batalha de Ras al-Ain –

Na frente de batalha, os combates prosseguem, especialmente em Ras al-Ain, na fronteira com a Turquia, onde os curdos opõem forte resistência aos soldados de Ancara.

Atuando ao lado de milícias rebeldes sírias, o Exército turco avançou nesta quinta-feira na cidade, da qual controla quase 50%, segundo o OSDH.

Em 13 de outubro, as forças pró-Ancara já haviam conquistado outra cidade das milícias curdas na fronteira, Tal Abyad

Um correspondente da AFP na zona turca em frente a Ras Al Ain informou que ouviu ataques aéreos, disparos de artilharia e disparos de armas automáticas.

Nesta quinta, as autoridades curdas acusaram a Turquia de usar armas não convencionais, como fósforo branco e napalm. Ancara negou as acusações.