Cultura

Após 18 anos, Regina Casé retorna às novelas em ‘Amor de Mãe’

Certo dia, Manuela Dias, autora da nova novela das 9, Amor de Mãe, estava em um evento da Globo quando viu Regina Casé entrar no local. Naquela época, Manuela já estava escrevendo a novela e enxergou em Regina, ali na sua frente, a perfeita tradução do que seria uma das protagonistas de sua trama, Lurdes, nordestina batalhadora que se muda para o Rio com os filhos após seu caçula ter sido vendido pelo marido, alcoólatra, para uma traficante de crianças.

Quando a autora falou com Regina sobre a personagem, disse que ela era sua única opção e, caso não aceitasse o papel, essa protagonista não existiria. Regina conta essa história, orgulhosa, já no final da entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Ela diz que ficou encantada pela personagem, e pela possibilidade de trabalhar com Manuela e com o diretor artístico da novela, José Luiz Villamarim. Não tinha como recusar.

Sua Lurdes, em Amor de Mãe, que estreia nesta segunda-feira, 25, na Globo, no lugar de A Dona do Pedaço, marca o retorno de Regina Casé, aos 65 anos, às novelas como atriz, após anos a fio aparecendo na telinha como apresentadora, em programas como Brasil Legal, Muvuca e Esquenta! Na verdade, pelas contas da própria Regina, foram até agora só duas novelas inteiras em sua trajetória: Cambalacho (1986), como a icônica Tina Pepper, e As Filhas da Mãe (2001).

É como se a carreira de Regina, que começou no teatro, tivesse se desenvolvido ao longo das últimas três décadas em duas frentes principais: como apresentadora na TV e como atriz no cinema. E sua personagem Val, empregada doméstica de uma família de classe média alta, do premiado filme de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta? (2015), está entre seus papéis como atriz mais marcantes. Por esse ser um trabalho recente e também trazê-la como uma personagem pobre e nordestina, já há quem compare Val e Lurdes. “O que elas têm em comum é o que eu mais me orgulho na minha vida: é que eu seja uma atriz que pode ser convidada para fazer mulheres guerreiras, mulheres do povo, pobres, que lutam, que trabalham”, diz Regina, que em breve, poderá ser vista nos cinemas como uma caseira em Três Verões.

E emenda: “Atuei em filmes ou novelas fazendo cariocas ou paulistas, parece que o normal é ser carioca, o extraordinário é a pessoa ser nordestina. Quando comecei a fazer esse papel, me perguntavam: ‘Mas vai ser igual ao Que Horas Ela Volta?’. Por que todas as pessoas que nascem no Nordeste são iguais, e as que nascem no Sul e no Sudeste não? Por que todas as empregadas domésticas são iguais? Existe preconceito nisso e a gente nem se dá conta”.

Por causa dessas comparações, Regina conta que ficou com medo de usar o sotaque nordestino em Lurdes. Chegou a conversar sobre isso com o diretor, a autora e até Silvio de Abreu, diretor de dramaturgia da Globo. E recebeu apoio para seguir adiante. “Fui tomando coragem. O Silvio falou: se vier alguma coisa da Val, a gente só está no lucro. Todo mundo não adorou a Val? Se você puder trazer características, trejeitos da Val para Lurdes, vai ser maravilhoso. E eu relaxei. Porque, se ela ficar parecida com Val, vai ficar parecida com uma pessoa que todo mundo ama. Então, está ótimo.”

Protagonista nordestina

Amor de Mãe não apenas marca a volta de Regina Casé às novelas como também lhe dá sua primeira protagonista nesse formato. Mas essa personagem traz outros simbolismos. “A novela tem uma protagonista negra (Taís Araujo). A gente fala: que maravilha. Mas pensa também: em quantas novelas a protagonista era uma mulher da minha idade, nordestina, muito pobre? Isso é muito raro. Então, essa era uma oportunidade que eu não podia perder”, diz.

Ela divide o protagonismo da trama, como a babá Lurdes, com Adriana Esteves (Thelma) e Taís Araujo (Vitória). São três mães que vêm de mundos diferentes, mas que terão suas vidas conectadas. Para Regina, é um trabalho que vem carregado de desafios. Entre eles, as mudanças na própria rotina para cumprir a agenda pesada de gravações exigidas por uma novela. E também a confiança construída entre ela, Manuela Dias e Villamarim. “Eu não conhecia eles. E acho que muitos diretores tinham medo de me chamar para fazer um drama, porque eu era identificada pela comédia, eu estava há muitos anos como apresentadora, e esse é um papel muito central e eles tinham muita confiança que eu ia encarar aquele drama todo”, observa. “Mas deu sorte que uma das cenas que a gente gravou era a formatura da minha filha Camila (Jéssica Ellen), e eu me joguei totalmente no drama e ela também. Foi uma cena linda, acho que agora a gente está encontrando um lugar de confiança e, de vez em quando, posso fazer comédia, posso ser mais leve, já gravei cenas engraçadíssimas.”

Regina conta que sempre foi muito autoral, mesmo como atriz. “Acho que isso foi um medo que a Manuela tinha no início e eu também. Adoro improvisar, e ela tem um texto supercuidado, rebuscado, que foi justamente o que me atraiu. Eu vi Justiça e outros trabalhos dela. Quis trabalhar com ela, porque seu texto é incrível. Hoje em dia, a gente ganhou confiança dos dois lados, tenho conseguido contribuir e improvisar. Ela está segura. A gente está muito afinada.”

E o que a instiga a se dedicar a um novo trabalho? “Acho que o que me moveu a fazer Esquenta!, Central da Periferia, o que me move a fazer a Lurdes, Amor de Mãe sempre é trazer, da maneira mais linda e afirmativa, pessoas que são invisíveis. A TV ainda tem um peso grande para a cultura brasileira. Então, é muito importante que, na TV, a gente esteja vendo o que está acontecendo na rua, as pessoas que trabalham. Não interessa muito se estou como apresentadora ou como atriz. Se a TV está espelhando a gente, o Brasil, a rua, a vida, quero ter um jeito de trazer essas pessoas para a tela, para elas que veem tanta TV se vejam nela. Isso sempre foi o que me moveu.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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