Apoiadores de Correa lideram eleições no Equador e extradição permanece incerta

As forças do ex-presidente de esquerda do Equador Rafael Correa venceram no domingo as prefeituras de Quito e Guayaquil, enquanto o governo de Guillermo Lasso criticou nesta segunda-feira (6) da “incerteza” gerada pela lentidão da contagem do referendo, com o qual busca aprovação para poder combater a criminalidade com extradição.

Sem resultados definitivos, a capital e Guayaquil, segundo maior cidade do país. ficaram sob controle de políticos partidários de Correa, um ferrenho opositor de Lasso e que vive em asilo na Bélgica.

O referendo, que teve como pergunta central a aprovação da extradição, não evidencia o apoio da população previsto pelas pesquisas e pelo governo. Com 93% dos votos apurados na consulta realizada no domingo (5), o “não” à entrega de equatorianos para outros países alcançava 51% dos votos válidos ante 41% do “sim”, segundo os resultados preliminares do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

No entanto, em províncias como Guayas ou Manabí, ambas no oeste do país e com grande número de eleitores, a contagem de algumas perguntas feitas pelo referendo não chegava a 1%.

“Além de ser inexplicável, esta situação gera incerteza e confusão entre os cidadãos”, informou a Secretaria de Comunicação da Presidência, em nota.

Uma pesquisa da empresa Cedatos, encerrada no sábado, cujos dados foram divulgados por diversos veículos de comunicação após a votação concluída no domingo, mostrou 66% a favor do “sim”.

A extradição é proibida no país há oito décadas.

– Termômetro –

O governo de Lasso, um ex-banqueiro de direita no poder desde maio de 2021, teve reprovação de 80% dos consultados em dezembro.

Se o “não” vencer, “seria uma ratificação, uma legitimação desses dados baixos” sobre a popularidade do presidente, disse à AFP o cientista político Santiago Basabe, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) de Quito.

Apesar do lento escrutínio das outras sete questões do referendo, já se nota a rejeição do eleitorado a todas as propostas de Lasso de fazer reformas constitucionais em matéria de segurança, política e meio ambiente.

Em paralelo à consulta, os equatorianos elegeram cerca de 5.700 autoridades locais em um processo marcado pela violência que assola o país, em grande parte por causa do tráfico de drogas, que deixou dois candidatos a prefeito mortos.

O ‘correísmo’, movimento de apoio ao ex-presidente Rafael Correa, venceu nas prefeituras de Guayaquil e da província de Guayas com Aquiles Álvarez e Marcela Aguiñaga, respectivamente. Também recuperou a corporação municipal de Quito com Pabel Muñoz e conseguiu a reeleição da prefeita de Pichincha (da capital Quito), Paola Pabón, por mais quatro anos.

Assim, Guayaquil – centro comercial do Equador – deixou de ser o reduto nas últimas três décadas do Partido Social Cristão (PSC), de direita, ex-aliado de Lasso nas eleições de 2021.

Nem mesmo Correa conseguiu deter o PSC durante seus dez anos de governo (2007-2017). O ex-presidente mantém sua influência apesar de viver na Bélgica há seis anos e de ter sido condenado em 2020 a oito anos de prisão por corrupção.

Guayaquil mostra que “outros atores começam a ganhar espaço” naquele outrora inexpugnável bastião da direita social-cristã, estimou Basabe.

E as eleições são “uma indicação de que a Revolução Cidadã tem uma estrutura política que vai além da mera presença de Correa”, acrescentou.

– Anos difíceis –

O correísmo assumiu o controle de pelo menos sete das 23 prefeituras provinciais nas eleições de domingo, antecipou Pabón à imprensa. Ao mesmo tempo, o movimento Criando Oportunidades (Creo) de Lasso perdeu força.

Com a oposição à frente dos governos locais, “serão anos muito difíceis para a agenda do Executivo, que com certeza terá que governar no dia a dia, sem pensar na possibilidade de políticas de médio prazo”, disse Basabe.

Lasso, eleito até 2025, promove a extradição de equatorianos envolvidos com o crime organizado transnacional como uma ferramenta para fortalecer sua luta contra o narcotráfico.

O objetivo não declarado do governo é a entrega de narcotraficantes para os Estados Unidos, onde costumam ficar presos por muitos anos. A vizinha Colômbia, maior produtora mundial de cocaína no mundo, aplica essa medida desde a década de 1990.

A Revolução Cidadã e o Pachakutik, braço político da Conaie, maior organização indígena do Equador, promoveram o ‘não’ ao referendo.

Lasso também propôs a redução do número de deputados, agora 137; controles de centenas de movimentos políticos, alguns suspeitos de terem ligações com o narcotráfico; a incorporação de sistemas hídricos a áreas protegidas para combater o garimpo ilegal; e o pagamento de compensações financeiras para aqueles que protegem o meio ambiente.

O Congresso terá um ano para implementar as mudanças constitucionais que forem aprovadas pelo referendo.

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