Cultura

Apocalipse agora

“O Silêncio”, novo romance do premiado autor americano Don Delillo, narra o caos causado por um apagão tecnológico no cotidiano de cinco pessoas

Crédito: Leonardo Cendamo

SUBVERSIVO Don Delillo: sempre uma voz de oposição ao sistema (Crédito: Leonardo Cendamo)

Don Delillo nunca foi obcecado por escrever o tradicional “Grande Romance Americano”, desejo realizado com sucesso por diversos autores. A vontade de entrar para a história como dono da obra que traduziria definitivamente a identidade do país marcou a trajetória, por exemplo, de Hemingway, Faulkner e Steinbeck, mas o poderoso triunvirato que surgiu na sequência, Don Dellilo, Philip Roth e John Updike, estava mais preocupado com os dilemas sociais e existenciais do cidadão comum que com épicos sobre a liberdade ou a conquista do Oeste.

Don Delillo, especificamente, construiu uma carreira premiada dando ênfase a temáticas instigantes e opostas aos grandes sistemas vigentes — governos, corporações, crenças populares. Foi a linguagem, no entanto, que lhe rendeu a alcunha de maior ícone da literatura pós-moderna nos EUA. Isso veio com seu primeiro grande sucesso, “Ruído Branco”, e seguiu inabalado em obras como “Libra” e “Cosmópolis”, até chegar a “O Silêncio”, seu novo lançamento.
A trama é simples: um apagão tecnológico atinge o mundo em 2022 e provoca reações imediatas na vida de cinco pessoas: um casal interracial que sobrevive a um acidente aéreo; um jovem professor de física; a ex-professora dele e seu marido. Conhecendo o autor, já se sabe que esse encontro não seria convencional. Na mão de outros, uma pane global traria cenas de cidades em chamas e pessoas desesperadas pelas ruas. Delillo oferece o oposto: um silêncio ensurdecedor. Nas conversas entre os personagens, não se sabe ao certo se as palavras são pronunciadas ou apenas imaginadas, reflexões de quem está confuso demais para externar seus sentimentos.

Lançamento 

“O Silêncio” Don Delillo
Companhia das Letras
Preço: R$ 49

Há uma apatia mental generalizada porque, sem os aparelhos piscando por toda parte, somos levados a pensar por nós mesmos. Os problemas enfrentados pela desconexão revelam uma total dependência tecnológica, mas Delillo opta por não mostrar o impacto generalizado — apenas seu reflexo sobre poucos indivíduos. Em vez de sirenes, o único som aqui é o dos passos do homem que é obrigado a subir as escadas porque o elevador pifou; ou o da decepcão do outro, que encara fixamente a tela escura da TV porque a falta de energia impede que ele assista à final do Superbowl. São problemas pequenos perto da crise que eventualmente se instalará, mas mostram o descontrole do ser humano diante da tecnologia que o controla. Delillo nos lembra que, em meio ao apocalipse que criamos para nós mesmos, o volume inexistente de TVs e celulares pode incomodar mais que explosões e gritaria.