Brasil

Apagando fogo com diesel

Petrobras anuncia aumento de 9,15% no diesel e 7,04% na gasolina no momento que caminhoneiros articulam uma greve. De forma confusa, Planalto sugere privatizar a estatal e oferece auxílio de R$ 400 à categoria, que rejeita “assitencialismo eleitoreiro”

Crédito: Keiny Andrade
“ENROLÃO” O ministro Tarcísio de Freitas: reunião com caminhoneiros desmarcada (Crédito:Divulgação)

Enquanto os caminhoneiros em todo o País organizam uma greve para o dia 1º de novembro, a Petrobras anunciou na segunda-feira 25 um novo aumento nos combustíveis. O óleo diesel foi reajustado em 9,15% e a gasolina, em 7,04%. O timing da medida não podia ter sido pior — a elevação nos preços jogou óleo diesel na fogueira. A reação foi imediata: no dia seguinte, terça-feira 26, houve paralisações na BR-316 no estado do Pará. Os profissionais da categoria estavam atentos às falas do presidente — ele reclamou que não podia impedir o aumento de preços, mas que não era o “malvadão”. Não é bem assim: a instabilidade política gerada pelo comportamento do presidente, tem, sim, causado inflação, quedas da bolsa de valores, desvalorização do real e aumento sistemático do dólar. No início do ano, o valor do litro do diesel custava nas bombas R$ 3,55, conforme média apurada junto à Agência Nacional do Petróleo (ANP) no estado de São Paulo. Há variações em todo o País. De maneira geral, os reajustes fizeram o valor superar R$ 5 na maioria dos postos. Nas refinarias o diesel subiu 65% em 2021, e é comercializado por R$ 3,34. A Petrobras justificou o aumento em nota: “Esses ajustes são importantes para garantir que o mercado siga sendo suprido em bases econômicas e sem risco de desabastecimento”.

A situação ameaça a atividade dos profissionais rodoviários. O deputado federal Nereu Crispim (PSL-RS), líder da Frente Parlamentar dos Caminhoneiros, cobra uma solução de Bolsonaro. Ele afirma que o presidente se comprometeu com a regulação do setor, mas hoje se dedica exclusivamente a trabalhar para os investidores internacionais. “A Petrobras teve lucro de R$ 42,8 bilhões no segundo trimestre. Em dois anos e meio, o presidente só usou os caminhoneiros para seus interesses”, disse o deputado. Ele reclama do estigma que ficou ligado ao setor. Os atos em Sete de Setembro, com “aquelas patifarias de pautas antidemocráticas, não têm nada a ver com o os caminhoneiros. Nós não queremos saber de fechamento do STF, queremos redução do preço do óleo diesel”, defendeu Crispim. Ele também disse que a Frente Parlamentar entrou com ação por danos morais e materiais contra o presidente.

Havia uma reunião marcada para o dia 28 entre os líderes da categoria e o governo. Os representantes do Planalto seriam os ministros Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Paulo Guedes (Economia). A reunião, no entanto, foi desmarcada na última hora. Crispim disse que o ministro Tarcísio é “conhecido como enrolão” e desmarcou o encontro porque já sabia do reajuste e nada teria para discutir.

Eleito com a promessa de intervir no preço dos combustíveis, Bolsonaro trocou o presidente da Petrobras em fevereiro. No lugar do executivo Roberto Castello Branco, entrou o general da reserva Joaquim Silva e Luna. O mercado internacional viu com desconfiança um militar à frente da estatal, mas a temida intervenção não aconteceu.

Pressão política

Com a pressão política e queda da popularidade, Bolsonaro sugeriu que a privatização da empresa talvez fosse a solução. O mercado não acredita que o governo tenha falado sério, mas houve quem se animasse e as ações da estatal chegaram a subir. O presidenciável Ciro Gomes (PDT) foi sucinto no caso. “Se venderem, eu tomo de volta”, divulgou o pré-candidato à Presidência. Nem Bolsonaro acredita nessa possibilidade. Em um discurso confuso, o presidente disse que a privatização “é uma complicação enorme”. A Petrobras, por sua vez, pediu, formalmente, esclarecimentos ao Planalto se havia estudos sobre essa eventual negociação. Guedes encerrou o assunto com sua sutileza habitual: disse que a empresa “vai valer zero daqui a 30 anos”.

“O motorista se sentiu ofendido com o auxílio de R$ 400. Ele não quer esmola eleitoreira” Nereu Crispim, deputado federal (Crédito:Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

A desconfiança no governo é visível. Wania Pinto, diretora financeira da Dover Feuling Solutions – empresa norte-americana que trabalha com equipamentos de tanques e combustíveis – entende que a oscilação do dólar e as incertezas quanto às políticas econômicas não apontam para uma solução em curto prazo. Ela também não acredita na privatização da Petrobras como resposta ao problema. “Sua privatização pode até aliviar o governo de sofrer cobranças da população, mas não reduziria os preços dos combustíveis. O que resolve é economia forte e população com dinheiro no bolso”. O professor de economia, Hugo Garbe, disse que a promessa inicial do presidente de controlar os valores nunca foi possível. “Nem mesmo na China e EUA os presidentes têm autonomia sobre o petróleo”. Ele sugere, como estratégia emergencial, que o governo subsidie os caminhoneiros, como já ocorre em alguns estados dos EUA. O Estado tambem pode intervir para garantir um frete mínimo.

A solução da Presidência foi manifestada com um auxílio-diesel para 750 mil caminhoneiros no valor de R$ 400. O investimento seria de R$ 3,6 bilhões por ano, mas não há previsão de onde sairá a verba. A categoria não recebeu bem a notícia. “O motorista se sentiu ofendido com auxílio de R$ 400. Ele não quer esmola. Passou a ideia de que o caminhoneiro quer viver com assistencialismo eleitoreiro”, afirmou o deputado Nereu Crispim. Além de não resolver o problema do valor do frete, a ideia de igualar profissionais liberais a pessoas que passam necessidade e estão abaixo da linha da pobreza incomodou o setor. O valor é exatamente o mesmo do novo programa “Auxílio Brasil”, que o governo quer emplacar no lugar do “Bolsa Família”.