Cultura

Antonio Bivar, o Quentin Crisp brasileiro

Em setembro do ano passado, o romancista e dramaturgo Antonio Bivar, que morreu no domingo, 5, vítima do novo coronavírus, lançou a que seria a última parte da autobiografia, Perseverança, aos 80 anos. Vivendo de maneira monástica com uma aposentadoria minúscula, Bivar poderia ter chegado ao último capítulo de sua vida com maior conforto, mas isso não combinaria com um homem rebelde que, nos anos 1980, deu o pontapé inicial do movimento punk brasileiro.

Seu sobrinho, o pintor Rodrigo Bivar, lembrou que sua indiferença ao covid-19 tem muito a ver com seu estilo de vida: “Em essência, ele foi uma pessoa punk, fazia o que dava na telha. Essa rebeldia, até um pouco irresponsável, não era puramente comportamental. Foi também o que constituiu a obra dele como artista”, analisa Rodrigo, lembrando que, como última consequência, essa mesma rebeldia o levou a não tomar todos os cuidados que poderia em relação ao novo coronavírus.

Expoente da geração 1960 no teatro, ao lado de Consuelo de Castro, José Vicente e Leilah Assumpção, Antonio Bivar, apesar dessa indiferença, era um leitor voraz, antenado com tudo o que acontecia no mundo literário e teatral, mesmo sem ter voltado aos palcos. Não tinha paciência com a vaidade de atores e diretores, costumava justificar. Suas peças, aliás, eram o oposto dessa arrogância comum entre atores: tratavam de gente fora do eixo, sem ambições materiais. Seu primeiro texto teatral, Cordélia Brasil, que teve como protagonista Norma Bengell (1935-2013), foi apontado na época (1968) como uma das maiores contribuições para o movimento tropicalista, isso no ano do AI-5 – desnecessário dizer que ela foi censurada.

Outras duas peças vieram depois de Cordélia Brasil: Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã e O Cão Siamês de Alzira Porra-Louca (título abreviado para Alzira Power). Por esses textos, Bivar recebeu os principais prêmios teatrais como autor de 1968 e 1971, em São Paulo e no Rio de Janeiro (eles foram reunidos na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

Todas essas peças tratam da revolução social e sexual que os jovens dos anos 1960 promoveram com sua rebeldia. Cordélia Brasil é seu texto mais encenado (houve uma remontagem em 2008, dirigida por Gilberto Gawronski, com Maria Padilha). Há nele uma auxiliar de escritório que se prostitui para ajudar o marido que quer ser desenhista de quadrinhos. Ela se envolve com um menor de idade, formando um triângulo nada equilátero com o companheiro. Naturalmente, a relação não termina nada bem. Bivar falava de bissexualidade numa época em que homossexualidade levava pessoas à prisão no Brasil – eram constantes as batidas policiais em clubes noturnos clandestinos gays.

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Essa ousadia tinha muito a ver com suas leituras de escritores libertários como o norte-americano James Baldwin (1924-1987) e a inglesa Virginia Woolf (1882-1941), que idolatrava. Baldwin era militante homossexual e negro, autor de um livro icônico da comunidade gay, O Quarto de Giovanni, sobre a relação assimétrica entre um americano classe média e um garçom italiano na Paris boêmia dos anos 1950. Virginia Woolf teve relações extraconjugais com mulheres e uma sensibilidade muito próxima de Bivar, gentil com os amigos, solidário e sempre aberto a novas experiências – parece natural que ele experimentasse alucinógenos como o LSD, influenciado pela leitura de grandes autores que consumiam drogas, como William Burroughs ou Aldous Huxley, dois escritores que “fizeram a cabeça” da geração beat e hippie, respectivamente.

Bivar viajou muito, também em busca de novas experiências, como recomendava outro autor celebrado pelos jovens dos anos 1960, o Nobel Hermann Hesse, cujos livros Sidarta e O Lobo da Estepe foram guias essenciais de jovens rebeldes em busca da iluminação. Sua cidade preferida era Londres, a “swinging London” que acolhia os jovens rebeldes de todo o mundo com suas promessas de uma vida livre das convenções.

Muito amigo de Rita Lee, que dirigiu em shows nos anos 1970, os dois teriam produzido grandes espetáculos teatrais (ele a considerava uma atriz genial) se Bivar não fosse avesso à vida pública. Quando penso nele, a figura que vem imediatamente à cabeça é Quentin Crisp (1908-1999), não só pelos livros autobiográficos que narram sua vida excêntrica (The Naked Civil Servant e An English in New York) como pela indiferença de Crisp ao que as pessoas “normais” consideram um estilo de vida decente. Crisp assumiu publicamente sua homossexualidade em 1931, quando o movimento gay era “impensável”. Usava roupas extravagantes, apanhava na rua e voltava para apanhar ainda mais uma vez, exercendo seu direito de ser um personagem flamboyant (criado numa família suburbana de Sutton, vestia-se de mulher e frequentava cafés no Soho numa época em que a homossexualidade era considerada crime na Inglaterra).

Enfim, como Crisp, Bivar viveu o bastante para atestar que Virginia Woolf estava certa ao dizer que, quanto mais se vive, mais se gosta da indecência. “Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento”, dizia Woolf. Em tempo: Bivar era o único brasileiro membro da Virginia Woolf Society of Great Britain.

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