Comportamento

Antissemitismo nos quadrinhos

Mensagens subliminares em histórias envolvendo os super-heróis mais famosos da ficção vão contra qualquer heroísmo: incitam o discurso de ódio e superioridade entre raças

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INFILTRADO Joe Bennett usou seu talento para exaltar Bolsonaro nas redes sociais (Crédito: Divulgação)

Antes de se tornarem sucessos incontestáveis nas telas do cinema, as histórias de personagens como Homem-Aranha, Hulk, Capitão América e tantos outros eram — e ainda são — publicadas em quadrinhos, o palco principal de grandes aventuras. Envolvendo uma variedade de temas: amor, amizade e heroísmo em prol do bem comum, as narrativas conquistaram milhões de pessoas de todas as idades ao redor do mundo. Porém, assim como em todas as formas de arte, erros acontecem — e muitas vezes nas formas mais horrendas: na promoção do ódio entre culturas, raças e religiões.

A mais recente polêmica fez com que o ilustrador paraense Joe Bennett fosse demitido da Marvel Comics, uma das gigantes do ramo. Em fevereiro, o quadrinista Benedito José Nascimento, conhecido pelo público por seu nome artístico americanizado, ilustrou uma cena bastante problemática envolvendo o judaísmo e o incrível Hulk. A imagem apresenta o Hulk Cinzento, chamado Joe Fixit, no controle do corpo de Bruce Banner. O personagem é um vigarista, de má índole que nada faz quando vê um jovem negro sendo agredido por policiais. Mesmo sendo vilão, quando Joe entra em uma loja de joias, não há margem para interpretações de que aquilo seria apenas uma artimanha do mal, mas sim uma mensagem subliminar antissemita que vai além do personagem e entra no campo do criador.

PRECEDENTES Em 2017, o artista Ardiaf Syaf incluiu referências antissemitas em X-Men Gold; o criador do Tintin,
o belga Hervé era racista e antissemita (Crédito:Divulgação)

Joe Bennett desenhou uma estrela de David na vidraça do estabelecimento e colocou o letreiro “Jewer”, termo racista usado em relação aos judeus. Como “Jewelry” é joalheria em inglês, e judeu é “jew”, os personagens que estão na frente da vitrine, escondem letras cruciais para ver a palavra correta. A estrela de Davi, conhecido símbolo judeu, desenhado logo abaixo, fazem as desculpas dadas pelo autor como “mal entendido” soarem ainda mais ofensivas. E, para coroar, o colar de diamante é vendido por um preço alto e com juros. Estereótipo ligado aos judeus, que seriam gananciosos, preocupando-se apenas com dinheiro. A Marvel pediu desculpas e imprimiu novamente a edição. Após esse episódio, o famoso escritor Al Ewing ficou sabendo de outra charge feita pelo brasileiro, dessa vez em 2017, com o presidente Jair Bolsonaro representado como um cavaleiro perseguindo seus inimigos. Ewing reparou que o combate remetia à maneira como os nazistas perseguiam os judeus, frequentemente representados como ratos. Mesmo tendo sido publicada apenas nas redes sociais, a imagem foi a gota d’água para Ewing, que foi ao Twitter fazer uma série de denúncias contra Bennet, que acabou demitido.

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Para a antropóloga Suzana Coutinho, professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, esse tipo de ódio é reflexo da falta de contexto histórico. Se Bolsonaro se diz um aliado de Israel, seu apoiador está em um conflito de ideias. “Fora que o impacto negativo que uma imagem dessas pode ter nas crianças e adolescentes é enorme. A nuance dessas mensagens são extremamente prejudiciais”, diz. Com o atual governo, as pessoas também se sentem livres para opinar em voz alta algo que jamais deveria ser dito. “Nem tudo é liberdade de expressão”, explica.

Não é caso isolado

A história evoca outra controvérsia da Marvel. Em 2017, o artista Ardiaf Syaf apresentou uma série de referências antissemitas ocultas em X-Men Gold. Syaf incluiu referências ao versículo do Alcorão Sura 5:51 ou QS 5:51 que aconselha aos praticantes a não confiarem em mestres judeus ou cristãos. O ilustrador colocou um dos personagem com a estampa QS 5:51 em sua camisa. Isso sem contar o herói Tintin, cujo criador, o desenhista belga Hergé, promovia estereótipos racistas e antissemitas. Tintin, por exemplo, em suas viagens ao Congo, na época do imperialismo, encontra os habitantes locais e os descreve como ignorantes, brutos e desenhados com rostos pretos e lábios gigantescos em vermelho — o “black face”. Apesar de as histórias terem sido reformuladas na atualidade, as imagens são impactantes. Seja como for, referências preconceituosas e que estimulem a cultura do ódio e a eliminação de minorias devem ser banidas a todo custo dos quadrinhos e de qualquer outra forma de expressão.

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