O ano de 2025 foi marcado por um cenário atípico para as síndromes respiratórias agudas graves (SRAGs) no Brasil, com alta intensidade e circulação prolongada de vírus respiratórios muito além do período sazonal esperado. O resultado foi um quadro de imprevisibilidade e sobrecarga do sistema de saúde, fora do calendário tradicional para essas doenças.
Os boletins do InfoGripe, plataforma do Sistema Único de Saúde (SUS) que monitora os casos de SRAG no país, registraram números elevados de hospitalizações e óbitos, além de um fenômeno incomum no padrão brasileiro: duas ondas de influenza A no mesmo ano, que se estenderam pela primavera e pelo verão. A Covid-19 manteve impacto relevante na mortalidade, sobretudo entre idosos, enquanto outros vírus respiratórios continuaram a pressionar as internações, especialmente entre crianças.
“O desafio é amplo porque é preciso fazer maiores gastos para realizar diagnósticos diferenciais”, explica o infectologista Moacyr Silva Junior, do Einstein Hospital Israelita. “Temos uma alta taxa de internação não só pela influenza, mas também pela Covid-19 e pelo vírus sincicial respiratório [VSR]. Tudo isso vai sobrecarregando o sistema de saúde.”
Ao final do ano epidemiológico de 2025, o Brasil havia notificado mais de 230 mil casos de SRAG, com pouco mais da metade apresentando confirmação laboratorial para algum vírus respiratório, e 13.678 mortes. Entre os casos positivos, o VSR respondeu pela maior parcela das notificações, seguido pelo rinovírus e pela influenza A. Já entre os óbitos, a influenza A concentrou a maior proporção, seguida pela Covid-19 — que, mesmo com menor incidência ao longo do ano, manteve peso elevado na mortalidade.
“Foi um ano atípico por dois aspectos: primeiro, pela intensidade, principalmente da influenza A, com um número elevado de casos graves, o que não é comum. Em segundo lugar, observamos uma segunda onda da influenza A, o que também foge do padrão”, observa a pesquisadora Tatiana Portella, do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do InfoGripe. “Geralmente, observamos uma onda por volta de abril e maio, mas em 2025 houve uma segunda onda na primavera e no verão.”
Dinâmica redefinida
Foi nesse contexto que, em dezembro, pesquisadores da Fiocruz identificaram, pela primeira vez no Brasil, o subclado K do vírus influenza A (H3N2). A detecção ocorreu a partir do sequenciamento genômico de uma amostra coletada em Belém, em uma viajante estrangeira, e foi classificada como caso importado, sem indícios de transmissão local.
O achado chamou atenção por estar associado à circulação recente do vírus no Hemisfério Norte, mas não representa, por si só, uma mudança imediata no padrão da gripe no país. Por enquanto, o foco da vigilância em saúde continua sendo identificar qual vírus está por trás de cada caso de SRAG, visto que eles apresentam comportamentos distintos.
A influenza, especialmente a do tipo A, está historicamente associada a maior mortalidade em idosos; o VSR é a principal causa de internações graves em crianças pequenas; o rinovírus, tradicionalmente visto como causador de quadros leves, aparece de forma consistente entre os casos graves, sobretudo em pediatria; e a Covid-19, embora hoje menos frequente em número absoluto, mantém impacto desproporcional nos óbitos.
O início de 2026 tem sido descrito como relativamente mais tranquilo. O boletim do InfoGripe referente à primeira semana epidemiológica deste ano, publicado em 8 de janeiro, apontou queda dos casos de SRAG nas tendências de curto e longo prazo e ausência de níveis de alerta na maior parte do país. A exceção está na região Norte, onde alguns estados ainda registram aumento de hospitalizações por influenza A, sobretudo entre adultos e idosos, e entraram em alerta para SRAG por Influenza A no dia 15 de janeiro.
Segundo Portella, ainda é cedo para fazer projeções consolidadas sobre o comportamento dessas síndromes em 2026. “Temos modelos que indicam o que se espera das doenças, mas precisamos aguardar a atualização dos dados. Para influenza e VSR, geralmente esperamos aumento no outono e inverno. Já a Covid-19 é mais difícil de prever, porque não é um vírus sazonal e depende do surgimento de novas variantes”, explica. As análises dependem da atualização contínua dos dados de vigilância, que orientam tanto a leitura do risco quanto o planejamento das campanhas de vacinação.
Sazonalidade
Diferentemente das outras doenças, a Covid-19 não apresenta sazonalidade clássica. Ao contrário da influenza e do VSR, cuja circulação costuma se intensificar no outono e no inverno, o vírus Sars-CoV-2, que provoca a Covid-19, tende a registrar aumentos associados principalmente ao surgimento de novas variantes, o que torna sua dinâmica menos previsível ao longo do ano.
“Mas há também a questão climática. Tivemos um período mais prolongado de frio em muitas regiões do país, o que pode ter contribuído para uma alta mais prolongada da influenza”, observa a pesquisadora do InfoGripe.
Juntos, esses agentes redefiniram a dinâmica das doenças respiratórias graves no país e ampliaram a pressão sobre o sistema de saúde. Ao todo, 2025 registrou 120.176 internações por SRAG. Para reforçar o atendimento, o Ministério da Saúde destinou R$ 100 milhões aos municípios para o cuidado de crianças e R$ 50 milhões para pacientes adultos. “Essa situação pega os sistemas de saúde desprevenidos. Não se espera observar uma alta de hospitalização por gripe, por exemplo, na época de primavera ou verão. Então, tudo isso afeta a população e o sistema de saúde”, diz Portella.
Baixa cobertura vacinal
Um fator relevante para esse cenário foi a baixa adesão às vacinas, especialmente contra a gripe. “O problema crônico é a vacinação. Sabemos que a adesão está aquém do esperado, o que favorece a circulação desses vírus”, afirma o infectologista do Einstein. O aumento das hospitalizações foi agravado pelas temporadas atípicas dos vírus H1N1 e H3N2 em 2025. “A vacina [da gripe] disponível protege contra as linhagens circulantes, mas tivemos duas temporadas que contribuíram para duas ondas do vírus”, observa Silva Junior.
No ano passado, a cobertura vacinal contra influenza entre os grupos prioritários durante a campanha do meio do ano ficou em 53,43%, segundo o Ministério da Saúde. Esse percentual é insuficiente para reduzir hospitalizações e mortes. A cobertura vacinal contra a Covid-19 foi ainda menor, de 3,49%. A proteção incompleta favoreceu a circulação prolongada dos vírus e a ocorrência de ondas sucessivas ao longo do ano.
Nesse cenário, a prevenção é fundamental, independentemente de picos ou períodos de aparente calmaria. Medidas como manter a vacinação em dia, adotar etiqueta respiratória, evitar circular com sintomas gripais e usar máscara em ambientes de maior risco continuam sendo decisivas para reduzir a transmissão e o impacto das doenças respiratórias. “As pessoas deixaram de adotar cuidados básicos, como etiqueta respiratória e uso de álcool em gel. Acho que não aprendemos muito com a pandemia [de Covid-19]. Pelo contrário, esquecemos”, lamenta o médico do Einstein.
Fonte: Agência Einstein
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