Amor em tempos de cloroquina

Olhando de fora ninguém compreendia como é que duas pessoas tão diferentes podiam estar casadas há mais 30 anos. Flora e Moacir não tinham nada em comum, mas mesmo assim, deram certo. Moacir é churrasco, Flora é lasanha. Moacir é cachorro, Flora é gato. Na época da Democracia Corinthiana, Moacir foi Gaviões. Flora é Mancha Verde que nem o pai. Tiveram um casal de filhos. O rapaz casou com um empresário de sucesso, para alegria da Flora, que sempre foi mais apegada a ele, a filha é médica, formada na USP, para orgulho do Moacir, que pendurou uma xerox do diploma no consultório.

Moacir é da ciência. Dentista. Flora é coração. Dá aulas de yoga, tarô e está estudando constelação familiar. Moacir votou no Haddad. Na adolescência foi filiado ao PT. Flora acumula uma coleção de votos de dar inveja ao Olavo de Carvalho. Votou no Maluf, no Collor e no Bolsonaro. Mas o amor dos dois supera todas essas diferenças.

– Amor é conceder. Esse é o segredo. — Flora explica para as amigas. Romântica, faz questão de colocar no Facebook todas as bodas que completam. Sabe todas de cor, até as mais insólitas. O filho se diverte:

– Mãe, fala pro Cláudio quais são bodas de 26 anos.

– Bodas de Alexandrita. Eu e seu pai fizemos em 2012.

– E 43, dona Flora? — o Cláudio arrisca perguntar.

– De Azeviche. A gente chega lá…Veio a quarentena.

Moacir ficou obcecado em se proteger. Lavava as mãos até depois de abrir a geladeira e andava pela casa com um frasquinho de álcool em gel pendurado no pescoço. Passava os dias nas redes sociais, divulgando dados, estatísticas e projeções. Sabia de cabeça frases inteiras do Mandetta. Moacir tinha razões de sobra para apoiar o ministro.

Primeiro porque, como em qualquer outro assunto, o que o Bolsonaro apoiava, Moacir era contra. Segundo porque era grupo de risco três vezes: tinha mais de 60 anos, bronquite e ainda fumava escondido. Flora, por outro lado, discípula do presidente, não estava nem aí para o coronavírus. Saia de casa sem constrangimento e nem levava álcool na bolsa. Não deu outra.

Adivinha quem pegou covid 19? O Moacir, claro. Começou com uma tossinha seca. Evoluiu para dor de garganta e febre. Moacir vibrava, feliz em poder calar a boca da mulher e do presidente.

– Viu? Não te disse que era um perigo?

Foram ao hospital.

Tinham acabado de receber um lote de exames.

Moacir fez o teste e voltou para casa empolgado.

Em breve teria que ser internado, só para provar seu ponto.

Flora nem aí.

– Mas que UTI que nada, amore. Esse corona é uma gripinha. Você vai ver.

Quando o resultado positivo saiu, 48 horas depois, Moacir já estava curado.

– É praga desse Bolsonaro, viu? — desabafou assistindo o presidente dar a mão para seus eleitores na padaria.

Imunizado, Moacir já não usava máscara e guardou o frasco de álcool em gel, muito a contra gosto.

Mas continuava impaciente com o presidente.

Redobrou seu trabalho de difundir a importância do isolamento, usando as redes sociais.

Já Flora, entediada, procurou o que fazer em casa.

Decidiu arrumar gavetas.

E foi justo na gaveta da mesinha de cabeceira do marido que encontrou, nada mais, nada menos, que uma caixa de cloroquina.

Enquanto Moacir assistia a entrevista do Doria, Flora entrou na sala balançando a caixinha do remédio.

– Muito bonito hein, seu Moacir! Quer dizer então que o Bolsonaro é isso, é aquilo, mas na cloroquina o senhor acredita, né?
Moacir encabulado teve que admitir.

Segundo ele, afinal, ideologia não baixa febre.

Amor é conceder.

Flora vitoriosa, deu um beijo na testa do marido e pensou: Ano que vem são bodas de Coral.

Esse casal é a prova viva que os opostos se atraem. Mesmo em tempos de pandemia, amar é conceder, esse é o segredo!


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