Amor e ódio na arte com Picasso e Matisse

Amor e ódio na arte com Picasso e Matisse

Amor e ódio caminham lado a lado e, apesar de possuírem aspectos aparentemente distintos, a relação entre estes dois sentimentos é íntima, para não dizer explosiva. Na arte, o mesmo acontece. Pintores se aproximam por estarem em um mesmo momento de vida e em uma única sintonia. Apreciam as obras uns dos outros e trocam figurinhas. Mas, de repente, sem explicação, o amor vira ótimo. A admiração vira disputa e o respeito desaparece para sempre.

No ringue das telas, uma das maiores brigas de amor e ódio que tivemos foi entre Henri Matisse e Pablo Picasso. Os dois se amavam, respeitavam e trocavam ideias sobre técnicas e cores. Picasso dizia em alto bom tom que o colega era o maior mestre na mistura de cores. Matisse retribuía o elogio com outro maior e os dois viviam felizes até que um dia o encanto acabou assim sem dar aviso prévio, como o amor entre um casal.

Sem preparar o coração e muitas vezes sem um grande fato como motivador, os dois brigaram e passara a se odiar em segredo num primeiro momento e depois abertamente para quem quisesse ouvir. Quem acompanha o mundo da arte sabe dessas desavenças que acabaram ficando esquecidas com o passar dos anos. Em 2009, as fofocas voltaram a toda velocidade quando o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) pegou esse gancho e decidiu fazer uma exposição com obras dos dois artistas. E que exposição!

O museu já tinha feito duas retrospectivas sensacionais anteriormente (Picasso em 1980 e Matisse em 1992), mas foi atrás de outros museus para reunir o máximo possível de obras. A Tate Modern de Londres, o Musée Picasso e o Centre Pompidou de Paris cederam quadros dos dois artistas e exposição ganhou forma, eternizando de vez as disputas que pareciam estar adormecidas.

Matisse chegou a dizer que ele e Picasso eram “tão diferentes quanto o polo norte e sul”. Os amigos riam sem levar a sério, pois as duas regiões eram semelhantes em termos de temperatura e de natureza. No começo, eles foram atraídos de uma forma magnética.  Depois, tudo se desmanchou na mesma rapidez que uma onda do mar.


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Foi Gertrude Stein que levou Matisse para visitar Picasso em Montmartre em 1906, onde ele vivia com sua amante da época. Como um blind date em tempos sem Internet, Matisse disse que nunca tinha ouvido falar de Picasso, que, por sua vez, dizia que não sabia quem era Matisse. Match! Anos depois, novas histórias surgiram. Eles não tinham se visto pessoalmente, mas já conheciam o trabalho do outro. Para quem não sabe,  Gertrude Stein (1874 – 1946) foi uma escritora e poetisa americana muito rica e que adorava arte. Muitos artistas da escola francesa ficaram conhecidos por causa dela.

Matisse e Picasso frequentavam os estúdios um do outro e, também, nos saraus promovidos por Gertrude e seu irmão Leo. No começo os encontros eram constrangedores para Picasso, que não conseguia debater em francês, ficando rapidamente irritado. Matisse via seu concorrente na lona e fazia o máximo para impressionar o grupo de amantes de arte com seu conhecimento e sua inteligência. Apesar de se considerarem rivais, Picasso e Matisse começaram a se encontrar regularmente e a submeter suas novas obras a um intenso escrutínio, como um casal que discute, mas que não consegue se separar. Esse ambiente de disputa fez com que Matisse se tornasse um grande especialista em obras de Picasso, e vice-versa, pois apenas quem conhece consegue criticar com profundidade.

Picasso, em contra partida, tentava passar a mensagem que ele era o novo no mundo da arte e Matisse representava o velho. Os doze anos de diferença entre eles pareciam maiores por causa das roupas despojadas que Picasso começou a vestir, como blusas justas e listradas. Matisse tentava não se inibir e como resposta passou a ser mais conservador do que nunca com roupas clássicas como tweeds bem cortados. O vencedor dos encontros era quem mais chamava a atenção de Gertrude e Leo, assim como quem conquistava mais seguidores. Nessa disputa, Georges Braque e André Derain abandonaram Matisse e passaram para o seu lado.

Por comprar uma grande quantidade de obras e ter trânsito livre no mundo artístico, Gertrude, que gostava de dividir para governar, sentiu-se empoderada para cutucar os dois e ver se conseguia obras ainda mais interessantes tanto para venda como para seu acervo particular. Esses tempos de turbulência motivaram os dois a criarem alto volume de obras e a explorarem novas técnicas de pintura.

Os fofoqueiros de plantão disseram a Matisse que a gangue de Picasso estava zombando de sua pintura. Matisse ficou indignado e se preparou para se vingar de Picasso. As pinturas mostram essa rivalidade: a obra-prima de Picasso, “Les Demoiselles d’Avignon” (1907) é sua resposta para a revolucionária obra de Matisse chamada “Le Bonheur de Vivre” (A Alegria de Viver). Por ironia da vida, Matisse ajudou Picasso a ficar famoso e a tomar seu lugar à frente da vanguarda ao inspirar o rival a produzir um quadro melhor que o seu. Com isso, nunca foi tão verdadeiro o pensamento: os artistas despreparados imitam, os artistas maduros roubam, os maus artistas desfiguram o que pegam, e os excelentes artistas transformam a ideia em algo muito melhor, diferente e disruptivo.

Outra instigante disputa entre os dois artistas é confronto entre o quadro “Arlequim” (1915), de Picasso, e “Peixe Dourado” (1914), de Matisse. O arlequim de Picasso é uma figura assustadora, com cabeça de alfinete, olhos minúsculos e sorriso pequeno, sem alegria. Suas mãos são pequenas e foram reproduzidas na forma de patas. Aliás, uma dessas patas segura um retângulo branco que é a chave para o significado da pintura: um autorretrato oculto. Matisse desvendou a xarada assim que o quadro foi finalizado, mas surgiram novas dúvidas sobre a obra e sua possível homenagem a Paul Cézanne, o pai da arte moderna.

Após a morte de Matisse em 1954, Picasso disse que seu rival tinha deixado suas odaliscas como um legado. Dois meses depois, Picasso começou a mergulhar com mais atenção nas obras de Matisse e a criar uma série de quinze variações de “Mulheres de Argel”, de Eugène Delacroix , uma maravilhosa pintura que era muito reverenciada pelos dois artistas. Para Picasso, essa era a melhor forma de continuar as pinturas de Matisse, mantendo seu trabalho vivo e reconhecido, apesar de nunca assumir isso claramente.

Essas brigas deixam bem claro que a vida não é uma luta de boxe. Depende de diálogo e empatia para seguir adiante. Portanto, que as discussões acabem logo para abrir os corações e os olhos de todos para a arte. A viagem por este universo de descobertas é sensacional.  Se tiver uma boa história para compartilhar, aguardo sugestões pelo Instagram Keka Consiglio, Facebook ou no Twitter.

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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