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Entrevista

Carlos Nobre

A Amazônia não está longe de virar savana

Luiz Roberto

A Amazônia não está longe de virar savana

Cilene Pereira
Edição 02/03/2018 - nº 2515

Em um editorial publicado há duas semanas na revista científica “Science Advances”, o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, fez um alerta sobre o futuro da Amazônia caso o desmatamento prossiga no ritmo atual. “Corremos o risco de perder um dos maiores tesouros biológicos do planeta a troco de muito pouco”, afirma o cientista. Ele assina o artigo com seu colega Thomas Lovejoy, professor da George Mason University (EUA). Ambos estão entre os mais respeitados estudiosos do mundo a respeito da floresta amazônica. Com 66 anos e hoje pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Nobre também critica a decisão do Supremo Tribunal Federal, na quarta-feira 28, de referendar a anistia a quem desmatou até 2008, concedida pelo Código Florestal aprovado em 2012. “Trata-se da sinalização clara de que se pode desmatar sem problema porque um dia o crime será perdoado. É muito triste para o País”, disse nesta entrevista a ISTOÉ.

A Amazônia está perto de atingir um limite de mudanças irreversíveis?

Se considerarmos o impacto somado do desmatamento, do aquecimento global e do aumento dos incêndios da floresta, o sistema Amazônico floresta-clima pode não estar muito distante de atingir um ponto sem volta de inflexão ou ruptura de perda de estabilidade e caminhar para um novo estado de equilíbrio.

Qual seria?

Ele significaria uma perda de área de floresta talvez superior a 50%, substituída por um tipo de savana empobrecida. É a vegetação do cerrado, mas teria muito menos diversidade biológica de espécies e menor quantidade de carbono estocada na vegetação.

Como foi possível chegar a essa previsão?

Usamos modelos que simulam o complexo funcionamento interativo biosfera-atmofera-oceanos. Eles são usados para testar o impacto futuro de desmatamento, aquecimento global ou aumento de incêndios florestais e da concentração atmosférica de gás carbônico, algo que pode ser benéfico para as florestas. Quando cada efeito é estudado isoladamente, estabelecemos limites que não deveriam ser ultrapassados para mantermos a estabilidade da floresta.

Quais são eles?

Se somente existisse desmatamento, o limite seria o de mantermos o total desmatado abaixo de 40% da área de floresta. No caso do aquecimento global agindo isoladamente, teríamos que impedir que a temperatura na Amazônia aumente mais do que 4 graus celsius. Fizemos pela primeira vez um cálculo no qual colocamos todos os fatores juntos. Concluímos que com o aquecimento global projetado para as próximas décadas e a vulnerabilidade aumentada devido aos incêndios na vegetação, e ainda descontando o efeito positivo de existir mais gás carbônico na atmosfera, poderíamos perder mais de 50% de floresta em meados do século mesmo com apenas 20% a 25% de área total desmatada. Isso nos fez soar o alarme.

Em que medida o desmatamento contribui para isso?

Desmatamentos de grande escala podem tornar a região mais quente e seca. Há diminuição das chuvas durante a estação seca, tornando-a mais longa. As árvores têm raízes profundas que acessam água em até dez metros de profundidade, o que influencia o nível de chuva maior na época seca. Já a vegetação que substitui a floresta após o desmatamento — pastagens ou agricultura — não mantém níveis elevados de evaporação na seca. O bioma adaptado a esse cenário é o cerrado.

E as queimadas?

O uso indiscriminado do fogo pela agricultura aumentou o número e a severidade dos incêndios, tornando a floresta ainda mais vulnerável.

Há sinais de que as mudanças já acontecem?

Há algo que intriga a comunidade científica por mais de uma década. A frequência de extremos climáticos na Amazônia aumentou incrivelmente desde 2005 tanto no lado de secas quanto no de inundações: tivemos secas de grande intensidade em 2005, 2010 e 2015-16 e inundações históricas em 2009, 2012 e 2014. Esse tipo de oscilação acontecia uma vez a cada 20 a 30 anos. Nos últimos 13 anos, aconteceu seis.

Há outras evidências?

Outro dado preocupante vem de análises que mostram o aumento da duração da estação seca no sul e leste da Amazônia na última década. E o principal fator determinante se haverá floresta ou cerrado na América do Sul é: estação seca com duração menor que 4 meses, floresta. Muito maior, cerrado.

Quais serão as consequências das transformações?

A floresta Amazônica desempenha um papel importante para o equilíbrio climático, hidrológico e ecológico da América do Sul e com consequências globais. Ela armazena uma grande quantidade de carbono na biomassa. Estima-se que a biomassa acima e abaixo do solo guarde mais de 120 bilhões de toneladas de carbono. Se perdidos com desmatamento e queimadas, representariam o equivalente a doze anos de emissões globais deste gás de efeito estufa.

O que mais?

A cada ano, a floresta tira cerca de 1 bilhão de toneladas de carbono da atmosfera, impedindo o crescimento maior do aquecimento global. É o mais importante bioma a fazer esse papel. Além disso, haveria significativa perda de biodiversidade na região que pode conter até 10% das espécies vivas do mundo.

E quanto às perdas econômicas?

O maior impacto será o de queimar as oportunidades futuras de desenvolver uma economia sustentável e poderosa aproveitando os ativos da biodiversidade amazônica. Há muito maior valor econômico e social em um hectare de floresta do que em um hectare de floresta derrubada e substituída por pastagem e agricultura.

Pode dar um exemplo do potencial da região?

O açaí. De pequeno valor agregado até quinze anos atrás, hoje é consumido mundialmente e agrega quase US$ 2 bilhões anualmente à economia da Amazônia. Os sistemas agroflorestais do açaí preservam a floresta e aumentam em muito a renda dos produtores em relação a empregados da pecuária ou fazendas agrícolas. É um potencial que não pode ser menosprezado. Temos que nos ver como país tropical e criar um modelo de bioeconomia.

O que é preciso para que seja finalmente aproveitado?

O principal problema é a falta de imaginação que domina o modo latino-americano de desenvolvimento. Nunca pensamos um modelo de crescimento autenticamente tropical. Não enxergávamos valor na floresta, por ignorância e prepotência. Só víamos valor em substituí-la e produzir proteína vegetal e animal nos moldes importados de outras regiões. Isso é o modelo dominante desde 1500 e que perdura até hoje, quando ainda vemos um forte vetor de expansão da fronteira agropecuária na Amazônia e no cerrado. Se nada for feito imediatamente, corremos o risco de perder um dos maiores tesouros biológicos do planeta a troco de muito pouco.

O que deve ser feito?

Como colocado nas metas brasileiras de redução das emissões de gases de efeito estufa no Acordo de Paris das mudanças climáticas, é preciso zerar o desmatamento na Amazônia e cerrado em poucos anos e acelerar os planos de restauração dos ecossistemas degradados e destruídos. Implantando uma agricultura produtiva e sustentável, podemos dobrar a produção agropecuária, liberando mais de 1/3 da área ocupada hoje, de quase três milhões de km2. O plano de restauração florestal, que prevê 120 mil km2 até 2030, é factível.

Quanto custam as intervenções?

O custo de desenvolver a agropecuária sem expandir a fronteira de desmatamento seria modesto, pois a produtividade aumentada se paga completamente. Já o de restauração florestal varia de R$ 1 mil a R$ 3 mil por hectare. Ainda falta clareza de quem pagará por isso. Espera-se que não seja mais uma vez a população por meio de impostos.

A quem atribui a responsabilidade pela atual situação?

É uma responsabilidade coletiva, ampla e difusa. Em primeiro lugar, à fraca democracia brasileira de não respeitar a vontade da maioria de preservar as florestas e de priorizar o poder econômico corrupto. Da disseminação de falsos conceitos de que a segurança alimentar do mundo depende de avançar a agropecuária sobre a floresta e o cerrado. Da cultura secular da posse da terra como um valor, associado ao crime organizado de roubo e grilagem de terras públicas. E também da falta de surgimento de vontade política e investimentos em ciência e tecnologia para descobrir usos econômicos para a riquíssima biodiversidade do Brasil.

E quanto ao papel do Estado especialmente?

É responsável quando responde aos objetivos de grupos econômicos desinteressados por um Brasil sustentável a longo prazo ou por um país mais inclusivo e justo.

Como avalia a atuação dos governos nos últimos anos?

Entre 2005 e 2014, o desmatamento na Amazônia brasileira caiu cerca de 80%. Também diminuiu nos outros países Amazônicos, ainda que em proporção menor. Ao mesmo tempo, a produção agropecuária na Amazônia cresceu acentuadamente nesse período, demonstrando um desacoplamento entre desmatamento e produção. Isso é resultado dos investimentos em tecnologias produtivas, que igualmente aumentam a lucratividade. O exemplo bem-sucedido de 2005 até recentemente mostra que o caminho é, em primeiro lugar, fiscalização e atuação contra o desmatamento e queimadas ilegais. Quando essa ação é constante, regular, séria e dedicada, o desmatamento despenca. Quando ela vacila, como aconteceu de 2014 até agora, ele cresce.

O que achou da decisão do STF de conceder anistia a quem desmatou ilegalmente até 2008?

É desanimador. Mostra que não se consegue renovar no Brasil a cultura do perdão dos crimes passados. É uma sinalização clara de que não há problema em desmatar porque um dia o crime será perdoado. Em algum momento no futuro o Congresso aprova uma lei que regulariza tudo e assim se segue.

 

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