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‘Amazônia foi amor à 1ª vista’, diz italiana condencorada

SÃO PAULO, 19 FEV (ANSA) – Por Lucas Rizzi – A bióloga Emanuela Evangelista, 51 anos, nasceu em Lanuvio, pequena cidade nos arredores de Roma. Mas foi em meio à densa vegetação da Amazônia, em uma área de floresta ainda virgem, onde ela fincou raízes para desenvolver um trabalho social que lhe rendeu uma das mais prestigiosas condecorações concedidas pela Itália.   

“Foi amor à primeira vista”, conta Evangelista, em entrevista à ANSA nesta terça-feira (18), um dia após ter recebido das mãos do presidente italiano, Sergio Mattarella, a medalha de Oficial da Ordem do Mérito da República por seu “constante empenho na defesa ambiental, na proteção das populações indígenas e no combate ao desmatamento”.   

A bióloga preside a associação Amazônia Milano Onlus, fundada em 2004 para oferecer saúde, educação, capacitação, trabalho e desenvolvimento sustentável aos nativos da comunidade Xixuaú, que ocupa um pedaço de mata preservada às margens do rio Jauaperi, afluente do rio Negro, na divisa entre Amazonas e Roraima.   

A ligação de Evangelista com a maior floresta tropical do mundo começou no início dos anos 2000, quando ela fazia seu mestrado em biologia na Universidade de Roma. Em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ela viajou ao Brasil para estudar a ariranha, mamífero com risco de extinção e característico dessa região, e logo se apaixonou.   

“Cheguei como uma estudante interessada em fazer pesquisa científica para minha tese de mestrado e fiquei fascinada pela Amazônia imediatamente. Vim de um lugar, a Europa, onde não existe nada parecido”, conta.   

Encantada com a floresta e seus povos, Evangelista fundou uma associação sem fins lucrativos em 2004, em Milão, e passou os anos seguintes entre a Itália e a Amazônia. Até 2013, quando se casou com um ribeirinho, Francisco, e passou a morar no Xixuaú.   

“Eu não me lembro de um momento exato em que decidi escolher a Amazônia. A vida me levou, e eu me envolvi com as comunidades locais. Foi trabalho, foi pesquisa, foi uma coisa social, pessoal”, acrescenta a bióloga.   

Ações – A ONG de Evangelista cria oportunidades sustentáveis de renda para os povos nativos e já viabilizou a construção de escolas, ambulatório, centro de informática e poços artesianos, além da instalação de painéis de energia solar e filtros de purificação de água.   

Um dos projetos mais bem sucedidos da Amazônia Onlus é um programa de ecoturismo que leva viajantes dispostos a um contato íntimo com a natureza para o Xixuaú, acessível em um percurso de barco ou lancha pelo rio Negro a partir de Manaus, a cerca de 300 quilômetros de distância.   

A iniciativa é administrada por uma cooperativa formada somente por ribeirinhos e que gera renda e trabalho para cerca de 50 famílias locais. A ONG ajudou na criação da cooperativa e ofereceu cursos de capacitação, como em gestão hoteleira e culinária, além de ter obtido recursos na Itália para a construção de uma pousada com cinco malocas de madeira com vista para o rio.   

“Nosso trabalho é ficar por trás, por baixo, do lado, mas dizemos para os ribeirinhos: ‘A frente é de vocês'”, explica a italiana. A associação também tenta fortalecer cadeias produtivas, como a da castanha da Amazônia, que tem pouco impacto ambiental e cuja colheita muitas vezes é abandonada por causa do baixo preço de venda.   

Outro objetivo da ONG é evitar o êxodo de nativos para áreas urbanas, onde eles frequentemente chegam sem preparação profissional e acabam caindo na miséria. “Na periferia de Manaus, ele não terá conhecimento nenhum. Mas em Xixuaú, ele é rei”, diz Evangelista.   

Incêndios – A bióloga admite que a atenção dada pela comunidade internacional aos incêndios na Amazônia pode ter influenciado o presidente da Itália a condecorá-la, mas ela acredita que Mattarella já vinha amadurecendo a ideia de destacar a questão ambiental com a medalha de Ordem do Mérito.   

“O presidente tem uma preocupação com o meio ambiente, assim como com outras questões. Ele indicou pessoas envolvidas em vários temas, como migração, pobreza. É a indicação de que há pessoas trabalhando por causas que ele acha urgentes ou importantes para a coletividade”, afirma Evangelista, que dedica a homenagem à equipe da associação e, principalmente, aos ribeirinhos.   

Como a ONG atua em uma área muito isolada dentro da floresta, sua atividade não foi afetada pelos incêndios, e a bióloga não se vê ameaçada por um problema comum à região: o desmatamento desenfreado provocado por pecuaristas, garimpeiros e agricultores.   

A realidade da Amazônia Onlus, nas palavras da própria Evangelista, é “pacífica”, e seu relacionamento com as instituições está limitado ao nível do município. Enquanto isso, ela tenta mostrar que a proteção ambiental está diretamente ligada ao aspecto social e que a solução para garantir trabalho e renda aos povos amazônicos passa pela preservação da floresta, e não por sua destruição.   

“Os próprios recursos naturais são o potencial econômico da floresta. Não precisa derrubá-la para colocar outro produto.   

Existem várias amazônias, mas regiões desse tipo, com povos tradicionais e floresta de pé, têm um pacote pronto. As populações locais podem viver de forma muito digna”, garante.   

(ANSA)