Edição nº2598 11/10 Ver edições anteriores

Amanhã podem ser eles

Entendo a impaciência de boa parte da população quando se observa o marasmo do Congresso e os abusos do STF. O presidente foi eleito com quase 58 milhões de votos para mudar o País e uma multidão reforçou o apoio ao seu governo nas manifestações recentes. O Brasil tem pressa.

Mas aí começam os problemas. Uma ala bolsonarista confunde a vitória com uma espécie de carta branca para impor sua vontade, como se os demais poderes não existissem ou devessem ser subjugados. É como se as pautas dos vencedores tivessem que ser automaticamente aprovadas. Não é assim que funciona.

Nossas instituições estão podres, alegam os afoitos que querem revolução no lugar de reformas. É fato que estão muito comprometidas, mas um conservador raramente vai optar pela ruptura. Ele terá mais cautela e prudência, sabendo que certas mudanças levam tempo.

Curiosamente, o progressista Fernando Gabeira tem demonstrado mais espírito conservador do que muito conservador por aí. Em sua coluna desta semana, ao rejeitar tanto a corrupção quanto o autoritarismo no trato com o Congresso, ele alertou: “Nesse caminho do meio não há avanços vertiginosos. Quem os espera se decepciona. Sem ilusões sobre o Congresso. Não se trata de fazer um avião decolar. Na verdade, trata-se de pôr em marcha uma geringonça”.

O realismo é uma característica bem conservadora, como é a preocupação com os meios, mais até do que com os fins. Ou seja, conservadores devem se preocupar em construir sólidas instituições, nunca caindo na tentação do personalismo de um déspota.

É por isso que conservadores legítimos condenam quando um republicano como Trump abusa de decretos presidenciais, pois entendem o perigo desse caminho, que derruba a moralidade da crítica quando os democratas fazem o mesmo. Para quem só enxerga guerra e está disposto a usar os mesmos métodos do inimigo, vale tudo. É aí que mora o perigo. Podemos nos transformar no inimigo que queríamos derrotar.

Quando o STF resolve legislar, isso deve ser condenado, não importa a causa em questão. Quando o Executivo decide impor sua agenda ao Congresso, isso deve ser rechaçado, mesmo se a pauta for virtuosa. Os meios importam. Afinal, amanhã os adversários podem estar no poder novamente. E nesse caso, agradeceremos pelos freios institucionais.

Foi o Centrão que impediu o Brasil de virar uma Venezuela no petismo. E também é o Centrão que dificulta nossa transformação em um Chile da vida. É irritante, eu sei. Desesperador até. Mas é preciso lembrar: os totalitários de esquerda podem voltar.

Quando o STF resolve legislar, isso deve ser condenado – o mesmo vale para o Executivo. Não podemos nos transformar naqueles que queríamos derrotar


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