Alvo da PF por caso Master, Ciro Nogueira apoiou Lula e foi ministro de Bolsonaro

Influente em Brasília, senador é suspeito de atuar por Daniel Vorcaro em troca de vantagens financeiras

Ciro Nogueira, senador e presidente do PP
Ciro Nogueira, senador e presidente do PP Foto: Isac Nóbrega/PR

O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), foi alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal nesta quinta-feira, 7, na quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master.

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Na decisão judicial que autorizou os policiais a agirem, o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou que as apurações retratam Nogueira como o agente público que, em tese, instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses de Vorcaro”.

O cumprimento do mandado aproximou o caso Master de vez do centro do poder da República. Primeiro parlamentar investigado pelo escândalo, o senador tem um histórico de relações próximas com as principais lideranças políticas da história recente brasileira, como a IstoÉ relata neste texto.

‘Time do Haddad e do Lula’

  • Dilma [Rousseff] vai precisar de senadores comprometidos com a construção de um país cada vez mais forte e mais justo“. Foi assim que Alexandre Padilha, ministro da Saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pediu votos a Nogueira em programa eleitoral exibido pela campanha do senador em 2010, quando ele se elegeu para o cargo pela primeira vez.
  • Defensor das políticas dos dois primeiros governos petistas e apoiador da eleição de Dilma, que sucedeu Lula no Palácio do Planalto, Nogueira teve 22,69% dos votos e conquistou a segunda vaga do estado.

  • Em 2018, o senador repetiu a aliança com o PT pela reeleição. Já com o partido formalmente integrando sua coalizão, que incluía do PCdoB ao então PR — atual PL –, Nogueira integrou a chapa de reeleição do ex-governador Wellington Dias (PT), hoje ministro do Desenvolvimento Social de Lula.
  • Nós somos o time do povo. Do Lula e do Haddad, e esta é nossa chapa para o Senado“, anunciou Dias em programa exibido na propaganda eleitoral de Nogueira.
  • À altura da exibição, Lula já havia sido substituído por Haddad na disputa presidencial em razão da condenação na Operação Lava Jato — posteriormente anulada pelo Supremo –, que o levou à prisão e à inelegibilidade, mas seguia sendo o principal cabo eleitoral dos políticos piauienses.
  • Nogueira foi reeleito e Haddad teve 77,05% dos votos no segundo turno no estado, mas quem se elegeu presidente foi Jair Bolsonaro (PL), então algoz do petismo e de seus aliados.

O líder político de Bolsonaro

  • Liderança do chamado “centrão”, Nogueira farejou a mudança de ares da política brasileira e tomou distância do PT no governo de Jair Bolsonaro (PL). Em sintonia com o grupo, manteve atuação independente no início do mandato do ex-presidente — antes forte crítico do “centrão” — até formalizar a aproximação.
  • Em 4 de agosto de 2021, assumiu o Ministério da Casa Civil de Bolsonaro. “Podemos dizer que vossa Excelência trouxe para o coração de seu governo um nordestino, para compartilhar com ele uma parte das importantes decisões que tem de tomar”, disse ao então mandatário no discurso de posse.
  • A Casa Civil é, de fato, considerada o “coração” do governo. Responsável pela execução de políticas públicas relevantes e coordenação dos demais ministérios, a pasta foi entregue a Nogueira para acomodar o “centrão” e melhorar a articulação de Bolsonaro no Congresso a tempo de conduzi-lo à reeleição.
  • Bolsonaro não se reelegeu e tentou um golpe de Estado para impedir a volta de Lula ao poder, razão que o levou a ser condenado pelo STF e preso. Mesmo que integrasse o núcleo político mais próximo do mandatário, Nogueira não participou da trama de ruptura e coordenou a transição de poder.
  • De volta ao Senado, manteve a defesa do ex-presidente e tornou-se um dos principais críticos de Lula. A postura combativa se manteve até o final de 2025, quando teve um encontro sigiloso com o petista e ofereceu afastar o PP da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) em troca de um acordo por sua própria reeleição no Piauí, conforme revelou o jornal Folha de S. Paulo.

Caso Master: o que diz a defesa de Ciro Nogueira

Em nota, os advogados de Nogueira afirmaram que a operação se baseou em “mera troca de mensagens” negaram “qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados” por parte do cliente.

“Medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve”, concluíram.