Allan Souza Lima nasceu no Recife, mas a geografia que moldou seu olhar não se limita à infância. Mesmo vivendo longe do Nordeste há anos, o ator mantém o sertão como referência estética e moral. É desse vínculo que surgem projetos como “Cangaço Novo”, série do Prime Video.
No papel de Ubaldo, homem urbano convocado de volta às origens por uma herança de sangue, o ator fez do calor e da poeira mais do que cenário. “O sertão é a força que decide o ritmo das coisas. Quando o sol está no alto e o chão esquenta, até a respiração muda. E isso está impresso na tela”, conta.
Encaminhado para a segunda temporada da trama, o ator encara o cangaço como uma metáfora atualizada de poder e sobrevivência. A narrativa revisita o mito do “bandido social”, mas com o olhar voltado para as contradições do país contemporâneo. Allan evita o romantismo da figura heroica e prefere o terreno ambíguo, onde a violência e a necessidade se confundem.
“O cangaceiro que me interessa é o que reage ao abandono, que não é fora da lei por gosto, mas que foi empurrado pela ausência de Estado, de horizonte. Essa complexidade é o que mantém a história viva”, afirma. O elenco majoritariamente nordestino, segundo ele, é parte da coerência do projeto: “Vai além de sotaque e gestual, é a memória e vivência de uma terra em que é preciso, no mínimo, pisar nela pra entender”.
O aguardo pela continuação da série coincide também com um novo momento de transição na carreira. Allan está prestes a dirigir seu primeiro longa, “Poeta Bélico”, que ele define como um manifesto íntimo. O filme, ambientado em um Nordeste distópico, pós-apocalíptico, acompanha um poeta e um guerrilheiro em meio a ruínas, buscando preservar o poder da linguagem em um mundo esvaziado de sentido e lotado de certezas.
“Vivemos um tempo saturado de certezas e algumas vezes pobre de significado. Quis imaginar o que acontece quando o silêncio vence, quando já não há palavras que expliquem nada”, comenta. A estrutura em quatorze quadros, inspirada na via-crúcis mas sem qualquer caráter religioso, reforça o caráter simbólico da narrativa.
As filmagens acontecerão em Cabaceiras, na Paraíba, cidade conhecida como “Roliúde Nordestina”. A escolha é menos turística que política: reafirma a ideia de que o sertão pode ser centro e não margem. Allan insiste em filmar com equipes locais e em trabalhar com atores que compreendem o território.
“Quando você grava ali, tudo ganha outra gravidade. As pausas, o calor, o tempo da fala. É um realismo que não dá pra imitar em estúdio, nem em outros lugares”, finaliza.
O projeto é produzido pela Ikebana Filmes e conta com nomes como Renato Góes e Alejandro Claveaux, além de parcerias em negociação com produtores latino-americanos.