Brasil

Aliança maligna

A filiação de Bolsonaro é um arranjo em que o capitão iria ao PL e fecharia a coligação com PP e Republicanos. O Centrão dominaria, assim, o governo com a sustentação dos políticos mais criticados pelo bolsonarismo

Crédito: Sérgio Lima

MENSALÃO Valdemar da Costa Neto (PL) é um símbolo dos parlamentares que foram presos por corrupção (Crédito: Sérgio Lima)

O presidente Jair Messias Bolsonaro foi obrigado a trocar a fundação do partido “Aliança pelo Brasil” por uma coligação maligna. O PL, que deve ser o partido do presidente para disputar a eleição, ficou marcado pelo envolvimento de parlamentares no Mensalão em 2006, e desta vez terá apoio do PP e Republicanos. A sigla do Centrão também traz consigo uma história ligada ao ex-presidente Lula. Em 2002 e 2006, o empresário José Alencar (PL-MG) foi o vice do sindicalista na Presidência. Na oportunidade, as negociações foram fechadas pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ele é uma espécie de símbolo dos parlamentares mensaleiros que os bolsonaristas diziam rejeitar. Preso, entre dezembro de 2013 e maio de 2016, Valdemar conseguiu manter sua liderança dentro do partido mesmo da cadeia com mãos de ferro. Respeitado pelos seus colegas, ele avalia que a aliança com Bolsonaro possa impulsionar a sigla a aumentar o número de parlamentares e governadores.

PLANO B O ministro Ciro Nogueira ainda aguarda a decisão do presidente com as portas abertas no PP (Crédito:Mateus Bonomi )

A realidade de partidos pulverizados e enfraquecidos é o que mantém negociações como a que acontece com o PL. A cientista política Juliana Fratini afirma que Bolsonaro fomenta a prática de “partidos de aluguel, utilizados apenas para instrumentalizar uma candidatura, sem compromisso, de fato, com alianças presentes ou futuras”. Juliana entende que o presidente ignora a vida partidária e pensa apenas na sua reeleição. No mesmo tom, o cientista político Márcio Coimbra afirma que o capitão é “um hóspede indesejado para os partidos, um incômodo passageiro que, em breve, estará fora do jogo político”.

Nos bastidores, no entanto, há a notícia de que o filho 02, o vereador Carlos, já rastreou os impactos do namoro com o PL e os estragos podem não valer a pena. Como manter um discurso contra a corrupção e fechar um acordo com Valdemar ao mesmo tempo? Talvez por isso a filiação que estava agendada para o dia 22 foi adiada. O presidente argumenta que precisa de mais tempo e tem alguns detalhes para discutir. Mas o fato é que os acordos nos estados já estão acelerados e muitos compromissos estão sacramentados. Candidatos aos governos estaduais podem fazer corpo mole e esconder seu candidato a presidente caso tenha mal desempenho nas pesquisas. E a rejeição de Bolsonaro aumenta de maneira acelerada. A infidelidade partidária enterraria o capitão. Valdemar teria dito aos seus correligionários que a filiação de Bolsonaro não iria intervir nas tratativas nos estados. Mas o próprio capitão discorda, especialmente, em São Paulo, onde o PL é base do governador João Doria.

Muita demora na decisão tem embaralhado os arranjos políticos. Bolsonaro já fez o aceno com a filiação ao PP do ministro Ciro Nogueira, ao PTB de Roberto Jefferson, ao Republicanos do bispo Marcos Pereira, ao PRTB de Aldinea Fidelix, ao PSC do Pastor Everaldo, ao Patriota de Ovasco Resende e até mesmo a volta ao PSL de Luciano Bivar. A indecisão é tamanha que cada um dos filhos do presidente está filiado a um partido diferente. O deputado Eduardo está no PSL, o vereador Carlos no Republicanos e o senador Flávio entrou no Patriota, partido que teve, inclusive, a destituição do antigo presidente, Adilson Barroso, por ter anunciado o convite ao presidente. O atual presidente da sigla, Ovasco Resende, disse que a filiação de Bolsonaro é “assunto encerrado”. No PSL, parlamentares como Alexandre Frota e Joice Hasselmann deixaram o partido. Eles não quiseram esperar o desenrolar das negociações. A deputada Joice acredita que Bolsonaro “está pagando o preço por ser um ditador, fraco e imbecil. Nem os corruptos querem alguém tão ruim e tão corrupto quanto ele”.

INCOERÊNCIA Carlos Bolsonaro discorda da filiação do pai ao PL: inexplicável (Crédito:Nayra Halm)

Em 2018, o mandatário se filiou em cima da hora também. Ele exigia controle total da sigla que o abrigasse. Algo que tentou durante os últimos anos sem qualquer sucesso. Hoje, o capitão não tem tantas opções de escolha, mas brilham os olhos dos parlamentares que podem se apoiar na máquina do governo federal. Bolsonaro é conhecido por se alimentar de teorias conspiratórias. Ele confia em poucas pessoas. Isso explica a dificuldade de conseguir um partido.

Caso se concretize a coligação do Centrão com PL, PP e Republicanos a campanha do presidente ganharia um impulso importante. Somado, o fundo eleitoral dos partidos aliados seria de R$ 376 milhões e o tempo de televisão de dois minutos e vinte segundos por dia, o maior entre os concorrentes. Querendo fechar logo o negócio, o PL divulgou nota afirmando que o presidente da legenda “tem carta branca para conduzir e decidir sobre a sucessão presidencial e a filiação do presidente Jair Bolsonaro”. O capitão tem assumido um discurso mais evasivo e ponderou sobre o alinhamento de pautas conservadoras e relações exteriores. “Temos muitas coisas a acertar ainda”. A discussão do combate à corrupção, no entanto, não é mencionada pelo presidente. Em 23 de maio de 2018 Bolsonaro escreveu na sua conta do Twitter: “Primeiro a imprensa mente ao dizer que estive com Valdemar Costa Neto. Agora diz que aceno para corruptos e condenados”. Após o início das negociações a postagem foi deletada para que a aliança maligna prospere.