Alguma coisa acontece no meu coração

A língua viaja nos intervalos das mídias sociais e muito se recria no anonimato da rede. A língua é coisa sem dono e marca de liberdade individual. A língua é coisa de viagem, de vadiagem e de saudade.  Seu Josué, amigo em São Paulo, pegou a coisa da rede e agora eu, pegando nela de novo atiro a coisa para aqui. 80 vezes coisa. Quer contar?

A “coisa” até pode ser anónima, mas é o cordão umbilical do nosso idioma. Coisa tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma Ideia. É como pois, mas coisa melhor.

A “Coisa” no português é incrível. Gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o dicionário Houaiss registra a forma “coisificar”, mas no Nordeste do Brasil há “coisar” — Ô, seu “coisinha”, você já “coisou” aquela coisa que eu mandei você “coisar”? Coisa é coisa em português de todo o lugar.

Na Paraíba e no Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte.

Em Portugal coisa é do arco da velha. Coisa que está para acontecer, coisa que eu preciso de fazer a coisa que ninguém sabe a inda. A inquietação é a coisa linda do cantor português José Mário Branco

Alceu Valença canta: Segura a “coisa” com muito cuidado, que eu chego já. Em Minas todas as coisas são chamadas de trem. (menos o trem, que lá é chamado de “coisa”). A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a “coisa”!

E, no Rio de Janeiro? Olha que “coisa” mais linda, mais cheia de graça… A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito! Mas se ela voltar, se ela voltar, que “coisa” linda, que “coisa” louca. Coisas de Jobim e de Vinícius, que sabiam das coisas.

E a história que a “coisa” tem na MPB! No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, coisa estava na letra das duas vencedoras: “Disparada”, de Geraldo Vandré: Prepare seu coração para as “coisas” que eu vou contar…, e “A Banda”, de Chico Buarque: pra ver a banda passar, cantando “coisas” de amor…

Já qualquer “coisa” doida dentro mexe… é um trecho da música “Qualquer Coisa”, de Caetano, que também canta: alguma “coisa” está fora da ordem! e o famoso hino a São Paulo: “alguma coisa acontece no meu coração”!

Coisa não tem sexo e pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a minha namorada. Nunca vi coisa assim! Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira um monte de coisas…

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal e coisa, e coisa e tal.

Um cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. Já uma cara cheio das coisas, vive dando risada. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona bem no Brasil. Político, quando está na oposição, é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a “coisa” vai… Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Ponha uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas, deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão morte chega ou coisa parecida… Na espera é melhor acertar na coisa e fazer a certa sem esquecer o mandamento maior: Amar a Deus sobre todas as coisas.

Entendeu o espírito da coisa?

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Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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