Quem era Alex Pretti, enfermeiro de veteranos morto por agentes federais dos EUA

O cidadão americano de ficha limpa tornou-se o centro de uma disputa de narrativas após ser baleado por agentes federais em Minnesota

Alex Pretti, enfermeiro morto por agentes federais dos EUA durante protesto contra a política de imigração de Trump
Alex Pretti, enfermeiro morto por agentes federais dos EUA durante protesto contra a política de imigração de Trump Foto: Michael Pretti/via AP

A morte de Alex Pretti, um enfermeiro de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), gerou uma onda de indignação nos Estados Unidos, levantando questionamentos sobre a conduta de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). O incidente marca o terceiro tiroteio envolvendo agentes da agência e o segundo com vítimas fatais no estado de Minnesota.

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Alex Pretti era um funcionário público respeitado, vinculado ao Departamento dos Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos (VA, na sigla em inglês), agência federal responsável pelo cuidado de ex-militares. Formado pela Universidade de Minnesota, ele obteve sua licença de enfermagem em 2021, que permaneceria ativa até março de 2026.

No ambiente de trabalho, era descrito como uma presença acolhedora. Seu colega, o médico Dmitri Drekonja, com quem compartilhava o entusiasmo pelo ciclismo de montanha, descreveu-o como alguém que “colocava as pessoas à vontade com seu humor e sorriso”. Para Drekonja, as acusações oficiais contra o enfermeiro são inacreditáveis: “Não entendo como se pode rotular alguém assim sem falar com ninguém que o conhecesse… Parece que estão lançando isso do absoluto nada.”

Ativismo surgiu após ações do ICE

Pretti, que foi casado até 2023 e não tinha filhos, passou a se envolver ativamente em protestos após a morte de Renee Nicole Good, outra cidadã de Minneapolis morta pelo ICE no início deste mês. Seu pai, Michael Pretti, relatou que o filho se sentia horrorizado com as táticas da agência. “Ele achava terrível sequestrar crianças, simplesmente pegar as pessoas no meio da rua. Ele se importava com aquelas pessoas e sabia que era errado”, afirmou Michael.

O Departamento de Segurança Interna (DHS) alega que Pretti ofereceu resistência portando uma arma, o que teria levado os agentes a disparar “tiros de aviso” defensivos. Contudo, essa versão é contestada por vídeos. As imagens mostram Alex filmando os agentes com um celular quando foi confrontado e empurrado. O outro braço de Pretti está levantado, e ele busca defender uma pessoa caída no chão. Agentes aglomeram-se ao redor da dupla e derrubam o enfermeiro no chão. Com diversos homens do ICE ao redor, não há como saber o que acontece. Em um dos vídeos, um agente aparece segurando uma arma que, segundo as autoridades federais, teria sido retirada de Alex. A cena ocorre cerca de cinco segundos antes dos disparos serem efetuados.

A Federação Americana de Funcionários Governamentais (AFGE) declarou que, com base nos vídeos disponíveis, a afirmação de que ele brandia uma arma “não está claramente estabelecida”. Pretti possuía permissão legal para portar arma e sua ficha criminal era limpa, constando apenas multas de trânsito.

Indignação e manifestações

A família Pretti soube da tragédia por meio de repórteres, enfrentando dificuldades para obter informações oficiais até a confirmação pelo hospital Hennepin County Medical Examiner. Em comunicado à Associated Press, a família classificou as declarações da administração como “mentiras doentias e repugnantes”.

“Alex claramente não está segurando uma arma quando é atacado pelos capangas assassinos e covardes do ICE. Ele está com o celular na mão direita e a mão esquerda vazia erguida enquanto tenta proteger uma mulher que o ICE acabou de empurrar”, diz o texto.

O caso atraiu a atenção de figuras e organizações de peso, como a Common Defense Civic Engagement (maior organização de veteranos do país) e a democrata Kamala Harris. O caso também levou a uma intensificação dos protestos contra o ICE realizados no estado de Minnesota.

Nas redes sociais, o impacto de sua vida é sentido por meio de relatos de pacientes. O filho de um veterano atendido por Alex compartilhou um vídeo do enfermeiro no hospital, citando o desejo de seu pai de que a luta por justiça continue: “Meu pai se sentiria honrado pelo sacrifício de Alex e envergonhado desta administração. Continuem a lutar o bom combate”.