Alemães apoiam democracia, mas muitos estão insatisfeitos com ela

Alemães apoiam democracia, mas muitos estão insatisfeitos com ela

"EstudoApoio à democracia chega a 98%, mas menos de dois terços se mostram satisfeitos com o funcionamento dela na Alemanha, revela estudo financiado pelo governo alemão.A quase totalidade da população da Alemanha apoia a ideia de democracia, mas apenas 60% estão satisfeitos com o funcionamento dela, segundo o relatório Monitor da Alemanha 2025, divulgado na semana passada.

Nos estados da antiga Alemanha Ocidental, esse percentual é de 62% e, no Leste Alemão, cai para pouco mais da metade, chegando a 51% – embora, para surpresa dos autores, o índice na antiga Alemanha Oriental tenha aumentado significativamente nos últimos tempos (era de 43% em 2023).

Essa conclusão foi saudada pela encarregada do governo alemão para o Leste, Elisabeth Kaiser (SPD). "É bom que a democracia como forma de governo tenha o apoio integral dos cidadãos. Isso também se verifica no Leste", disse ela em Berlim, durante a apresentação do relatório.

De um modo geral, o apoio à ideia de democracia é muito alto, de 98%, e 89% dos entrevistados rejeitam uma ditadura "sob qualquer circunstância".

Porém, quando questionados sobre como funciona uma democracia, 68% concordam que, neste regime, o Executivo deve acatar decisões do Parlamento e respeitar a separação de Poderes, e apenas 45% rejeitam o regime de partido único. No Leste, esses percentuais são "ligeiramente menores".

Já a parcela dos que se mostram suscetíveis a mudanças de cunho autoritário é de 21%.

Por isso, a conclusão do estudo é de que o alto nível de apoio popular à democracia não é garantia de rejeição unânime a uma transformação de viés autocrático ou autoritário na sociedade.

Mudanças sobretudo na área de defesa

O foco do estudo eram as mudanças na democracia alemã. Entre outros pontos, os entrevistados foram questionados sobre as áreas da política nas quais mais percebiam mudanças.

De forma nada surpreendente, a sensação mais forte de mudança foi na área da defesa. O tema está presente na sociedade alemã desde o início da guerra na Ucrânia, há quase quatro anos, sobretudo com foco no fortalecimento das Forças Armadas alemãs e nas dúvidas sobre a proteção oferecida pelos Estados Unidos no âmbito da Otan.

O sociólogo Reinhard Pollak conduziu o estudo juntamente com sete colegas. "Um quarto da população alemã quer mudanças. Esse grupo afirma que são necessárias mudanças multifacetadas. Outro quarto se mostra cético e diz que a mudança é muito rápida e profunda demais. E um amplo grupo intermediário se mostra ambivalente e diz 'depende'. O que nos surpreendeu foi existir um panorama tão pronunciado e que as pessoas não estejam predominantemente cansadas de mudanças", diz.

Segundo o estudo, os alemães também têm opiniões bem diferenciadas sobre questões políticas complexas: sobre o controverso tema da migração, por exemplo, uma grande maioria de 68% acredita que o país deveria recrutar trabalhadores especializados no exterior. E 59% acham que o Estado deve promover melhor a integração dos que chegam. Mas 28% opinam que o aumento da imigração desde 2015 piorou muitas coisas.

Ceticismo é maior em regiões pobres

Embora o apoio à democracia seja alto em toda a Alemanha, existem diferenças entre o Leste e o Oeste em outras questões. No lado ocidental, por exemplo, o otimismo e a disposição para aceitar mudanças não dependem de o entrevistado viver numa área mais favorecida ou numa mais pobre. No Leste, sim.

O mesmo vale para a maneira como as pessoas avaliam a Reunificação: no Oeste, cerca de 55% de todos os entrevistados veem a unidade alemã de forma positiva, enquanto no Leste, o número oscila entre 72% de aprovação em áreas economicamente mais fortes, especialmente nas cidades, e 49% em regiões menos abastadas.

O estudo representativo foi conduzido pelo Centro de Pesquisas Sociais da Universidade de Halle-Wittenberg, pela Universidade de Jena e pelo Instituto de Ciências Sociais Gesis-Leibniz, e é financiado pela encarregada do governo alemão para o Leste da Alemanha.

Ao longo de 2025 em todo o país, cerca de 4 mil pessoas acima de 16 anos foram entrevistadas, e outras 4 mil foram entrevistadas em regiões selecionadas.