Edição nº2556 14/12 Ver edições anteriores

Além da educação formal

Há um consenso hoje, no Brasil, de que colocar numa mesma equação quantidade e qualidade é o grande desafio no campo da educação. E mais: que a qualidade seja para todos. Isso não é uma tarefa simples: basta analisar os resultados da avaliação de desempenho dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio dos últimos vinte anos. O País está literalmente estagnado, e num patamar muito baixo, quando olhamos os níveis de aprendizagem escolar em língua portuguesa e matemática – disciplinas que servem de referência na política da avaliação educacional.

Por outro lado, não estamos considerando todos – e aqui me refiro aos jovens que estão fora do ambiente escolar, que desistiram da escola e fazem parte do chamado universo dos “nem-nem”: nem estudam, nem trabalham. Esse universo, na faixa etária de 15 a 17 anos, corresponde a 1 milhão de jovens que, se tivessem feito todo o percurso escolar sem nenhuma reprovação e abandono, deveriam estar cursando o Ensino Médio. Se levarmos em conta a faixa etária dos 15 aos 29 anos, esse número chega a 10 milhões de jovens – o que corresponde a três países do tamanho do Uruguai.

A esse cenário se agregam os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE:

1. o Brasil terminou o primeiro semestre de 2018 com o menor número de trabalhadores com carteira assinada desde a série histórica desse trabalho conduzido pelo IBGE;
2. a recuperação ainda tímida do mercado de trabalho se verifica graças principalmente ao trabalho informal;
3. o número de “desalentados” (pessoas que desistem de procurar trabalho após ficarem muito tempo desempregadas) chegou, no final de 2017, a 4,3 milhões de pessoas. O impacto maior se verifica nas pessoas de menor escolaridade.

O resultado de tudo isso tem sido, entre outras coisas, a explosão da violência em todo o País. Os homicídios, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), equivalem à queda de um Boieng 737 lotado diariamente. Representam quase 10% do total das mortes no Brasil e atingem principalmente os homens jovens: 56,5% de óbitos dos brasileiros entre 15 e 19 anos foram por mortes violentas.

E olhem que o efeito da chamada indústria 4.0 ainda não chegou com a força máxima ao Brasil. Estima-se que em 2030 a automação – locomotiva do trabalho 4.0 – vai impactar a carreira de 16 milhões de brasileiros. A educação do futuro (e o futuro é agora) vai exigir um aumento de qualidades humanas. Por isso, a oferta de uma educação com significado, que seja capaz de desenvolver o potencial pleno das pessoas, torna-se condição imperativa para o acesso aos postos de trabalho do futuro.

Se quisermos enfrentar essa grave crise da empregabilidade num ambiente sem os atuais níveis de violência, vamos ter que cuidar de uma oferta educacional de qualidade não apenas para os que estão na escola, mas também para aqueles que já desistiram da escola e estão fora do mundo do trabalho. Vamos ter que cuidar também dos “desalentados”, das pessoas de baixa escolaridade e dos 11,8 milhões de analfabetos. É um esforço hercúleo, mas não há outro caminho. Há cinquenta anos o papa Paulo VI, em uma das encíclicas mais importantes da doutrina social da Igreja Católica, a Populorum Progressio, afirmou: “A paz é o novo nome do desenvolvimento”. Esse desenvolvimento passa tanto por uma educação formal de qualidade – para aqueles que estão na escola – como pela oferta de uma educação não formal para aqueles que deixaram de sonhar com uma vida próspera.

*Mozart Neves Ramos é diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna

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