Brasil

Alckmin sob pressão

Tucanos e aliados cobram uma reação do ex-governador de São Paulo que ainda não deslanchou na corrida presidencial, tem dificuldade para manter o partido unido, não viabilizou alianças e enfrenta problemas na Justiça. A partir dessa semana, ele precisa começar a mudar esse quadro, pois já há líderes do PSDB querendo trocar o candidato

Crédito: Aloisio Mauricio/Fotoarena / Agência O Globo

PRAZO Líderes do PSDB dizem que até junho o candidato precisa subir nas pesquisas e temem que o partido possa sofrer uma derrota que o leve à extinção (Crédito: Aloisio Mauricio/Fotoarena / Agência O Globo)

No início de março, durante uma reunião em São Paulo com líderes do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comprometeu-se a defender publicamente a candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência da República. No mesmo encontro, porém, disse à ISTOÉ um senador presente na reunião, FHC alertou que o então governador paulista deveria mostrar na prática que era capaz de unificar o partido, de manter ao redor de si as legendas que tradicionalmente marcham com o PSDB e, acima de tudo, de melhorar seus índices de intenção de voto nas pesquisas. Antes desse encontro, FHC já havia declarado que se Alckmin não ultrapassasse a casa dos 10% nas pesquisas entre março e abril, seria o caso de o PSDB buscar outro candidato dentro ou fora do partido. Passados praticamente dois meses, Alckmin não conseguiu a unidade entre os tucanos, assiste os partidos aliados como DEM, MDB e PSB se distanciarem do PSDB e lançarem candidaturas próprias e não decola nas pesquisas (fica entre 6% e 8%, atrás de Bolsonaro, Marina, Joaquim Barbosa e Ciro Gomes). “Se insistirmos com um candidato que não decola, corremos o risco de uma derrota que poderá representar a extinção do PSDB”, disse na noite da quarta-feira 25 um histórico líder do partido em São Paulo.

Sem uma agenda positiva, a candidatura de Alckmin coleciona problemas. O ex-governador paulista passou a ser alvo de processo na Justiça Eleitoral por suposto caixa dois de R$ 10,3 milhões, que teriam sido pagos pela Odebrecht nas campanhas de 2010 e 2014, e o procurador Thiago Lacerda Nobre não descarta a hipótese de investigá-lo no âmbito da Lava Jato. Além disso, o processo contra o senador Aécio Neves e a condenação do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo por corrupção afetam diretamente sua candidatura. Na quinta-feira, um outro tucano entrou na rota do Judiciário. O ex-governador do Paraná, Beto Richa, teve seu caso encaminhado ao juiz Sergio Moro, em Curitiba. “O PSDB vive a mesma situação do PT e perdeu completamente a bandeira da ética. O eleitorado quer o novo”, avalia o professor de ciência política na UnB, David Fleischer. “Esses processos abalam, mas se vão minar a candidatura depende do maratonista e da capacidade que ele tem de conseguir apoio”, afirmou FHC ao Programa do Bial na quarta-feira 25.

COBRANÇA Aos deputados e senadores tucanos, reunidos na quarta-feira, Alckmin mostrou otimismo mas não convenceu (Crédito:Divulgação)

Até a semana passada, o maratonista parecia estar fora de forma. Na quarta-feira, deputados e senadores tucanos reuniram-se com Alckmin em Brasília e cobraram do ex-governador um melhor desempenho. Alckmin pediu paciência aos correligionários e disse que até junho sua candidatura irá crescer. “Vamos ter os melhores palanques do Brasil, com candidatos fortes em todos os Estados”, afirmou no final do encontro. O problema é que os fatos apontam para outra direção. A candidatura, que no Sul do País perde terreno para Álvaro Dias (Podemos), mostra fragilidade até em São Paulo, maior colégio eleitoral do País e reduto tucano desde 1994. As pesquisas mostram que no Estado que governou por quatro mandatos, Alckmin soma 13% dos votos, atrás de Jair Bolsonaro, e vem perdendo eleitores. “Ele precisa resolver a questão de São Paulo. Não dá para continuar nesse impasse”, disse o senador Tasso Jeiressati (CE), um dos coordenadores da campanha, referindo-se ao fato de Alckmin não conseguir abrandar a desavença entre seus dois aliados que disputam o governo paulista: Márcio França (PSB), eleito vice do tucano em 2014 e atual governador, e João Doria, ex-prefeito da Capital e líder na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

Trata-se, na verdade, de uma briga fraticida. Na semana passada, dirigentes do PSDB paulista, ligados a Alckmin, foram ao Ministério Público para instaurar inquérito civil e criminal contra França por improbidade administrativa. Alegam que o atual governador estaria prejudicando uma prefeita que apoia Doria. Também expulsaram do partido tucanos que compõem o secretariado de França e que foram secretários de Alckmin. São exemplos que mostram a dificuldade do candidato em aglutinar o partido em seu próprio quintal.

Entendimento com o MDB

A fragilidade da candidatura se reflete em todos os Estados e, segundo avaliam líderes históricos da legenda, partidos como DEM, MDB e PSB buscam candidaturas próprias no vácuo deixado por Alckmin, por não conseguir deslanchar nas pesquisas. O presidente Michel Temer, pré-candidato do MDB, partido que detém o maior tempo de tevê na campanha eleitoral e capilaridade em todo o País, já deu sinais de que poderá vir a buscar um entendimento com o PSDB. Mas para isso precisaria de garantias de que seriam feitos acordos regionais e ninguém no Planalto acredita que Alckmin possa dar essa garantia.

“Enquanto o quadro for esse de total incerteza, não tem sentido ninguém recuar das suas pretensões presidenciais. O presidente segue seu caminho, e todos os demais também”, disse a ISTOÉ um assessor próximo de Temer. Também no DEM há incertezas. “Com Alckmin nada indica que o PSDB estará no centro da disputa presidencial”, diz um dos coordenadores da pré-campanha de Rodrigo Maia. “Há uma confusão nunca vista”, lamenta a deputada Yeda Crusius (PSDB-RS). “Em um ano, o PSDB teve três presidentes diferentes – Aécio Neves, Tasso e Alckmin. E as trocas deixaram ressentimentos. Antes de pensar em falar para fora, o PSDB precisa reaprender a falar para dentro”, afirma a parlamentar.

Em meio a essa crise, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), desafeto de Alckmin, deixou a elegância de lado e sugeriu, num grupo de whatsapp de políticos tucanos, que o partido trocasse o nome de seu candidato à Presidência da República. Pela sugestão de Arthur, o candidato seria o senador Tasso Jereissati. A ideia ecoou forte no partido e os debates em torno dela mostram uma fissura na legenda. Por isso, Tasso ligou para Virgílio: “Ô Arthur, por que você não me indica para papa? Eu prometo que, se ganhar, a primeira coisa que faço é te absolver de todos os seus pecados”. Claro, uma mensagem irônica, pois o próprio senador cearense vem criticando o andamento da pré-campanha.

A essa altura do campeonato, de acordo com um dirigente nacional do PSDB, é impossível prever se Alckmin se manterá ou não candidato à Presidência até agosto, quando as candidaturas precisam ser registradas. Esse mesmo dirigente, porém, salienta que as forças políticas do centro precisam se unir e que até agora não surgiu um nome capaz de promover essa unidade e que ao mesmo tempo não carregue o carimbo de político da velha política.