Agrishow: de olho no Planalto, pré-candidatos de direita disputam preferência do agro

Em Ribeirão Preto, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Romeu Zema intensificam agendas voltadas ao setor que representa 22% do eleitorado nacional

Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas e o senador Flávio Bolsonaro
Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas e o senador Flávio Bolsonaro Foto: Divulgação/ Vitor Salles

Sob o sol de 38ºC de Ribeirão Preto (SP), cerca de 300km de São Paulo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chegaram à Agrishow, maior feira do agronegócio da América Latina. Logo ao descerem do carro, ambos foram abordados por uma multidão de apoiadores. Após fotos e a tentativa de tocar o berrante, ambos se dirigiram para um pavilhão para dar o pontapé oficial em suas pré-campanhas eleitorais. O mesmo fizeram Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), em busca do apoio dos setores ligados ao agro.

A estratégia é conquistar uma parcela relevante do eleitorado brasileiro. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que 35 milhões de pessoas dependem dos setores do agronegócio no país. Isso representa cerca de 22% do eleitorado brasileiro. Para isso, os pré-candidatos aproveitaram a feira para tirar fotos e comer petiscos, mas não chegaram a trazer propostas concretas para o setor durante seus pronunciamentos.

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Na segunda-feira, 27, logo após a abertura oficial da feira, Tarcísio de Flávio apareceram para a primeira agenda pública juntos na pré-campanha eleitoral. Nos bastidores, o governador paulista resistia em fazer uma campanha antecipada para o filho “01” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Já aliados do senador cobravam de Tarcísio uma adesão mais forte dele na campanha presidencial, na busca da consolidação do nome de Flávio no estado de São Paulo.

Em dado momento, Flávio e Tarcísio se separaram entre os apoiadores. Enquanto o chefe do Palácio dos Bandeirantes estava em um estande, o senador estava pelo lado de fora com outros apoiadores. A mensagem passada para jornalistas e políticos que estavam no local era de distanciamento, mas a tese foi logo rechaçada por interlocutores do Palácio dos Bandeirantes. Aliados de Tarcísio de Freitas reforçam que ele deve aderir à campanha de Flávio, mas no momento certo.

Apesar disso, o governador de São Paulo enviou mensagem durante sua fala de abertura das atividades do estado na Agrishow. Tarcísio exaltou Flávio e disse que o senador “será o próximo presidente”. “Você está indo no caminho certo e vai contar com o exército. Esse exército tá aqui, ó. Esse exército é seu. Esse exército vai fazer a diferença”, exaltou o governador paulista durante sua fala. Aos jornalistas, Tarcísio negou a resistência da campanha antecipada e garantiu que novas agendas ao lado de Flávio estão confirmadas já para o mês de maio. “Vamos ter uma série de agendas em conjunto. A gente vai ter um monte de eventos juntos para mostrar que o Brasil tem jeito e tem um grande projeto; e esse projeto é com o Flávio Bolsonaro”, disse.

Flávio Bolsonaro usou seu tempo para atacar o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e se colocar como o nome que irá valorizar o agronegócio, caso seja eleito. O senador afirmou que o governo trata o agro como “lixo”. “Primeiro que tem que tratar o agro com respeito. Não pode o governo federal asfixiar o agro, tratar o agro como se fosse vilão, o agro é a solução. É dar visibilidade para o Plano Safra, reposicionar as linhas de crédito, que acabaram, a juros completamente absurdos, em alguns casos, os produtores rurais estão tomando juros a 25% ao ano, isso é impagável”, disse. “Podem ter a convicção de que, a partir de 2027, o agro vai ser ainda mais valorizado. Vocês não vão ter um governo perseguindo vocês, pelo contrário, vão ter um governo dando a mão para vocês”, concluiu.

O discurso adotado por Flávio não difere do de Ronaldo Caiado, pré-candidato à presidência pelo PSD. Ele chegou à Ribeirão Preto na terça-feira, 28, à noite, indo à feira no dia seguinte. Aos jornalistas, ele também mandou recados e, sem citar os adversários, afirmou ser um membro do “agro raiz” e que outros são apenas “sabor agro”. “Eu posso dizer a você que eu sou um agro raiz. Eu não sou uma geração que tem sabor de agro, mas não é agro raiz, entendeu? Alguns que se propõem a entender do agro em períodos de campanhas eleitorais, são aqueles que eu os denomino sabor agro”, declarou o ex-governador de Goiás.

Após participar de um evento com mulheres do agronegócio, Caiado seguiu o mesmo roteiro de Flávio. Mas, ao contrário de Flávio que transitou à pé, o ex-governador de Goiás circulou pela feira em um carrinho. O peessedista também tirou fotos com apoiadores, ganhou presentes e chegou a fazer críticas à atenção dada ao setor do agro pelo governo Lula.

Zema mantém foco no STF

Outro pré-candidato que foi à Ribeirão Preto na terça-feira, 28, em busca do eleitor do agro. Mas o foco do ex-governador de Minas Gerais chegou longe do setor. Com uma camiseta com a mensagem “Chega de Intocáveis”, Zema voltou seus ataques aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com foco maior em Gilmar Mendes. Aos jornalistas, o mineiro rebateu as ironias do ministro sobre o sotaque mineiro e disse que a Corte está com “rabo preso”. “Eu acho que nós precisamos de ter também um Supremo sem o rabo preso. Hoje, eles estão lá tentando fazer o quê? Evitar investigações. Precisamos mudar essa visão desses intocáveis que fica muito claro esse distanciamento deles”, declarou.

Romeu Zema ainda desconversou sobre a escolha do vice na sua chapa. De acordo com ele, a decisão ficará à cargo do presidente nacional do partido. “Está muito prematuro. Isso vai ser decidido mais adiante. No Novo, temos a separação, eu como mandatário, candidato, fico um pouco mais distante, então vamos perguntar isso ao Eduardo Ribeiro”, afirmou.

Zema seguiu uma estratégia diferente dos demais. Ele visitou apenas o estande da organização da feira e seguiu para encontrar Tarcísio de Freitas, que também estava no evento para anunciar investimentos para o setor agro. Os dois trocaram uma conversa rápida e o governador de Minas deixou o local.

Os pré-candidatos à presidência Aldo Rebelo (Democracia Cristã) e Augusto Cury (Avante) também estiveram presentes na Agrishow. Aos jornalistas, Aldo criticou a interferência de instituições em obras estruturantes e disse que o STF está travando o Brasil. “O Brasil não é um país pobre, o Brasil é um país interditado, interditado institucionalmente. O problema é que esse investimento torna-se inviável porque o Brasil está bloqueado, bloqueado pelas corporações, bloqueado pelo Supremo Tribunal Federal, que pode parar uma ferrovia há 6 anos e não acontece nada”, afirmou.

Ele participou junto com Caiado e Cury do evento ligado à mulheres do agronegócio. Além de Aldo, Cury também falou no evento, mas focou em frases motivacionais já usadas em suas palestras.