Bolsonaro: especialistas defendem domiciliar, mas pregam cautela por risco de fuga

Defesa enviou pedido de mudança de regime ao ministro Alexandre de Moraes; ex-presidente segue internado

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro Alexandre de Moraes, relator de processo que o condenou no STF
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro Alexandre de Moraes, relator de processo que o condenou no STF Foto: Sérgio Lima/AFP

Advogados ouvidos pela IstoÉ consideraram que a saúde fragilizada de Jair Bolsonaro (PL) justifica sua transferência para a prisão domiciliar. Ao mesmo tempo, ponderaram que o descumprimento de medidas cautelares pelo ex-presidente dá margem para eventual decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de mantê-lo na penitenciária da Papudinha após a alta hospitalar.

Nesta terça-feira, 17, a defesa de Bolsonaro pediu ao ministro Alexandre de Moraes que autorize a domiciliar para não agravar os riscos clínicos corridos pelo cliente. Internado com pneumonia bacteriana, o ex-presidente deixou a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital DF Star e apresentou melhora, mas não tem previsão de alta.

Bolsonaro enfrenta problemas de saúde desde que sofreu um atentado a faca em Juiz de Fora (MG) na campanha eleitoral de 2018, passou por cirurgias e recebeu 144 atendimentos médicos na prisão. Ele chegou a ficar preso em casa após a condenação a 27 anos e três meses de reclusão por uma tentativa de golpe de Estado, mas Moraes determinou a mudança após o ex-presidente tentar quebrar a própria tornozeleira eletrônica, em novembro.

Advogados, aliados e familiares de Bolsonaro protagonizam uma ofensiva pela prisão domiciliar. Para a defesa, o ex-presidente corre risco de morte, seu estado de saúde demanda cuidados médicos contínuos e é incompatível com o regime de custódia atual.

O que dizem os especialistas

Para Frederico Crissiuma, mestre em direito processual penal e sócio da Castelo Branco Advogados, o pedido enviado a Moraes encontra amparo nos riscos concretos corridos por Bolsonaro e sua condição é “tão ou mais sensível” do que outros condenados que tiveram a prisão domiciliar concedida por razões humanitárias.

Um dos casos mais citados por bolsonaristas é o de Fernando Collor. Em maio de 2025, o mesmo Moraes autorizou o ex-presidente a terminar de cumprir em casa a pena de oito anos e 10 meses de prisão à qual foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro descobertos na Operação Lava Jato.

Os advogados de Collor basearam o pedido nas condições de saúde e idade avançada do cliente, portador da doença de Parkinson, apneia do sono grave e transtorno bipolar — ao contrário do que o próprio político disse em audiência de custódia. O magistrado atendeu.

Especialista em direito público, Arthur Rollo afirmou que o precedente de Collor não se aplicava inicialmente porque Bolsonaro tentou fugir da prisão domiciliar, mas seu estado de saúde se agravou desde então, dando margem à concessão humanitária.

“Cabe [a transferência] ao menos até o restabelecimento da saúde do ex-presidente, nos termos aplicados a Collor”, disse o advogado à IstoÉ. “O uso de tornozeleira eletrônica e a vigilância policial permanente na casa do custodiado, como há hoje no hospital, são suficientes [para garantir o cumprimento da pena]”.

Quando cumpria medidas cautelares em prisão domiciliar, Bolsonaro exibiu tornozeleira eletrônica cercado por aliados em Brasília

Quando cumpria medidas cautelares em prisão domiciliar, Bolsonaro exibiu tornozeleira eletrônica cercado por aliados em Brasília

Na avaliação de Crissiuma, mesmo com a jurisprudência aberta, Moraes deve se atentar para não criar “percepção de tratamento desigual”. “O precedente serve como referência, mas a decisão [do ministro] deve resultar de análise das condições médicas e processuais do caso específico de Bolsonaro”, disse.

O penalista Fernando Castelo Branco, proprietário da Castelo Branco Advogados Associados, explicou à IstoÉ que essa análise deve considerar o diagnóstico de uma junta médica isenta, além dos profissionais que atendem o ex-presidente regularmente, para garantir a confiabilidade da decisão.

Antônio Carlos Geraldes Neto, especializado em direito penal e sócio da Geraldes Neto Advogados, divergiu de que haja base para a prisão domiciliar. Para o advogado, o regime é um “voto de confiança do Judiciário” na autodisciplina do criminoso e, como Bolsonaro descumpriu medidas cautelares anteriores, os problemas de saúde não bastam para justificar a concessão.

A saúde justifica o cuidado médico, mas o histórico de descumprimento justifica o rigor da custódia. A reincidência na desobediência às cautelares é o argumento técnico mais forte contra a concessão do benefício. A prisão domiciliar exige, afinal, lealdade ao processo”, afirmou à IstoÉ.

Crissiuma explicou que, independentemente do mérito, eventual autorização da transferência não configura progressão de regime. “Trata-se de uma medida excepcional e provisória, que poderá ser revista caso não haja mais justificativa médica. Progressão de regime não segue a lógica da tutela humanitária do preso”, concluiu.