Edição nº2590 16/08 Ver edições anteriores

Adoção na passarela? Sim ou não?

Foi no Pantanal Shopping, em Cuiabá, capital do Mato Grosso, que crianças e adolescentes na fila da adoção, dos quatro aos 17 anos, desfilaram, devidamente produzidos, numa passarela para eventuais interessados em adotá-las.

De imediato, o evento, organizado pela Comissão de Infância e Juventude da Ordem dos Advogados do Brasil e pela Ampara – Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção, foi duramente criticado na imprensa e nas redes sociais, transformando-se numa grande polêmica.

Guilherme Boulos, candidato presidencial nas últimas eleições, falou de “perversidade inacreditável” com “efeitos devastadores” e muitas outras pessoas falam ainda em mercantilizar as crianças, tratar seres humanos como gatos, cachorros ou gado.

Assim à primeira vista parece lógico e sensato pensar que colocar crianças sem pais numa vitrine para serem escolhidas não seja uma coisa recomendável. Mas será assim tão simples?

Vamos pensar duas vezes. Será que esta iniciativa é apenas e tão só um erro grosseiro e inadmissível? É certo que as crianças nessas circunstâncias estão muito vulneráveis e todo cuidado é pouco. Também é certo que feira de adoção não é o melhor modelo quando há tanta dor e sentimento envolvidos. Também é certo que estamos falando de seres humano em formação. Mas se, uma delas que seja, vir a sua vida transformada pela polêmica iniciativa o mundo fica melhor ou pior?

Lindacir Bernardon, mulher que adotou três filhos antes de criar a Ampara, afirma que o evento é muito eficaz e que foi por causa da passarela que em 2017 dois adolescentes de 14 e 15 anos ganharam uma família. E todos sabemos que nessa faixa etária não é comum se concretizar urna adoção.

Mas a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais (Anadef) repudiou o desfile afirmando num comunicado que o ato representa grave violação aos direitos humanos ao tratar as crianças como um objeto de apreciação, podendo ocasionar graves efeitos psicológicos devido à exposição.

Mas será que os milhares de meninas e meninos modelos que mostram a roupa das marcas famosas nas passarelas de todo o mundo podem fazê-lo apenas porque têm pais e os seu pais recebem dinheiro para isso?

E não será também uma hipocrisia discriminar aqueles que, não tendo pais, podem passar um dia diferente no glamour da passarela mostrado que também gostaria de ter uma família?

Não estou certo que algum dos lados tenha toda a razão. Mas fica fácil jogar pedras na Lindacir.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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