Cultura

Adão e Eva, do paraíso ao inferno

Professor de Harvard, Stephen Greenblatt conta por que a parábola do pecado original caiu em desgraça após dois milênios, ainda que milhões de pessoas nela acreditem

Adão e Eva, do paraíso ao inferno

PECADO ORIGINAL “Adão e Eva” (1504), de Albrecht Dürer: “retrato” do casal no último segundo de inocência

A história de Adão e Eva parece ter caído em desuso em um tempo que o debate sobre os gêneros abalou a dicotomia tradicional dos sexos. Há quem diga que o casal do Gênesis vive até hoje um exílio iniciado em 1859, quando o naturalista britânico Charles Darwin refutou o criacionismo ao publicar “A Origem das Espécies”, obra que demonstra que a evolução dos seres vivos se deu por seleção natural, e que o homem dominou os outros animais não por ter sido feito à imagem de Deus, mas porque usou da inteligência para resolver suas necessidades. Mesmo após a ciência ter condenado ao inferno a parábola do pecado original, ela continua a ser seguida e admirada por milhões de pessoas. O que explica a admiração tanto de devotos como de descrentes?

O escritor Stephen Greenblatt, de 74 anos, professor da Universidade Harvard, investiga as razões de sua eficácia milenar no livro “Ascensão e Queda de Adão e Eva”, de 2017, lançado agora pela Companhia das Letras. Fascinado pela fábula adâmica, mesmo dizendo ser um cético de formação judaica, o autor questiona como uma história que ocupa uma página e meia do Gênesis ainda se impõe. E se adianta em fornecer a resposta: a aventura da transgressão de Eva e Adão e sua expulsão do Jardim do Éden se esquiva das elaborações mentais complexas. “Tudo o que ela gerou parece ter recorrido a uma energia original inesgotável”, afirma. “Como se o seu âmago fosse radioativo.”

A serpente

Greenblatt levanta a genealogia da lenda, descreve os períodos em que ela gozou de alta reputação e os em que foi duramente criticada, além de analisar sua repercussão junto à posteridade. A “história das histórias” foi escrita entre os ano 600 e 500 a.C., durante o exílio dos hebreus na Babilônia, como uma resposta às cosmogonias arcaicas, como as epopeias sumérias “Enima Elish” e “Gilgamesh”, de 2 mil anos antes, que abordam respectivamente o dilúvio universal e a origem do homem. Em vez de peripécias de deuses promíscuos que se matam e cometem atrocidades, o narrador hebreu do Gênesis buscou fornecer dignidade à espécie humana. Adão foi plasmado à imagem de Javé. Quando o casal prova o fruto do conhecimento por incentivo da serpente, é expulso do paraíso, forçado a se alimentar como os animais e a trabalhar para sobreviver. Começava a história humana.

A universalidade de tal exemplo se deve à formulação da narrativa, que constitui a base das três grandes religiões monoteístas. “A história de Adão e Eva fala a todos nós”, afirma Greenblatt. “Trata de quem somos, de onde viemos por que amamos e sofremos. “

Mesmo contestado por gerações de pensadores, o mito capta como a espécie humana trata o trabalho e a morte. Desde Antiguidade, a premissa segundo a qual Javé criou uma armadilha ética para o casal virou objeto de comentários, nem sempre positivos. Se a história é inventada, ela se tornou convincentemente real e ganhou vida por meio da representação de escritores, filósofos e artistas. Greenblatt destaca o “instantâneo” pintado em 1504 pelo artista alemão Albrecht Dürer, no qual ele surpreende o casal um segundo antes de aceitar o convite da serpente.

Para além das controvérsias, a cena em que Deus sopra vida nas narinas de uma criatura de barro codifica uma verdade, de acordo com Greenblatt: a da força da narrativa que molda uma cultura. “Em algum momento num passado imensamente distante foi um sopro que deu vida a Adão, o sopro de um contador de história”, diz.