Acordo Mercosul-UE cria maior área de livre comércio do mundo?

Acordo Mercosul-UE cria maior área de livre comércio do mundo?

"Mercosul-UEPaíses da UE e do Mercosul superam outros blocos em volume de comércio com o mundo, mas ficam atrás em PIB, população e nas trocas comerciais entre si.Ao assinar o acordo com o Mercosul, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assumiu a missão de propagandear que a negociação criaria a maior área de livre comércio do mundo, capaz de rivalizar com centenas de tratados similares já em vigor.

"Estamos criando a maior área de livre comércio do mundo, um mercado que representa quase 20% do PIB global. Oferecendo oportunidades incalculáveis para nossos 700 milhões de cidadãos. Este acordo envia um forte sinal ao mundo: escolhemos o comércio justo em vez de tarifas", afirmou.

Depois de mais de 25 anos de debates, o acordo deve demorar mais um pouco para sair do papel, após o Parlamento Europeu submeter o caso para análise do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), nesta quarta-feira (21/01).

A definição do tamanho de uma Zona de Livre Comércio (ZLC) pode variar conforme o critério adotado: volume de trocas comerciais (seja com o mundo todo, seja entre os signatários), Produto Interno Bruto (PIB) dos membros, população ou número de países envolvidos.

Por esses parâmetros, o futuro Mercosul‑UE tende a figurar entre os maiores blocos já existentes em trocas comerciais, embora outros pactos ainda superem a parceria transatlântica em determinados indicadores, como no PIB.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) contabiliza 341 acordos desse tipo em vigor em todo o mundo, entre 629 instrumentos comerciais de diversos formatos já notificados à entidade.

São exemplos a Zona de Comércio Livre Continental Africana (afCFTA), a Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP) e o norte-americano Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o antigo Nafta. O próprio Mercosul já possui pactos comerciais com países como Israel, Índia e Egito.

Nas ZLCs, os países reduzem ou eliminam barreiras tarifárias e não tarifárias, facilitando a circulação de bens e serviços, conforme definição da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O modelo, porém, não exige fim das taxas para todos os produtos nem avança para a adoção de uma política comercial comum, como numa união aduaneira.

Trocas comerciais como carro-chefe

O principal indicador favorável à primazia mundial do Mercosul-UE é o volume que os países signatários já movimentam em seu comércio com o mundo inteiro. Ao nascer, o bloco de fato deve encabeçar a lista global de valores exportados e importados devido ao protagonismo da União Europeia e de nações voltadas à exportação, como a Alemanha.

Dados da plataforma UN Comtrade, das Nações Unidas, apontam que, em 2023, os quatro países fundadores do Mercosul – Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil – exportaram um valor nominal de 427 bilhões de dólares em bens (R$ 2,2 trilhões), enquanto importaram 355 bilhões de dólares (R$ 1,9 trilhões).

Já as 27 nações da União Europeia somaram 6,8 trilhões de dólares exportados (R$ 36 trilhões) e 6,7 trilhões importados (R$ 35 trilhões). Ao todo, foram 14,3 trilhões de dólares (R$ 76 trilhões) movimentados num único ano, considerando trocas comerciais com todo o mundo.

Próximo a esse patamar está a Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP), que reúne 15 países da Ásia e da Oceania: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Austrália, China, Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia.

Juntas, essas nações venderam 6,9 trilhões de dólares (R$ 37 trilhões) em produtos ao exterior e importaram 6 trilhões (R$ 32 trilhões): foram quase 13 trilhões de dólares trocados (R$ 69 trilhões).

O cálculo, com base nos mesmos dados do UN Comtrade, não considera o comércio de serviços. O ano de 2023 foi adotado como parâmetro de análise por ser o período com dados mais completos para a comparação entre os países citados.

RCEP se destaca nas trocas intrabloco

O Observatório da Complexidade Econômica (OEC), que apresenta valores similares ao do UN Comtrade, destaca também as trocas intrabloco.

No caso da UE, as operações entre os 27 países do bloco ocuparam 60% (3,9 trilhões de dólares) de todo o volume comercial de 2023. No Mercosul, as trocas entre os países-membros representam apenas 10% (48 bilhões de dólares).

Somadas, as movimentações internas dos membros do futuro acordo Mercosul-UE superam as do RCEP, cujo intercâmbio comercial entre os signatários alcançou 2,6 trilhões de dólares naquele ano (R$ 13,9 trilhões). O comércio asiático foi puxado pela venda de circuitos integrados, petróleo refinado e telefones.

Por outro lado, o fluxo comercial entre Mercosul e UE ainda é tímido em comparação à parceria oceânico-asiática: foram 120 bilhões de dólares (R$ 643 bilhões) movimentados entre os blocos transatlânticos. Os signatários estimam que esse montante aumente em 59 bilhões de euros quando o acordo entrar em vigor (R$ 316 bilhões).

Entre os produtos mais exportados pelos sul-americanos aos europeus estão o petróleo bruto, a soja e o café não torrado. Já a UE vendeu a Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, sobretudo, destilados de petróleo, medicamentos e vacinas em 2023. O volume comercial é impulsionado principalmente por Brasil e Alemanha.

PIB e número de países

Já sob o ponto de vista do PIB, a parceria oriental supera em larga escala as projeções do Mercosul-UE. Juntos, os membros do bloco europeu e sul-americano acumularam, em 2024, mais de 22 trilhões de dólares (R$ 117 trilhões), 20% do PIB global. Os dados são do Banco Mundial.

A cifra é inferior à alcançada pelos membros do RCEP, com 30 trilhões de dólares (R$ 160 trilhões, 27% do PIB global) acumulados. A parceria EUA, México e Canadá chegou a um PIB acumulado ainda mais expressivo: 32 trilhões de dólares (R$ 171 trilhões), ou 29% do PIB global. O acordo norte-americano, porém, deve passar por revisão neste ano, após críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, ao seu modelo.

Quando consideradas a área e o número de países, a vencedora é a Zona de Comércio Livre Continental Africana, que agrega 54 nações da União Africana.

População

No caso da população, o RCEP volta a ocupar o topo da lista, com 3,7 bilhões de pessoas alcançadas. O número é impulsionado pela expressiva população da China. Mercosul-UE, juntos, chegam a 723 milhões de pessoas, enquanto o comércio EUA, México e Canadá atinge 512 milhões.

Por outro lado, embora as zonas de livre comércio elevem as trocas comerciais entre os envolvidos, nem sempre a população é beneficiada. Numa revisão publicada pelo Banco Mundial em 2025, pesquisadores identificaram que esses acordos geram influência estatística significativa sobre o desenvolvimento econômico, mas os benefícios se concentram em setores desenvolvidos.

"Em contraste, o desenvolvimento humano parece enfrentar desafios, especialmente em setores menos desenvolvidos e em regiões marcadas por fortes desigualdades. Ao dissecar esses efeitos, distinguindo entre países do Norte/maiores e do Sul/menores, observa‑se um impacto negativo perceptível sobre o desenvolvimento humano neste último grupo", conclui o texto.