Acordei de sonhos intranquilos

O que faríamos se acordássemos amanhã e o presidente Jair Bolsonaro tivesse dado um golpe, estabelecido um governo autoritário na cara dura, cercado o STF com tanques de guerra e fechado o Congresso. Provavelmente nada. Em meio à pandemia, veríamos tudo abestalhados, em nosso isolamento compulsório. Olharíamos um para o outro pelo Zoom e diríamos: “Bolsonaro deu um golpe, você viu. E agora?”. Engoliríamos um sapo de proporções descomunais. Despertados de sonhos intranquilos, nos sentiríamos como insetos, reduzidos à nossa insignificância democrática.

Na vida real, enquanto tomássemos o café da manhã, pensaríamos em duas opções. A primeira seria uma reação institucional vigorosa. Remotamente, deputados, senadores e juízes reagiriam à arbitrariedade e colocariam uma camisa de força no ditador. “Eles não vão deixar”, pensaríamos. “Vamos derrubar Bolsonaro no aconchego do lar, pelo WhatsApp ou usando a conta no YouTube”. A segunda seria aceitar a mamadeira de piroca que Bolsonaro nos oferece e assistir resignados as Forças Armadas desfilarem seu poderio bélico pelas ruas de Brasília, junto com Sara Winter e o grupo dos 300 do Brasil, que exibiriam suas pistolas Glock na Esplanada dos Ministérios.

Não haveria passeatas de oposição, nem qualquer tipo de protesto contra a ditadura por causa da quarentena. Alguns jovens de esquerda destemidos bateriam no peito e diriam: “Agora vou para a clandestinidade”. E pelas regras do novo regime seríamos obrigados a sair de casa. Quem mantivesse o isolamento seria preso, acusado de montar um aparelho subversivo. O mesmo valeria para as máscaras. Seriam proibidas sumariamente. Mascarados seriam tratados como uma ameaça ao governo. A clandestinidade provavelmente seria se esconder no sítio do papai e denunciar as arbitrariedades pelo Twitter. Isso se Bolsonaro não derrubasse a rede, inclusive o sinal da Globo, e colocasse a sociedade em silêncio.

Na hora de lavar as mãos para se proteger do coronavírus concluiríamos, mais uma vez, que não haveria nada a fazer. Robotizados, lavaríamos a mão novamente. Seríamos, afinal, dobrados pela força. Com o Exército ao lado de Bolsonaro não iríamos às ruas lutar pela democracia. Seríamos esmagados. Restaria assistir as lives diárias do ditador e dos seus herdeiros. Esse se tornaria o grande entretenimento da população brasileira. “Eu e meus filhos mandamos nisso aqui”, ouviríamos o ditador dizer. “Família acima de todos e quem pode mais chora menos”. No meio do pandemônio, voltaríamos para a cama e coçaríamos nossas patinhas de insetos.

O que fazer agora? No meio do pandemônio, voltaríamos para a cama e coçaríamos nossas patinhas de inseto

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