Comportamento

Ação pela natureza

Quando ISTOÉ denunciou a biopirataria na Amazônia, os leitores foram presenteados com sementes de mogno, então ameaçado de extinção. Uma delas vingou e está para ser tombada como patrimônio em Indaiatuba (SP)

Crédito: Marco Ankosqui

SÓLIDA Árvore plantada por leitor com semente dada por ISTOÉ atingiu 20 metros (Crédito: Marco Ankosqui)

Há 15 anos, militares brasileiros ajudavam a resgatar 70 reféns das mãos de guerrilheiros do Sendero Luminoso, no Peru, a Suécia rejeitava a adoção do euro como sua moeda oficial e o mundo perdia o cantor americano Johnny Cash. Por aqui, o governo preparava o Bolsa Família e, embalado pela alta dos preços das commodities, se fortalecia junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). A edição 1.773 de ISTOÉ, que circulou em setembro de 2003, revelava na reportagem de capa que a falta de legislação e fiscalização abria as portas para a biopirataria no Brasil, o que causava prejuízos diários estimados em US$ 16 milhões. A reportagem mostrava que o carro-chefe da exploração predatória era o mogno, árvore tropical em risco de extinção cuja madeira nobre é cobiçada para a fabricação de móveis de luxo, principalmente nos EUA e Reino Unido. Por estas qualidades, entre 1971 e 2002 foram extraídas 2,5 milhões de árvores, que poderiam ter gerado US$ 4 bilhões em divisas, se o corte fosse feito de maneira legal e sustentável. Para lembrar que em 21 de setembro se comemora o Dia da Árvore, à época a Editora Três fechou uma parceria com a ONG Clube da Semente e a Votorantim Celulose para distribuir cerca de 1,6 milhão de sementes de mogno em saquinhos colados à capa da revista — com as devidas instruções de plantio.

Sensibilizado com a iniciativa, o desenhista de projetos aposentado Aldorindo Braz Mayer, então com 70 anos, cultivou uma das sementes por um ano, plantando a muda de mogno perto de sua casa, no Centro Esportivo dos Trabalhadores de Indaiatuba, a 100 quilômetros de São Paulo. Simpática e cidadã, a iniciativa solitária resultou em uma árvore que hoje alcança cerca de 20 metros. No plantio, o aposentado estava acompanhado dos escoteiros da cidade, que aprendiam a cuidar de mudas. “Fiz minha parte”, disse Aldorindo Mayer, 85 anos, à sombra da árvore que se tornou seu projeto pessoal.

Natural da Amazônia, o mogno hoje é uma espécie vulnerável, situação menos grave que há 15 anos, quando quase foi exterminado. Sua venda está totalmente banida desde 2003. Na ocasião, a árvore entrou para a lista da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Silvestres da Fauna e Flora Ameaçadas de Extinção (Cites). Hoje, um metro cúbico de mogno no mercado negro vale cerca de US$ 1,4 mil para os madeireiros e apenas R$ 30 para os lenhadores. Uma árvore de 200 anos pode fornecer 5 metros cúbicos de toras, o que pode gerar móveis de mais de US$ 100 mil em lojas sofisticadas no exterior. Diante das dificuldades para obtenção do produto, hoje madeireiros ilegais brasileiros derrubam ipês, ameaçando uma nova espécie.

PROTEÇÃO “Fiz minha parte”, diz Aldorindo Mayer (esquerda); vereador Peres (abaixo) quer tombar grandes árvores da cidade. Tratado internacional veta comércio de mogno (Crédito:Marco Ankosqui)

Árvore nobre

Swietenia macrophilla, o mogno brasileiro, é também conhecido como acaju, aguano, araputanga, caoba, cedro-aguano, cedro-mogno, cedrorana
Hábitat encontrado na Amazônia e em trechos de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão
Características sua madeira varia do marrom avermelhado ao vermelho
Dimensões pode atingir 70 metros de altura, com um tronco de mais de 4 metros de diâmetro

Cálculos superficiais indicam que o Brasil perde mais de US$ 5 bilhões ao ano com a retirada ilegal de madeiras, extratos de plantas e animais silvestres. Cerca de 70% desse tráfico se concentra na região amazônica. Há um caso folclórico de biopirataria. A empresa japonesa Asahi Foods registrou comercialmente o cupuaçu. Após uma disputa, o governo japonês cassou a patente. Outras situações ficaram sem solução. O laboratório Bristol-Myers Squibb financiou uma pesquisa com o veneno da jararaca que permitiu o desenvolvimento de um remédio para controle de pressão arterial. Já o laboratório Abbott sintetizou um analgésico mais poderoso que a morfina a partir do veneno de um sapo colorido amazônico. O Brasil e os brasileiros não ganharam nada com as descobertas. Por isso, a existência saudável de um único espécime de mogno a milhares de quilômetros de seu hábitat é uma pequena boa notícia, pois indica que seu crescimento não foi apenas trabalho de um abnegado. Por algum tempo, Aldorindo Mayer chegou a se preocupar. Em uma estiagem, as folhas secaram. Depois, branquearam estranhamente. Felizmente, a árvore voltou a florescer e segue saudável.

Marco Ankosqui

Mais uma Maria

Os maiores riscos ao mogno de Indaiatuba são urbanos. Com a abertura de um estacionamento ao lado do novo ginásio de esportes chegou-se a cogitar uma derrubada. Mesmo sendo uma espécie protegida, o vereador Alexandre Peres (SD) entrou com um projeto de tombamento dessa e de outras árvores de grande porte da cidade. “Não dá para arriscar”, disse o vereador. “Esse mogno também deveria se chamar Maria”, disse Emma Mayer, esposa de Aldorindo, em referência às cinco filhas de mesmo prenome do casal. Os destinos das outras sementes distribuídas por ISTOÉ estão sendo rastreados. É razoável acreditar que Aldorindos pelo Brasil afora tenham adotado os mesmo cuidados e que espécimes dessa árvore portentosa estejam crescendo a salvo.

MUTIRÃO Um ano após germinar, a muda foi plantada por tropa de escoteiros (Crédito:Marco Ankosqui)

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