Economia

Abismo financeiro

Moratória da Argentina escancara a gravidade da crise econômica, que se agravou com o favoritismo do peronista Alberto Fernández para as eleições de outubro

Crédito: AFP/Arquivos

FIM Mandato do presidente Mauricio Macri se encerra de forma melancólica, com inflação galopante e grande desvalorização do peso (Crédito: AFP/Arquivos)

Fragilizada pela inflação galopante e pela desvalorização vertiginosa do peso, a economia argentina foi à lona com as prévias que colocaram o peronista Alberto Fernández como franco favorito para ganhar as eleições presidenciais de outubro. Os efeitos não demoraram. O país precisou anunciar uma moratória na quarta-feira 28, por incapacidade de honrar os pagamentos da dívida. O ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, falou em “reperfilar” a dívida, evitando usar a palavra moratória. O eufemismo evidencia o cuidado em não melindrar os organismos financeiros e procura evitar a associação do governo Mauricio Macri, que está em apuros para as eleições presidenciais de outubro, com a atitude hostil aos credores internacionais dos governos peronistas que o precederam.

O governo fez um movimento cuidadoso e afirmou que deseja refinanciar os vencimentos de títulos, mantendo valores e juros previamente combinados. Nos papéis de curtíssimo prazo, os investidores pessoa física não serão atingidos. Para pessoas jurídicas, foi imposta uma mudança compulsória de prazos. No caso do Fundo Monetário Internacional, a proposta é renegociar o pagamento dos US$ 56 bilhões emprestados ao país, cujas parcelas começariam a vencer em 2021. Como se trata de uma renegociação voluntária, a iniciativa não tem na aparência a mesma gravidade do calote (default) ao FMI e aos detentores de títulos já praticado no passado. Nos anos Kirchner, o país se recusou a pagar a dívida externa e empreendeu uma cruzada contra os fundos internacionais — mobilizando na época até a aliada Dilma Rousseff. Se a ação permitiu ganhar fôlego e movimentar a economia, fechou o país aos investidores e transformou o país num pária do mercado internacional.

Renegociação dos títulos visa enfrentar a crise no câmbio e pode aumentar o risco do Brasil, que também tenta segurar o dólar

Memória do calote

A tensão só foi parcialmente desfeita pelo atual presidente Mauricio Macri, no início de seu mandato, quando prometeu respeitar os contratos e voltar a abrir o país ao mundo. Mas o final do seu mandato está sendo melancólico. O presidente não conseguiu implantar reformas modernizantes nem combater a inflação, e não tem discurso para justificar a situação do país, mergulhado em crise.

O ministro argentino, que assumiu o cargo na semana passada, afirmou que o objetivo das medidas anunciadas é atenuar a turbulência no mercado de câmbio, em seguida às primárias que apontaram a liderança de Fernández, tendo como vice Cristina Kirchner. Isso fez disparar a queda do peso. A moeda já se desvalorizou 28% frente ao dólar, o que levou o Banco Central a queimar reservas para evitar a disparada. Esse movimento é insustentável, e poderia comprometer as atuais reservas de US$ 57,4 bilhões — daí a necessidade de segurar os pagamentos da dívida. A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil. A crise no país vizinho pode trazer consequências e criar mais desafios para segurar a queda do real. Há um efeito global de desvalorização das moedas dos países emergentes, por causa da crise internacional, e o Banco Central (BC) nos últimos dias já precisou queimar reservas para segurar o dólar. O BC disse que está preparado para intervir e que não há riscos sistêmicos, mas a maré negativa na economia do país vizinho aumenta o risco e prenuncia mais dificuldades para o Brasil.

 

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