Economia

“Abertura é essencial para promover a competitividade brasileira”

O brasileiro Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC, diz que acordo Mercosul-União Europeia é muito positivo

Crédito: Antônio Cruz

Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC (Crédito: Antônio Cruz)

A economia mundial vive um momento turbulento, com aumento de medidas restritivas ao comércio. Porém, o brasileiro Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), aponta que iniciativas como o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia, recém-anunciado, representam a confiança da comunidade internacional na abertura econômica como a melhor forma de atingir o desenvolvimento econômico sustentável.

ISTOÉ – Qual a importância do acordo Mercosul-UE para o Brasil?

ROBERTO AZEVÊDO – O entendimento parece muito positivo. Era muito esperado – afinal foram 20 anos de negociação. Sinaliza, particularmente, que Mercosul e Brasil estão engajados em melhorar sua participação na economia mundial por meio do comércio. A abertura comercial é essencial para promover a competitividade da economia brasileira. Certamente haverá desafios, como sempre. Mas isso faz parte de toda negociação e de todo processo de abertura competitiva do mercado.

Quanto tempo vai demorar para surtir efeitos práticos?

Difícil dar uma data precisa. Você tem agora todo o processo de ratificação, que é sempre complexo em acordos dessa magnitude. Sensibilidades – em ambos os lados – afloram nesses momentos. Mas isso é assim mesmo. Depois há um cronograma de abertura progressiva, que varia de setor para setor. Dito isso, acredito que um acordo desses é um sinal promissor para a comunidade mundial, sobretudo para os investidores. E o impacto disso é mais imediato, principalmente sobre as decisões de investimento e, mesmo, comerciais.

Quais setores serão mais beneficiados no Brasil? E quais podem ser prejudicados?

Sempre que temos acordos dessa dimensão, você tem todo tipo de impacto. Há setores que estão mais preparados, são mais competitivos. É o evidente caso do setor agrícola e do agribusiness no Brasil e nos demais países do Mercosul. Outros precisarão se ajustar, particularmente em um primeiro momento. Os governos precisam estar alerta e se preparar para facilitar essa acomodação. Mas o grande ganho vem dos efeitos sistêmicos. Espaços econômicos mais integrados, mais liberalizados, permitem sinergias e maior produtividade. Reduzem custos de produção, permitem ganhos de escala. Gasta-se menos com tarifas. Você melhora o poder aquisitivo dos cidadãos e sua qualidade de vida. A abertura comercial é a única forma de alavancar a competitividade da indústria nacional.

O protecionismo está em ascensão no mundo? Qual é a importância internacional do acordo?

Vivemos um momento turbulento na economia mundial. Relatório recente da OMC mostra que o número de medidas restritivas ao comércio, aplicadas nos últimos meses pelas economias do G20, foi 3,5 vezes maiorque a média dos últimos sete anos. Isso tem consequências econômicas sérias. Tenho alertado que precisamos reverter esse quadro. Mas não podemos esquecer que também há importantes movimentos em sentido contrário, o que é muito bom. É o caso dos acordos de Mercosul-UE, UE-Canadá, TPP-11, bem como os avanços nas negociações regionais na Ásia-Pacífico. Eles sinalizam que grande parte da comunidade internacional segue acreditando no caminho da abertura econômica, da cooperação e do comércio internacional como a melhor forma de atingir um desenvolvimento econômico sustentável.