PANDEMIA * 2020

Aberração presidencial

Com cálculo político mesquinho e à revelia dos especialistas, Jair Bolsonaro implode o esforço nacional para brecar o coronavírus. Conseguiu unir governadores, Justiça e Congresso em defesa do País e se isolou ainda mais

Crédito: Isac Nóbrega

IRRESPONSABILIDADE Contra a recomendação dos especialistas, Jair Bolsonaro ataca a quarentena na TV (Crédito: Isac Nóbrega)

“É grave a posição do presidente, de ataque às medidas de contenção da Covid-19. Não é momento de ataque aos gestores públicos” Davi Alcolumbre, presidente do Senado (Crédito:Marcos Brandão)

A população assiste todos os dias à escalada do número de mortos e doentes da Covid-19. No Brasil, a pandemia ainda está acelerando, e especialistas alertam que ela tem um potencial tão grave como o registrado na Itália e na Espanha, que lideram o número de óbitos. Famílias estão assustadas, assumindo as consequências financeiras da quarentena. Profissionais de saúde se arriscam em todo o País para dar assistência, mesmo sem equipamentos ou recursos adequados. A Abin calcula que 207 mil brasileiros ficarão doentes e 5.571 morrerão até 6 de abril. Não se ouviu nenhuma preocupação do presidente com eles, nem condolências aos familiares dos já enterrados. Ao contrário, o presidente chocou o País na noite de terça-feira, 24, ao fazer um pronunciamento público arquitetado pelo núcleo ideológico do seu governo, visando implodir o esforço nacional para deter a doença. Tudo por um cálculo político baixo, que visa tirá-lo da situação defensiva em que se colocou ao desdenhar da pandemia.

IMPROVISO Os filhos gravam Jair Bolsonaro anunciar que o Exército fabricará a cloroquina, ainda sem efeito comprovado (Crédito:Divulgação)

Governadores na liderança

O objetivo do presidente era retomar a iniciativa política que evaporou desde o início do ano, quando a doença mudou as prioridades de todos os países e pegou a economia brasileira praticamente estagnada. O “pibinho” de 1,1% em 2019, divulgado pelo IBGE, havia colocado em xeque um dos pilares do governo, a retomada econômica (outro pilar, a luta contra a corrupção, já estava trincado). Com o avanço da moléstia, governadores tomaram a iniciativa corajosa de implementar em larga escala as únicas medidas que estão freando a Covid-19 por todo o mundo: isolamento social, apoio massivo à rede hospitalar e divulgação clara dos perigos para a população. João Doria, em São Paulo, liderou essas ações com eficiência. Wilson Witzel, no Rio, também anunciou medidas duras. Os dois ganharam os holofotes, assim como o titular do Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que se transformou na figura de maior credibilidade do governo. Isso irritou o presidente, que passou a atacá-lo. Ele cedeu, e passou a relativizar a importância do isolamento. A ideia mesquinha do presidente foi recuperar “a narrativa” do momento político, transferindo o ônus da recessão que se avizinha para os gestores que estão liderando a luta contra a doença. Para isso, contou com o monitoramento do gabinete do ódio, instalado no Palácio do Planalto e impulsionado pelo filho Carlos Bolsonaro, que havia detectado uma queda na sua popularidade nas redes sociais. As milícias digitais, então, foram acionadas. Era preciso interromper a caída e tentar reavivar a imagem de um presidente que zela pela economia, mesmo que isso significasse brincar com vidas.

CONTRAPONTO O vice Hamilton Mourão: “A posição do governo por enquanto é uma só, o isolamento. O presidente pode ser que tenha se expressado de uma forma que não foi a melhor” (Crédito:AFP)

Mas o discurso surtiu pouco efeito. Ao contrário, levou a uma reação do Congresso e uniu os governadores contra o presidente, que ficou isolado. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, imediatamente divulgou: “É grave a posição do presidente, de ataque às medidas de contenção da Covid-19. Não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos”. O governador de São Paulo, João Doria, liderou a reação. Em uma videoconferência tensa com governadores do Sudeste, questionou diretamente o presidente sobre o discurso que afrontava o esforço das equipes pelo País. O presidente reagiu exaltado, dizendo que o paulista havia sido eleito com sua ajuda para, depois, abandoná-lo. Doria replicou cobrando “serenidade, calma e equilíbrio” e ameaçou ir à Justiça se o governo federal confiscasse respiradores mecânicos. “Recebi como resposta um ataque descontrolado do presidente. Ao invés de discutir medidas para salvar vidas, preferiu falar sobre política e eleições”, disse. Gilmar Mendes, do STF, também respondeu ao pronunciamento em um tweet, no qual pediu rigor com as recomendações da OMS e ressaltou que as agruras da crise “não sustentam o luxo da insensatez”. Apoiadores de primeira hora romperam com o presidente, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. “Não tem mais diálogo com esse homem. As coisas têm que ter um ponto final”, afirmou.

A ação de Bolsonaro foi rebatida até pelo vice-presidente, Hamilton Mourão. “A posição do governo por enquanto é uma só, o isolamento e o distanciamento social. O presidente pode ser que tenha se expressado de uma forma que não foi a melhor”, disse. A transmissão despertou mais uma vez os panelaços, que ficaram famosos na véspera do impeachment de Dilma Rousseff. Eles atingem todo o País e se tornaram uma rotina diária. O destempero do presidente repercutiu negativamente na imprensa mundial e virou uma crise institucional. Em vários círculos, inclusive entre os militares, cresce o debate sobre a permanência de Bolsonaro no cargo. Aumenta a convicção que o presidente já perdeu as condições políticas de governar. A melhor saída, nesse momento, seria a sua renúncia, calculam. Pelo menos um ministro do STF já prepara o embasamento jurídico para o impeachment. Seria um trauma político para o País, que já enfrentou dois processos de impedimento na história recente. Porém, necessário, se a democracia e a ordem constitucional estiverem ameaçadas.

A reação também leva em conta que Bolsonaro sempre apostou no caos para faturar politicamente. Desde a época de formação, quando foi expelido do Exército após um processo nebuloso, acusado de preparar um atentado terrorista, ele fez da discórdia o combustível para alavancar sua carreira. No seu entorno, há a esperança de que o conflito com os outros Poderes abra espaço para a quebra da ordem constitucional. O desconforto dos militares que ainda dão sustentação ao governo se estende aos comandantes da ativa. Cabe a eles ponderar se avalizar um líder com intenções autocratas não vai dizimar o esforço de décadas de restabelecer o prestígio das Forças Armadas, depois do regime militar. Afinal, o bolsonarismo cada vez mais se parece com o chavismo, que arruinou a Venezuela. E Bolsonaro está conseguindo politizar os quartéis e militarizar a política, como fez Hugo Chávez. Na semana mais delicada do mandato de Bolsonaro, chamou atenção um tweet do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, que reforçou a importância do combate ao coronavírus: “Talvez seja a missão mais importante de nossa geração”.

Ameaça autoritária

O ministro Edson Fachin, do STF, já se manifestou sobre o perigo da tentação autoritária, depois que o presidente afirmou que “ainda” não considerava decretar estado de sítio por causa da emergência. “É temerária a hipótese excepcional do estado de sítio para essa situação crítica pela qual hoje passamos. É matéria indigesta, mas precaver-se nunca é demais. A fortaleza da Constituição deve resistir ao assédio que quer se alavancar, insuscetível, no caso da pandemia, a justificar um regime extravagante. A garantia ao mandato popular e a normalidade democrática não deveriam ceder a impulsos de ocasião”, escreveu.

O pronunciamento de Bolsonaro foi classificado como um “discurso da morte” por sete associações médicas, que a condenaram como um crime contra a saúde pública, passível de punição de acordo com o Código Penal. O presidente vai na contramão do mundo. O isolamento social é uma orientação seguida em 156 países. Um dos argumentos de Bolsonaro para seu ataque à quarentena é o perigo de paralisação da economia. É falacioso. Quanto mais rápida e eficiente for a sua implementação, menor vai ser a expansão da doença e mais rapidamente as atividades poderão ser retomadas. Isso também permitirá que a estrutura médico-hospitalar absorva os doentes com novos leitos de UTI e que sejam fabricados e distribuídos os suprimentos de primeira necessidade — como álcool gel, máscaras e respiradores. Países que retardaram as medidas duras tiveram que mudar o seu curso de ação e enfrentaram perdas ainda mais graves.

O maior problema da investida de Bolsonaro é ético. É inconcebível que um líder negocie vidas por um cálculo econômico. Relativizar a doença, dizendo que mata apenas idosos, representa a “falência moral” da sociedade, já disse com precisão o presidente da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Não é admissível que se crie uma loteria da morte para manter a narrativa de crescimento econômico. Pronunciamentos têm consequências. O oportunismo

Sergio Andrade

político do presidente já estimulou aliados como o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes. Ele afirmou em um grupo de WhatsApp que a vida “não tem valor infinito”. São argumentos inaceitáveis que traduzem a ruína do atual governo. Como Bolsonaro não oferece alternativas à crise, Congresso, Judiciário e governadores estão assumindo o protagonismo político. Precisam liderar a Nação em uma guerra, na falta de um comandante.

“Gostaria de ter um presidente que não relativizasse uma questão tão grave como o coronavírus. Muito triste que não tenhamos uma liderança em condições de orientar”
João Doria, governador de São Paulo

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