PANDEMIA * 2020

A voz das janelas

População promove panelaços em todo o País em protesto contra as atitudes do presidente Bolsonaro diante da crise do coronavírus

Crédito:  Carlos Pupo

MEGACRÍTICA Imagens projetadas nas fachadas dos prédios: novidade tecnológica nos protestos contra o presidente (Crédito: Carlos Pupo)

PANDEMIA 2020

A paciência acabou. A maneira irresponsável como o presidente Jair Bolsonaro tem lidado com a crise do coronavírus levou milhares de brasileiros a realizar barulhentos protestos esta semana em todo o país. Dos pequenos municípios às grandes capitais, o som dos panelaços se misturou aos gritos de ‘Fora Bolsonaro’ e ‘Acabou’.

Se fosse citar aqui todas as cidades onde ocorreram panelaços, seria necessário várias páginas. Apenas para citar algumas, na terça e quarta-feira (17 e 18) as janelas foram palco de manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, entre outras.

A tecnologia trouxe um elemento novo aos protestos. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, megaprojeções foram vistas nas fachadas de prédios, enormes imagens que espelharam o descaso do presidente com a seriedade da pandemia que o país enfrenta. “…é só uma gripe kkkk”, trazia uma das projeções, referência a uma declaração de Bolsonaro sobre a pandemia. O presidente já afirmou que está havendo “uma histeria”, que o coronavírus “é muito mais fantasia” e que “não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo.” Celebridades também tornaram público seu apoio aos atos. A atriz Alinne Moraes postou no Instagram uma foto de duas panelas totalmente amassadas, sem texto — uma imagem vale por mil… palavrões.

Na quarta-feira (18), quando os decibéis anti-Bolsonaristas atingiram o volume máximo, o protesto estava planejado para ter início às 20h30, mas começou mais cedo graças à bizarra coletiva de imprensa onde o presidente e seus ministros surgiram de máscaras. Diante dos jornalistas, o presidente afirmou que o seu governo “está ganhando de goleada” a guerra contra o vírus e que, por isso, mereceria elogios. Se não fosse trágico, seria apenas ridículo.

Bolsonaro chegou a dizer que o panelaço que aconteceria mais tarde era uma “expressão da democracia”. No Twitter, porém, o presidente voltou a culpar a imprensa. Segundo ele, a mídia divulgou o panelaço contra o seu governo, às 20h30, “mas a mesma imprensa, que se diz imparcial, não divulgou outro panelaço, às 21h, a favor do governo Jair Bolsonaro”. Detalhe: não havia nenhum panelaço “pró-Bolsonaro” antes da fala do presidente. Sua deixa, no entanto, foi suficiente para que a militância digital, real ou robótica, entrasse em ação. Resultado: panelas e gritos de ‘mito, mito’ até foram ouvidos às 21h, mas o que ecoou na maior parte do país foi mesmo um silêncio sepulcral.

A guerra no Twitter seguiu ao longo do dia. A hashtag ‘Fora Bolsonaros’, assim, no plural, ficou em primeiro lugar entre os temas mais comentados no Brasil e em quinto entre os Trending Topics mundiais. No Brasil, ‘Respeitem 57 milhões de votos’ e ‘Panelaço contra a esquerda’ ficaram em segundo e em quarto lugar, respectivamente.

O início da queda?

Os brasileiros já assistiram a tantas polêmicas provocadas pelo presidente Bolsonaro que perderam a conta. Dos insultos contra as mulheres às acusações de fraude sem provas na eleição da qual ele mesmo saiu vencedor, Bolsonaro esticou a corda na relação com a população apostando na força do eleitorado radical. O resultado é que sua popularidade despencou até mesmo entre quem o apoiava. Na terça (17), o deputado Leandro Grass (Rede-DF) protocolou o primeiro pedido de impeachment do presidente. O deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), antigo aliado de Bolsonaro, anunciou que também tem um pedido de impeachment pronto, mas que vai aguardar os desdobramentos da crise na saúde para protocolá-lo.

É bom lembrar que o protesto contra Bolsonaro foi semelhante ao sofrido pela ex-presidente Dilma Rousseff em março de 2016. Em abril, um mês depois do maior panelaço contra ela, o Congresso aprovou o impeachment e afastou a presidente. Esta semana, Bolsonaro enfrentou a fúria das panelas pela primeira vez. Deve ter se surpreendido ao perceber que um protesto na vida real é muito mais barulhento do que os gritos de seus seguidores virtuais.