Comportamento

A volta por cima do Flamengo

As lições de um clube que driblou a falência, renasceu nos gramados, tem ainda aberta a ferida pela morte de jovens em seu centro de treinamento, mas soube achar o caminho da conquista de três títulos — e passou o ano gritando gol

Crédito: Thiago Ribeiro / AGIF

DUPLA DE OURO Landim e o técnico português Jorge Jesus, homenageado como “cidadão do Rio de Janeiro” (Crédito: Thiago Ribeiro / AGIF)

PASSADO Tudo ia bem com Marcio Braga, até que ele constatou: “O dinheiro acabou” (Crédito:Divulgação)

Qual o time de futebol que foi campeão do Campeonato Carioca de 2019? Flamengo. Qual o time de futebol que ganhou a Taça Libertadores da América? Flamengo. Qual o time de futebol que venceu o Brasileirão? Flamengo. Qual o time de futebol que pode conquistar o caneco de campeão do mundo ainda nesse dezembro? Flamengo. Assim, o Mengão é só alegria para a sua nação rubro-negra que engloba quase quarenta milhões de torcedores em todo o País. A vida do clube nos últimos dez anos, no entanto, não foi essa constante festa de bandeiras tremulando e de redes adversárias balançando (cita-se, aqui, trecho da música que ritmava o imortal e emocionante Canal 100, de Carlos Niemeyer). A vida do Mengo foi dura nos últimos tempos, e é por isso que se pode dizer que a equipe está dando a volta por cima, renasceu, enterrou a fase que começara em 2009 quando o seu então presidente Marcio Braga reuniu a imprensa e deu uma entrevista de uma única frase: “o dinheiro acabou”. Ele se referia ao fato de o esporte amador, uma das grandes tradições do clube, deixar de existir, uma vez que era ele financiado pelas receitas obtidas com o futebol. E o dinheiro do futebol acabara.

NAÇÃO RUBRO-NEGRA Uma cidade a cantar: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!” (Crédito:Daniel RAMALHO / AFP)

Das crises futebolísticas brotam quase sempre grandes times, a história do futebol mostra, e não foi diferente com o Flamengo. Após lamentáveis administrações, um grupo de empresários colocou a mão na consciência: se somos flamenguistas até os ossos, por que não ajudar na crise? Era o final de 2012 e teria eleição à presidência do clube. Esse grupo de pessoas lançou então o nome de Eduardo Bandeira de Mello, que trazia na sua aposentadoria a experiência de ter trabalhado no BNDES. Ele venceu a eleição e seguiu uma regra de ouro: entre o cofre vazio e o time desmantelado, era preciso primeiramente cuidar do cofre, ainda que a pressão da torcida, que nunca quer saber de cofres mas apenas de gols, se tornasse insuportável. Aos trancos e barrancos seguiu 2013 e só Deus sabe como a equipe ganhou a Copa do Brasil. Quanto a Bandeira de Mello, manteve-se focado em renegociações e pagamentos de dívidas, em medidas de ajustes financeiros e atraiu imediatamente investidores e parceiros puramente comerciais.

Ele assumira o comando do Flamengo com um rombo de R$ 1 bilhão, ao final de 2018 a dívida havia caído para R$ 469 milhões — R$ 305 milhões em dívidas tributárias. Para cada R$ 1 de receita, o indevidamente ficava na casa dos R$ 0,87, gerando um superavit total de R$ 45,8 milhões. Sem retirar absolutamente nada do mérito do atual presidente, o engenheiro Rodolfo Landim, eleito em 2019, o fato é que ele pegou a casa já bem em ordem, e quem a arrumou foi Bandeira de Mello. Isso permitiu que o Mengo se enriquecesse também de estrelas da bola: Rodrigo Caio, Bruno Henrique, Arrascaeta e o ídolo Gabigol (foram gastos com isso, no primeiro semestre desse ano, cerca de R$ 140 milhões). A folha de pagamento, hoje, sem contar direito de imagem mas incluindo comissão técnica, é de R$ 8 milhões, e em tal comissão brilha, desde o início de junho, o técnico português Jorge Jesus, agora cidadão honorário do Rio de Janeiro. Com ele, o Flamengo alcançou o inimaginável: 77,8% de aproveitamento dos pontos disputados, com vinte e três vitórias, oito empates e duas derrotas

NINHO DO URUBU Triste início de 2019 para o Flamengo, com o incêndio no centro de treinamento: dez jovens mortos (Crédito:Divulgação)

Como já se afirmou, trata-se mesmo da volta por cima. Historicamente, o Flamengo é um elemento identitário da cultura nacional. Na menor cidade que seja do interior do Brasil, nem que seja para jogar pelada aos finais de semana, há um time chamado Flamengo. Não é difícil imaginar quantas novas camisas flamenguistas surgirão agora em todo o País. É a glória em um ano que, para o clube, começou em fogo e morte: um incêndio em fevereiro no centro de treinamento, conhecido como “Ninho do Urubu”, levou a vida, por queimadura ou asfixia, de dez jovens entre catorze e dezessete anos. Até agora, a tristeza habita os torcedores, jogadores e dirigentes. E assim é essa paradoxal palavra vida, curta palavra de quatro letras: ela meigamente faz com que a dor pela morte da boa meninada e a alegria pelos títulos convivam nos mesmos corações rubro-negros.

Pense numa cidadezinha do interior do Brasil. Nela haverá um time, nem que seja para jogar peladas aos finais de semana, chamado Flamengo