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A volta do Brasílio

Brasílio é o único brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.

Falei dele aqui, no começo do ano, quando a gente estava mais preocupado com Copa do que com eleição.

Brasílio é dono de uma esperança inabalável no país, desde sempre, que diariamente divide com seus amigos de bar.

Brasílio sempre acreditou.

Durante o governo militar, tinha um fusca café com leite com um siri no câmbio, que levava no vidro de trás o adesivo “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Saiu às ruas pelas Diretas Já; achou que Tancredo tinha só uma gripinha; foi fiscal do Sarney; carregou foto da Zélia na carteira e foi cara pintada.

Aí veio a fase petista, não por ideologia, mas por fé no país mesmo.

Botou estrelinha vermelha no terno.

Durante o governo Lula, insistia que sairíamos mais maduros do Mensalão:

– São as dores do crescimento, gente. Somos uma democracia jovem!

No pior da crise do governo Dilma garantiu:

– O que me dá esperança nesse governo é que — se tudo der errado — Temer é vice.

Os amigos apenas riam e balançavam a cabeça concordando.

Michel Temer assumiu e Brasílio profetizou:

– Esse é ponta firme, calejado.

Até na época dos escândalos da JBS achou um jeito de ver o copo meio cheio:

– Pode falar o que for, mas a linguiça que os caras fazem é de primeira.

Brasílio aguentou firme até o início deste ano.

Na época, a perspectiva da eleição para presidente deu uma derrubada na confiança.

Pela primeira vez nenhum candidato conseguia despertar sua crença infinita no futuro.

Sumiu do bar por meses.

Alguns amigos chegaram a pensar que ele havia mudado para a Argentina, para vibrar pelo Macri.

Mas não.

Brasílio estava em casa. Calado. Deprimido.

Só que, como ele sempre fala, não há males que não venham para bem.

Um dia, depois da Copa, Brasílio resolveu olhar, um por um, o currículo e o plano de cada candidato.

Aos poucos, com as pesquisas, com as mensagens do WhatsApp e das redes sociais, Brasílio foi voltando recuperando o jeito de sempre.

Mais ou menos em agosto voltou ao bar.

– Pô Brasílião! Não some mais, rapaz! Você faz falta, caceta!

– Sumo não! Tô de volta com tudo. Melhor Jair se acostumando!

Todos riram.

Era o Brasílio em sua melhor forma.

A campanha dele pelo Bolsonaro era de dar orgulho ao Olavo de Carvalho.

Positiva, cheia de argumentos, nada de críticas ao PT:

– Passado é passado. A gente tem que mirar no futuro! — e fazia revolvinhos com as mãos.

Quando Bolsonaro foi esfaqueado, Brasílio foi para Aparecida e acendeu uma vela.

Os dois turnos passaram e Bolsonaro se elegeu.

No bar, Brasílio pagou uma rodada de cerveja para todo mundo:

– Quem votou no Haddad, branco ou nulo pode beber também, porque agora somos um só povo.

Aí veio a indicação do Moro.

Foi a primeira vez que Brasílio chorou em público.

Choro de alegria misturada com orgulho.

– Ah gente…vocês têm que entender que eu esperei tanto por esse momento e… — não conseguiu completar, mas todo mundo entendeu.

Então veio a indicação do cosmonauta Marcos Pontes.

A turma do bar estava ansiosa para ver a reação do Brasílio.

Mas Brasílio não apareceu.

Sumiu, paradeiro desconhecido.

Os amigos foram até sua casa para ver o que poderia ter acontecido.

Ninguém. Só o fusca coberto por uma lona, na garagem.

A verdade apareceu semanas depois: Brasílio estava acampado na frente da rampa do Palácio, em Brasília.

Que é para guardar lugar.


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