Comportamento

A volta de Wuhan

Após hesitar num primeiro momento, o governo brasileiro decide enviar aviões para trazer brasileiros de volta da região da China mais afetada pelo coronavírus. Na cidade, o isolamento é total e poucos podem entrar e sair dela

Crédito: AFP
QUARENTENA Os brasileiros que voltarem da China ficarão isolados em uma base militar em Anápolis, em Goiás, por 18 dias (Crédito:Divulgação)

A epidemia de coronavírus já acumula mais de 28 mil casos confirmados em todo o mundo com 565 mortes causadas. Dos óbitos, 549 são na província de Hubei, onde está a cidade de Wuhan – com aproximadamente nove milhões de habitantes em seu centro urbano e apontada como o epicentro da doença. A cidade foi “fechada” em 23 de janeiro, de forma que o transporte local foi interrompido e as pessoas que não tivessem “motivos especiais” não pudessem deixar a região. O tráfego de pessoas é praticamente inexistente nas ruas da cidade, limitado apenas a alguns agentes de saúde e filas em mercados, farmácias e hospitais. A recomendação é que fiquem trancados em suas casas e apartamentos, evitando o contato com o mundo exterior.
Nesse cenário, alguns brasileiros estão confinados. Destes, ao menos 30 externaram em algum momento o interesse em deixar a cidade. A princípio, o governo brasileiro não pretendia realizar qualquer tipo de operação para repatriar os cidadãos que não conseguiam sair sem os tais “motivos especiais”, mas a pressão feita pelos brasileiros deu resultado e dois aviões foram enviados a China para trazer 34 pessoas de lá – número que pode aumentar. Outros brasileiros já conseguiram sair para outros países da Europa e do sudeste asiático. Entre as atitudes que pressionaram o governo, está um vídeo publicado no YouTube com um grupo de brasileiros apelando ao presidente Jair Bolsonaro pelo transporte, acompanhado da hashtag “BrasilCasaDeTodosNós”. O grupo argumenta que outros países como EUA, Japão e França enviaram rapidamente missões para resgatar seus cidadãos, enquanto aqui nada havia sido feito.

“Tínhamos comida suficiente, mas o sentimento era de preocupação já que estávamos no epicentro do coronavírus” Millene Fernandes, jogadora de futebol (Crédito:Divulgação)

Mesmo com a demora inicial, o governo brasileiro tomou as atitudes corretas para o transporte. O País não era dotado de uma lei de quarentena, mas um projeto que estabelece regras para o enfrentamento do problema foi enviado para o Congresso que já repassou ao Senado. Dois aviões da frota presidencial foram para a China. Fizeram escalas em Fortaleza, Las Palmas (Espanha) Varsóvia (Polônia, para troca da tripulação) e Urumqi (China), na ida e na volta. A previsão é que todos estejam no Brasil no sábado 8, após uma missão que deve durar cerca de 62 horas. As aeronaves são de modelo VC-2 e têm capacidade para 30 passageiros cada, trarão 29 pessoas da China e o transporte será acompanhado de agentes de saúde com quatro médicos, três enfermeiros e um auxiliar.

Ao chegarem, os passageiros, incluindo os militares, ficarão em quarentena por 18 dias em uma base em Anápolis, no estado de Goiás, município com cerca de 360 mil habitantes. Sendo assim, passarão o carnaval em descontaminação. Da janela de seu apartamento, a jogadora de futebol Millene Fernandes observou as ruas vazias de Wuhan. Ela se isolou em seu apartamento por 12 dias, seguindo recomendações gerais de saúde oferecidas pelas autoridades locais. “Tínhamos levado comida suficiente e isso não foi problema, mas o sentimento era de preocupação já que estávamos no epicentro do coronavírus” disse à ISTOÉ. Ela foi destaque do futebol brasileiro no ano passado, sendo artilheira do time feminino do Corinthians e conquistando dois títulos. Transferiu-se para o Wuhan Xinjiyuan no começo do ano.

Quarentena

Após seu caso ganhar repercussão na mídia brasileira e pelas redes sociais, ela recebeu autorização da embaixada brasileira e do governo de Portugal e se transferiu para o país europeu em um voo com cidadãos portugueses e franceses. Ela passou por exames antes de embarcar e permanecerá em quarentena em Portugal por aproximadamente 14 dias. Com a situação grave na China, o campeonato chinês de futebol teve o início adiado e ainda não há previsão para a estreia de Millene em gramados chineses. Ela deve retornar ao Brasil após a quarentena, e foi liberada pelo clube para empréstimos curtos enquanto isso. Mesmo assim, ela se diz ansiosa e com vontade de atuar pelo Wuhan Xinjiyuan, assim que os problemas locais forem resolvidos.

“Estava achando que não ia conseguir trazer elas. Aí minha mulher recebeu o e-mail da embaixada dizendo que ela e nossa filha poderiam embarcar no avião” Pablo Lassalle, ilustrador (Crédito:Divulgação)

O empresário José Renato Penaluppi mora em Wuhan há nove anos, desde que fez mestrado na cidade, e é sócio de uma empresa que oferece cursos superiores voltados a chineses que pretendem estudar em países do ocidente. Ele estava de férias e voltou a Wuhan em 15 de janeiro, dias antes de a cidade ser fechada. Segundo ele, havia um alerta na mídia chinesa desde a virada do ano, e ele que chegou com a preocupação de ter de sair de lá por causa do vírus. “Quando voltei para a cidade vi que ninguém estava preparado. Surpreendeu que foi muito rápido”, contou Penaluppi. Entre as razões para isso, ele cita o período próximo ao ano novo chinês, comemorado em 25 de janeiro. É o maior feriado do país e mobiliza boa parte da população, algo que talvez tenha deixado os moradores desligados das medidas de prevenção. Ele deixou Wuhan na noite do dia 22 de janeiro, em um voo para o Camboja, onde permaneceu em quarentena por duas semanas. De lá, foi para a Rússia, onde está no momento com a namorada, que reside no país. Para ele, o plano também é esperar passar a onda de contágio.

O ilustrador Pablo Lassalle tem gasto seus dias preocupados com a situação de sua esposa, a chinesa Zhang Hui, e sua filha, Isabela, de um ano e meio de idade. Eles são residentes de Palhoça em Santa Catarina, mas Zhang e Isabela estão em Wuhan, em uma viagem de três meses de férias. Elas ficaram confinadas num apartamento e com restrições de movimentação cada vez maiores, a medida que o nível de alerta na cidade foi aumentando.

“Quando voltei para a cidade vi que ninguém estava preparado. Surpreendeu que foi tudo muito rápido” José Renato Penaluppi, empresário (Crédito:Divulgação)

Alta tensão

“A situação é muito tensa, não sei mais o que fazer, estou tentando me informar sobre o vírus e manter o controle”, afirmou. Num primeiro momento, os temores de Pablo, que morou sete anos em Wuhan, se tornaram realidade: o governo traria apenas os brasileiros da China. A situação de sua família é complexa, visto que a mulher é chinesa mas a filha nasceu no Brasil, o que gerou certa apreensão. Após apelos feitos por ele pelas redes sociais e contatos com o Itamaraty, mulher e filha foram confirmadas como passageiras do avião que trará os cidadãos de Wuhan. Até a quinta feira 6, o Ministério da Saúde não confirmou nenhum caso de coronavírus no Brasil, com muitos suspeitos descartados até o momento, restando apenas nove não confirmados. Caso o processo de repatriação seja bem feito, dificilmente ele será o responsável pela disseminação do vírus por aqui, como temeu ignorantemente o governo. A partir de agora, nenhum cidadão brasileiro ficará para trás, mesmo que esteja em um país distante e isolado pela epidemia de coronavírus.