A volta da economia e o “morra quem morrer”

Não haverá retomada segura do trabalho se Economia e Saúde não estabelecerem um diálogo verdadeiro, informado por dados robustos sobre a testagem da população

Crédito: Eraldo Peres

(Crédito: Eraldo Peres)

O ministro da Economia Paulo Guedes falou na terça-feira ao Congresso sobre as ações de enfrentamento à Covid-19, e afirmou que sua equipe está ouvindo mais 150 entidades empresariais para criar protocolos de retorno seguro ao trabalho “em sessenta ou noventa dias”.

A declaração passou batida, mas não devia. A filosofia está corretíssima: é preciso mesmo que haja regras gerais para proteger a saúde de quem sai da pandemia e essas regras devem ser propostas pelo governo federal.

Ao mesmo tempo, espanta que a fala de Guedes esteja tão descolada da realidade. A retomada da atividade econômica não é coisa para daqui a três meses. Já está ocorrendo em toda parte, de forma desordenada, sem parâmetros claros, na base do “morra quem  morrer”, conforme disse o prefeito de Itabuna, na Bahia.

Evitar o adoecimento de quem trabalha sempre foi o ponto óbvio de convergência entre as preocupações da Saúde e da Economia. Por isso, os dois ministérios deveriam ter trabalhado intensamente em conjunto para coletar informações, criar modelos estatísticos e propor padrões de ação para todo o país.

Acontece que essa interação foi desencorajada, até mesmo bloqueada no governo, por obra e graça do presidente Jair Bolsonaro. Desde o primeiro momento, ele tratou saúde e economia como se fossem reinos separados e antagônicos.

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Depois que o STF assegurou que Estados e municípios também tinham poder de decisão na abertura e fechamento do comércio e dos serviços, ele abandonou de vez qualquer empenho em articular medidas nacionais para lidar com o coronavírus. Foi como se dissesse: se não posso mandar em todos, virem-se.

Ao contrário do que diz Bolsonaro, a decisão do STF nunca foi uma ordem para que o governo federal deixasse de exercer um papel de coordenação em meio à pandemia.

Em nenhuma área essa coordenação teria sido mais necessária que na testagem de pessoas. Mas essa é uma área em que praticamente não há informação consolidada. Só no dia 24 de junho, há menos de dez dias, o Ministério da Saúde anunciou um programa de testagem em massa da população.

Para se ter uma ideia da relevância que a testagem pode ter sobre a tomada de decisões econômicas, basta ler o livrinho lançado há pouco pelo americano Joshua Gans, Economics in the Age of Covid-19 (Economia na Era do Covid-19).

Gans, que ensina na Universidade de Toronto, usa o raciocínio econômico para deliberar sobre as escolhas difíceis trazidas pela pandemia. Começa com o dilema sobre adotar o isolamento social ou deixar o vírus correr solto (resposta: o isolamento não é somente a opção mais humana, é também a mais racional) e prossegue até hipóteses desagradáveis, como a possibilidade de não haver imunização permanente contra o covid-19.

A conclusão central de Gans é que a pandemia exige a adoção de uma “economia da testagem”.

Ele diferencia os testes para identificar quem está com o vírus ativo e quem já teve contato com ele, e explica como as informações trazidas por cada um deles podem orientar políticas para o mercado de trabalho.

Também observa, com base em simulações estatísticas do ganhador do Prêmio Nobel Paul Romer, que até mesmo testes ruins, com altos números de resultados incorretos, já ampliam em muito a segurança das decisões sobre a volta da atividade econômica: as análises sugerem que até testes com uma taxa de falso negativo de 20% ou mais autorizam manter menos pessoas em isolamento.

“A capacidade de realizar testes é crítica para uma abertura mais rápida da economia e uma retomada da vida social”, escreve Gans. “Adotar uma economia da testagem é o caminho para dar segurança aos trabalhadores, e os testes não precisam ser perfeitos para que isso ocorra.”

Países como Coreia do Sul e Nova Zelândia mostram o acerto desses raciocínios.

Na sua fala aos congressistas, Paulo Guedes afirmou que vai usar seu tempo nas próximas semanas para articular medidas que destravem os investimentos e para finalizar programas como o Renda Brasil, que institui uma renda básica universal, e a Carteira Verde-Amarela, que institui um novo modelo de relação trabalhista.

“Vamos surpreender o mundo na retomada”, disse ele.

É bom que o ministro se mostre otimista. É bom que procure insuflar ânimo nas pessoas num momento de altíssima incerteza.

No entanto, teria sido mais tranquilizador se ele houvesse demonstrado que também existem planos para lidar com cenários que talvez não sejam tão róseos, como a necessidade de novas quarentenas depois da primeira reabertura.

Esses planos só existirão se um diálogo verdadeiro se estabelecer entre Economia e Saúde. A implantação de uma economia da testagem nem mesmo engatinha no Brasil.

É triste pensar em quanto poderia ter sido feito, em quanto o país poderia estar mais bem posicionado para uma volta “surpreendente” do crescimento, se não fosse vítima das doenças da teimosia e da irracionalidade.

 

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