A vilania climática de um certo capitão

Crédito: Divulgação

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Não foi apenas a ausência que preencheu uma lacuna. O capitão Bolsonaro, que faltou (por medo, mesmo, e falta do que dizer) à COP-26, a mais importante conferência sobre o clima dos últimos tempos, converteu-se em objeto de desprezo internacional. Não somente o pária. Melhor classificá-lo de inimigo. O primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, indagado abertamente no encontro sobre o que aconteceria caso o Brasil não cumprisse as metas previstas e acordadas na conferência, foi direto ao ponto: “temos meios comerciais de responder a qualquer país desobediente nesse sentido”. Todos sabem, não há nada de legítimo ou sério nas promessas firmadas pelo governo brasileiro para a redução total dos desmatamentos até 2030. Ao menos durante o período de duração da era Bolsonaro os esforços seguirão na direção contrária. Ele demonstra isso dia a dia. Não está nem aí para as intempéries do clima ou para as consequências dos desastres ambientais. Acha tudo uma grande bobagem. Os discursos dos participantes em Glasgow, cada um mais dramático que o outro, tratavam da ameaça da fome, da condenação de gerações futuras, do risco de conflitos globais, eventos relacionados ou impactados por um aumento de temperatura no planeta. Cada um dos líderes e especialistas das principais nações e praticamente todos os agentes globais que cuidam do assunto e importam estavam presentes. Menos, naturalmente, Bolsonaro. O Brasil segue na contramão do mundo, segregado, desgastado, após décadas protagonizando e comandando as discussões ambientais. Embora ansiosamente aguardado, não foi apresentado pela delegação verde-amarela qualquer plano efetivo de controle da devastação na Amazônia e Pantanal. A expectativa de o País ter uma estratégia consolidada para eliminar o problema da exploração ilegal na região foi frustrada. Chefes indígenas chegaram até a denunciar a guerra promovida pelo garimpo e a inércia das autoridades locais para colocar fim ao embate, fechando os olhos aos abusos. Em seu papel de mitômano habitual, durante os dias de “dolce far niente” passados na Itália, o capitão Bolsonaro resolveu voltar a mentir sobre as queimadas, distorcendo dados e fatos. Ninguém caiu na conversa. Na sua ignorância grotesca, quebrando com fundamentos basilares das relações internacionais, sem qualquer pragmatismo ou respeito às preocupações alheias, ele seguiu negando as evidências do desprezo que alimenta pela causa da preservação. No encontro do G-20, ao contrário dos demais chefes de Estado, demonstrando a política diplomática inepta e a falta de disposição para o diálogo, Bolsonaro foi um dos poucos a não ter reuniões agendadas com os demais líderes – à exceção daquela com o presidente italiano, Sergio Mattarella, que, como anfitrião, teve de receber a todos. O Messias “mito” dá, rotineiramente, provas da trágica extensão do isolamento ao qual submeteu o Brasil. Numa iniciativa paralela, coalizões de empresários e ONGs, além de governadores de Estado presentes à COP-26, tentaram salvar o País do completo fiasco. Levaram alternativas locais e independentes de combate aos crimes ambientais que foram bem recebidas. Tentaram adotar um tom propositivo, embora saibam não estarem totalmente descartadas as iniciativas punitivas contra países em desenvolvimento que, como o Brasil, romperem com as metas acertadas. E, no caso, estão conscientes, serão medidas no campo comercial. A pedalada climática que o governo Bolsonaro promoveu desde o ano passado — tentando empurrar para frente taxas de redução das emissões de gases — soou como alarme: enquanto o mundo havia reduzido as emissões em 7%, o Brasil seguiu subindo o nível, em um ritmo de 9% em 2020. Não foi por menos que se converteu no grande vilão da cúpula do clima. Uma vilania deliberadamente patrocinada pelo capitão. O mundo agora se pergunta com qual mecanismo as autoridades locais pretendem atingir a redução das emissões. O estrago na credibilidade está consolidado e o País deverá levar anos para conseguir ser encarado novamente de maneira positiva, sem as barbeiragens da figura tóxica do presidente, que tem destruído a reputação nacional além mares.

No cômputo geral da COP-26, uma promessa alvissareira sobressaiu: cerca de 100 países se comprometeram a fazer o possível para manter o aumento da temperatura da Terra em, no máximo, 1,5 graus Celsius. Qualquer coisa acima disso é tido como uma catástrofe a comprometer o futuro da humanidade. Por aqui, os efeitos de gases estufa lançados na atmosfera nos últimos dois anos praticamente dobraram. Na gestão de Bolsonaro a situação piorou até alcançar patamares críticos. Ao patrocinar o avanço do garimpo sobre terras indígenas e desmantelar por completo as agências fiscalizadoras do meio ambiente, ele deixou correr soltas as práticas de desmatamento, além das queimadas em profusão. A Amazônia teve um território, comparável ao tamanho dos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais juntos, completamente devastado. No ano passado, o Pantanal colecionou o maior número de focos de incêndio do século, enquanto o presidente, inerte e impassível, ignorava as consequências. Fauna e flora foram completamente destruídas enquanto o “mito” insistia em vender a ideia do Brasil como exemplo de preservação ambiental. Lorota das grandes. O que ainda está de pé não é por obra ou interferência sua. Mas da natureza privilegiada que o País detém. A retórica negacionista desse inquilino do Planalto, que nos impôs mais um vexame internacional, não pode ser maior que o compromisso e a crença dos brasileiros nos valores da preservação ambiental para a sobrevivência de nossos filhos e netos. A sua vilania terá fim e o bom-senso triunfará.


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