Cultura

‘A Vida Mentirosa dos Adultos’ reafirma paixão e coragem na voz de Elena Ferrante


Há semelhanças e diferenças entre A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante, e a tetralogia napolitana, A Amiga Genial, que consagrou a autora. As 1.700 páginas da tetralogia compõem um roman-fleuve sobre os altos e baixos da amizade entre duas personagens, Lila e Lenù, da infância à velhice. As 432 páginas de A Vida Mentirosa dos Adultos (tradução de Marcello Lino) concentram-se numa única protagonista, Giovanna, dos 12 aos 16 anos de idade.

Pode-se dizer que o ambiente é o mesmo – Nápoles, a metrópole ao sul da Itália. Mas Nápoles é multifacetada, um mundo, como se sabe. A cidade das duas meninas da tetralogia resume-se ao “rione” pobre da classe trabalhadora. Uma delas é filha de um sapateiro, a outra, de um contínuo. Já a Nápoles de Giovanna (Giannina para os íntimos) é a de uma classe média intelectualizada. O pai, Andrea, é professor de história e filosofia. A mãe, Nella, leciona latim e grego. Família progressista, com ideias libertárias tanto na política como nos costumes. Eles são amigos íntimos de outra família, Mariano e Costanza, com duas filhas, Angela e Ida. Pais e mães se frequentam, as filhas são amigas entre si. Em especial, Giovanna e Angela, com a mesma idade.

Esse mundo quase idílico tem lá suas fraturas. A trinca mais evidente atende pelo nome de Vittoria, a irmã proscrita de Andrea. Ele se refere à irmã como a mais odiosa das criaturas, mulher destrutiva e feia como a fome, a ser evitada a todo custo. Tanto assim que Giovanna nem sequer conhece a tia, moradora de um bairro popular.

Um dia, Giovanna ouve uma conversa em voz baixa entre o pai e a mãe na qual Andrea diz a frase fatídica: “Ela está ficando cada vez mais parecida com Vittoria”. Ora, raciocina a adolescente, se estou cada vez mais parecida com essa tia repulsiva, vou terminar sendo como ela ao crescer. Assim, o melhor é conhecê-la.

Esse expediente narrativo abre caminho para o rito de passagem de Giovanna. Se antes se encontrava protegida no nicho familiar e entre amizades com pessoas parecidas, ao decidir conhecer a tia, abre-se para novos personagens que terão influência em sua vida. A começar pela própria Vittoria, uma dessas personagens poderosas, traçadas com linhas fortes por Elena Ferrante.

Junto com Vittoria que, ao contrário do irmão não estudou e é empregada doméstica, toda uma Nápoles desconhecida abre-se para Giovanna. Além da tia, desbocada e agressiva, mas também terna e sincera, vem a família de Margherita e seus dois filhos, Corrado e Tonino, e a filha, Giuliana. Há uma conexão entre Margherita e Vittoria, como descobrirá quem ler o romance.

A autora vale-se também de outro expediente narrativo, uma misteriosa pulseira que ao longo da história passa de uma personagem a outra. Esclarecer a origem da joia e o fascínio despertado em quem a possui significa vislumbrar algo da estrutura das famílias em questão. É uma espécie de objeto transicional, como se diz em psicanálise, carregado de uma simbologia ambígua na vida daquelas pessoas, em especial as mulheres.

O percurso de Giovanna é o desse desvendamento do mundo em que vive e de si mesma. Tudo pouco transparente, como já diz o título do livro, o universo dos adultos é construído em cima de falsidades. “Mentiras, mentiras, os adultos as proíbem, porém dizem tantas”, constata a adolescente. Sim, mas a mesma complicação vale para ela mesma. No processo de tornar-se adulta e confrontar-se com o sexo, Giovanna é obrigada a reconhecer, ao referir-se a um suposto parceiro: “A verdade era difícil. O asco tinha suas ambiguidades”. O mesmo nojo que sente em relação ao pequeno playboy Rosário também a atrai.

Essa complexidade do sexo torna difícil a partilha simplória entre verdade e mentira. E o sexo vive em toda parte, e em forma de paradoxo, admite a narradora: “Se cavarmos um pouco, encontramos o sexo em qualquer coisa, mesmo nas mais elevadas. Para se definir o sexo, um só adjetivo é insuficiente, são necessários vários – constrangedor, insosso, trágico, alegre, prazeroso, asqueroso – e nunca um de cada vez, todos juntos”. Freud não diria melhor.

No caráter tortuoso desse percurso entre a experiência vivida e a linguagem encontramos o melhor de Elena Ferrante. Os personagens são retratados por inteiro, jamais como clichês. A prosa fluida e elegante, clara em situações complexas, parece dar a cada palavra o peso justo. As oscilações abruptas entre o idioma oficial do país e o dialeto napolitano emergem como um retorno do reprimido justo nas situações-limite da violência, do ódio, do amor, do sexo.

Há muita paixão, coragem e honestidade na voz feminina de Elena Ferrante. Quem a lê, sente essa força.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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