Cultura

A vida e as carências do imperador

Baseado em cartas e documentos, “D. Pedro II — A História Não Contada” revela o monarca que teve amantes e sempre sofreu com a ausência do pai

Crédito: Divulgação

O que “D. Pedro II — A História Não Contada”, de Paulo Rezzutti (editora Leya, 546 páginas), traz são inéditos aspectos que ajudam a entender a trajetória do último imperador do Novo Mundo, com sua movimentada vida amorosa extraconjugal e a profunda carência que sentia da figura paterna, D. Pedro I, que faleceu em Portugal, quando ele tinha apenas 9 anos. Já sua mãe, a imperatriz Maria Leopoldina da Áustria, de quem herdou a fisionomia e o gosto pelas artes, se foi quando ele tinha apenas um ano.

“Abdicaria como meu pai se não me achasse capaz de trabalhar para a evolução da república”, escreveu Pedro II, que teve um de seus retratos danificado na Proclamação

As revelações de Rezzutti só foram possíveis graças a um intenso trabalho de leitura e análise de cartas e documentos até há pouco desconhecidos. Outra parte do material jamais havia sido devidamente transcrita e contextualizada para o grande público. Até o presidente russo, Vladimir Putin, fez sua contribuição. Em 2017, ele entregou oficialmente ao então presidente Michel Temer um lote de cartas desconhecidas dos historiadores brasileiros.

Na cama com amantes

O livro dá uma dimensão mais humana ao garoto que se viu coroado aos 14 anos para pacificar querelas entre oligarcas regionais e dar legitimidade a um regime que tentava se consolidar em um continente de novas nações assolado por revoltas, intervenções e pobreza. Um dos episódios é prosaico, mas delicioso: “Já tomei sorvete de limão e de baunilha”, escreveu para a irmã, D. Maria II, rainha de Portugal. Ele tinha oito anos e José Bonifácio havia deixado de ser seu tutor. Sua vida era dura, com estudos intensos e poucas horas de lazer. Uma exigência do pai, que durante toda a vida se ressentiu de não ter recebido uma educação formal esmerada. Anos depois ele escreveria em seu diário: “Sem pai, sem mãe, na infância linda”.

Os detalhes picantes ficam melhores diante das comparações errôneas. Enquanto o Proclamador da Independência tem a imagem de um mulherengo extrovertido, o Pedro II, culto e fã de modernidades, seria mais parecido com a mãe. É uma falsa impressão. Além da condessa de Barral, ele manteve outras amantes, já que nunca foi entusiasmado com a imperatriz D. Teresa Cristina, a quem tinha estima, mas nenhuma paixão. Pedro chegou a trocar cartas quase simultâneas onde se declarou para diferentes mulheres. Em março de 1884, escreveu à francesa condessa de La Tour: “Acredite que eu a amo com paixão”. Um mês depois fez juras à espanhola condessa de Villeneuve: “Quantas loucuras fizemos sobre a cama grande com os dois travesseiros. Amo-te cada vez mais”. Em outras ocasiões, o monarca reclamava do fardo da coroa.

O livro também relata um triste episódio, quando o neto, príncipe Pedro Augusto, tenta agredir o comandante do navio que levava a família real para o exílio na França, durante uma crise paranoica. O príncipe morreria em 1934, após décadas internado em um hospital psiquiátrico.

Retratos de família