Cultura

A vida dos Césares

Na coleção “Senhores de Roma”, o historiador escocês Allan Massie romanceia a vida dos imperadores e transforma os poderosos líderes em homens de carne e osso

Crédito: Divulgação

PODER IMPERIAL Quadro “A rendição de Vercingetorix a Júlio César”, de Lionel Royer, reproduz a batalha de Alésia: uma das mais brilhantes vitórias do general romano (Crédito: Divulgação)

No século em que a hegemonia dos EUA como superpotência é ameaçada pela China, é impossível não fazer uma analogia com a ascensão e queda do maior de todos os impérios: o Romano. “Mestre do romance histórico do passado distante”, como definiu Gore Vidal, o autor Allan Massie se debruçou sobre a vida de célebres imperadores de Roma e escreveu biografias romanceadas de Augusto, Marco Antônio (e Cleópatra), Tibério, César, Calígula e Nero. A coleção “Senhores de Roma” é narrada em primeira pessoa e com uma riqueza de detalhes que explicitam não apenas o profundo conhecimento do autor sobre o assunto, mas, também, a sua criatividade como escritor. A característica mais interessante de suas obras é nos lembrar que esses mitos eram homens de carne e osso, não os deuses que eles julgavam ser nem as estátuas de mármore que hoje os homenageiam.

Narrados em primeira pessoa e ricos em detalhes, os livros explicitam não apenas o profundo conhecimento de Allan Massie, mas sua criatividade como autor

Cada livro retrata os fatos históricos do período, mas principalmente a personalidade de cada imperador. “César” é narrado por Júlio César a partir da prisão, enquanto aguarda o julgamento e condenação à morte por ter participado da conspiração para o assassinato do grande César, seu pai adotivo e líder da República. Ao narrar a rede de intrigas que o levou à morte, Massie mostra como a corrupção nos círculos do poder influiu na transição da República para o Império que duraria cinco séculos. “Marco Antônio e Cleópatra” é mais romântico: trata da paixão entre eles, mas não esquece a guerra civil perdida contra Otaviano (o futuro imperador Augusto) e a obsessão de Marco Antônio pela conquista do Oriente — até o drama da fuga do casal para o Egito.

Concebido a partir de registros de suas memórias descobertos na restauração de um mosteiro na Macedônia, “Augusto” recria o imperador na velhice, contando sua própria trajetória. “Tibério”, afilhado de Augusto, ascendeu ao poder graças a uma série de assassinatos misteriosos dos descendentes diretos. Governou por 23 anos, período no qual, segundo o Cristianismo, deu-se a crucificação de Jesus Cristo, comandada por Pilatos. “Calígula”, o “imperador louco” conta a vida do cruel líder de 25 anos e suas decisões estapafúrdias, como a nomeação de seu cavalo, Incitatus, como senador. Contada por Lúcio, seu pai, o livro explica por que foi um período turbulento que culminou com o assassinato de Calígula, apenas quatro anos depois de ele assumir o poder.

A série termina com “Nero e Seus Herdeiros”. O destaque é o incêndio de Roma, que o governante atribuiu aos cristãos. Perseguidos e condenados, muitos foram jogados aos leões. Apesar do mito de que a história se repete, é preciso registrar a evolução humana: por mais que seja criticado, o império americano nunca fez isso com seus inimigos.

ENTREVISTA
“Trump é como nero, fantasioso e mentiroso”

Pesquisando sobre os imperadores, que analogia você fez com os tempos que vivemos hoje?
Como os imperadores, os presidentes e primeiros-ministros ainda se perguntam: o que é possível? O que meus amigos e apoiadores aceitarão? Quem são meus inimigos e o que devo temer deles? Apesar de séculos terem se passado, a arte da política
e as questões de governo não mudaram tanto assim.

ALLAN MASSIE Nascido em Singapura e criado na Escócia, escritor é professor de história do Trinity College, em Cambridge (Crédito:Danilo Ascione)

Qual é o lado bom e o lado ruim de imperadores,em oposição a líderes eleitos democraticamente?
É mais fácil se livrar dos líderes na democracia moderna. Você pode votar e, simplesmente, retirá-los do cargo. Você tinha de se rebelar contra um mau imperador ou simplesmente assassiná-lo. Os americanos votaram e tiraram Donald Trump da Casa Branca, mas os russos não podem expulsar Vladimir Putin do Kremlin. Os chineses não podem votar para Xi Jinping sair, embora o Partido Comunista possa se livrar dele em um golpe de Estado.

Como você compararia os líderes modernos com os imperadores romanos?
Posso ver uma semelhança entre Augusto e Charles de Gaulle, pois ambos reconstruíram o Estado. Nenhum imperador era tão terrível quanto Hitler ou Stalin, embora Júlio César tenha se tornado megalomaníaco como Napoleão. Alguns ditadores do século 20 são tão loucos quanto o pobre Calígula — na África, Ásia e América Latina. Trump é como Nero, são ambos fantasiosos e mentirosos. Marco Antônio se parece com Mussolini. É mais fácil comparar imperadores romanos com reis da Inglaterra, França e Espanha. Alguns eram tão loucos ou brutais quanto os Césares, como Carlos II da Espanha, que era um imbecil, ou o brutal Henrique VIII, da Inglaterra.