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A vergonha de Mariana

Apesar do rompimento de barragem da Samarco há três anos, o poder público não melhorou a fiscalização e as mineradoras não mudaram os métodos de represar rejeitos. Há outras barreiras perigosas

Crédito: Douglas Magno/AFP/Getty Images

EM VÃO Bombeiro resgata um cachorro da lama de Mariana, em 2015: mesmo tipo de barragem (Crédito: Douglas Magno/AFP/Getty Images)

Especial Brumadinho

O rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, provocou 19 mortes, prejuízos imensos, o maior desastre ambiental do Brasil e nenhuma solução. O episódio não serviu de lição para as autoridades e para a mineradora Vale, uma das sócias da Samarco e corresponsável por aquela tragédia. Nada foi feito nos últimos três anos e quase três meses para atenuar o risco de novos rompimentos. Em Mariana, a inoperância do poder público e a força da Vale protelam o pagamento das multas aplicadas e das indenizações. Ninguém foi preso.

Abalada economicamente, a cidade perdeu 30% da arrecadação e conta com uma taxa de desemprego de 18%. Afora o bairro Novo Bento, que deve começar a ser entregue aos residentes de Bento Rodrigues que perderam suas casas, os gastos de R$ 4,4 bilhões da Fundação Renova, criada para atender às vítimas, pouco chegaram à cidade. A reclamação é do prefeito Duarte Júnior (PPS). “O alerta para o pessoal de Brumadinho é que não se fiem em promessas. Com a Vale tem que ser tudo no papel, documentado”, diz Duarte. Se nada de eficaz for feito, o Rio Doce, poluído até a foz, deve começar a se recuperar só daqui a 100 anos, estimam biólogos.

Como se não bastasse, ficou comprovado que os métodos de monitoramento de barragens usados pelas mineradoras e órgãos ambientais são, definitivamente, ineficientes. “Um acidente pode ser possível. Três em menos de 5 anos, não”, diz Bruno Milanez, especialista em política ambiental da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ele se refere ao colapso de uma barragem da Mineração Herculano, em Itabirito (MG), em setembro de 2014. Com três mortos, o acidente foi quase esquecido, mas guarda as mesmas características de Mariana e Brumadinho, só que em proporções menores.

O método de alteamento à montante, usado nas barragens de Brumadinho e Mariana, é mais barato e veloz, porém gera instabilidade

Estudos apontam que 37 estruturas estão comprometidas em Minas Gerais, mas esse número deve ser maior, já que a Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, não estava na lista. Especialistas alertam há anos, em vão, que o método para erguer essas estruturas deve ser revisto. Em Mariana, Brumadinho e Itabirito, as paredes de terra compactadas foram erguidas e ampliadas por alteamento à montante, ou seja, em que terra é jogada, a partir do topo da barreira, sobre a lama e a areia retidas em seu interior. O método é mais barato e veloz, porém pode gerar instabilidade.

Um documento da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Semad), de 2016, indicou que essa tecnologia foi empregada em 53 barragens em Minas Gerais, sendo 27 delas da Vale. O que torna tudo mais vergonhoso é que a empresa declarou, na segunda-feira 28, não saber quantos de seus diques foram erguidos desta forma. O documento da Semad afirma que estruturas à montante possuem “maior risco de ruptura”. No Chile, essa técnica foi banida, enquanto na Europa e EUA é empregada com restrições há décadas.

A Barragem do Córrego do Feijão foi erguida em 1976 e passou por uma dezena de elevações, indo de 18 para 87 metros, até colapsar. Esse temor agora reforçado faz com que a prefeitura de Congonhas (MG) tente impedir na Justiça a elevação de Barragem Casa de Pedra, da CSN, que fica a 300 metros da cidade e é quatro vezes maior que a do Córrego do Feijão. Em maio, Carlos Barreira Martinez, o professor de Engenharia Hidráulica da Unifei, alertou: “Não se pode altear mais do que três metros por ano, mas no Brasil tudo pode”.

Para piorar, a geografia contribuiu para os desastres. O mar de morros nos planaltos do Sudeste facilita o armazenamento de rejeitos em barragens erguidas entre encostas. A solução é mais barata que os reservatórios erguidos em locais mais planos. O problema é que, após um rompimento, a inclinação dá velocidade à lama, criando uma inundação que arrasta tudo pela frente.

Foi o que ocorreu em Mariana, Brumadinho e perturba o sono de quem vive em Congonhas. “Perdi casa, carros e meu comércio, mas eu e minha mulher escapamos. Não dormi mais direito e tive que botar marca-passo,” diz José do Nascimento de Jesus, 73 anos, sobrevivente de Bento Rodrigues. Zezinho do Bento, como é conhecido, lamenta por Brumadinho. Ele acredita que os sobreviventes vão passar pelo mesmo que ele tem passado. Sua nova casa foi prometida para este ano ­— ou para o ano que vem. Nunca se sabe.

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