Cultura

A verdade sobre Simonal

Filme mostra que o racismo foi um dos motivos da ruína do cantor acusado de delação no ápice da fama

Crédito: Divulgação

PAPEL O ator Fabrício Boliveira como Wilson Simonal: “Ainda hoje é insuportável no Brasil que um negro seja arrogante, famoso, rico e genial” (Crédito: Divulgação)

O cantor carioca Wilson Simonal (1938-2000) é o personagem do musical “Simonal”, dirigido por Leonardo Domingues, com o ator baiano Fabrício Boliveira no papel principal. Ele se distingue de outros ídolos da música popular homenageados com melodramas animados por sucessos, pois não teve uma trajetória linear apropriada à fábula exemplar. Simonal nunca foi santo. Foi, sim, uma espécie de mártir ­— o mártir de uma falha ética da qual nunca se livrou.

Ao longo dos anos, sua reputação póstuma não foi resgatada, apesar do esforço da parte dos filhos, os músicos Wilson Simoninha e Max de Castro, que colaboraram em duas biografias, um musical e um documentário sobre o artista. Eles também participaram da produção musical do longa-metragem, mas não influenciaram no roteiro. “Nossa intenção é resgatar a sua memória artística”, afirma Simoninha. Os irmãos orientaram Boliveira a mover os lábios e simular os trejeitos de Simonal,
cujas gravações originais são usadas no filme. “Gosto de cantar, mas sou dançarino e ator”, diz Boliveira. “O que eu tentei fazer não foi imitá-lo, mas penetrar na verdade de um ser humano.”

“Onde está a delação? A investigação é a ciência da delação. Por que eu teria feito isso? Estava no auge do sucesso” Wilson Simonal, cantor

Embora repleto de números musicais e de algumas infidelidades, o filme não suaviza o perfil do protagonista. Em vez
de retratá-lo como vítima do sistema, mostra a ascensão e aniquilação de um anti-herói arrastado pelas circunstâncias. Não desvia do fato de que Simonal, ex-militar, foi informante da ditadura. O cantor aparece acionando contatos na polícia para assustar o seu contador, Raphael Viviani (Taviani, no filme), e forçá-lo a confessar que havia roubado a Wilson Simonal Produções, a primeira grande empresa do gênero dirigida por uma artista brasileiro, que não durou mais que um ano e faliu. O contador sofreu agressões, como tortura no pau de arara, e as denunciou em 1972. Simonal foi condenado por extorsão mediante sequestro e ficou preso por nove dias, para depois cumprir prisão domiciliar. Quando a pena acabou, em 1976, foi boicotado pela classe artística e não recuperou o prestígio que o havia convertido, no fim dos anos 1960, no cantor mais popular do Brasil.

Até hoje não se deu a redenção de Simonal, nem mesmo a de sua música, tão sonhada pelos filhos. “As novas gerações não conhecem seus sucessos”, diz Simoninha. “Ele poderia ter-se reabilitado caso contasse com uma reorientação de carreira. Mas não teve forças para continuar e se autodestruiu” Para o diretor Domingues, será difícil redimi-lo. “Não dá para dizer que ele não tenha cometido um erro”, diz. “Simonal não soube administrar a carreira e fez uma delação desastrada.” Assim, foi apagado da história, pensa Boliveira: “Há muita gente que ainda o acusa. E uma das razões para isso foi o fato de ser negro. Ninguém o perdoou por isso. Ainda mais um negro arrogante, famoso, rico e genial. Ainda hoje isso é insuportável no Brasil.”
Simonal morreu de cirrose, sem se perdoar pelo erro que cometeu, mesmo tendo cumprido pena e demonstrado, por meio de um habeas data, que nunca delatou nenhum artista. “Sou o único homem a não ter sido anistiado no Brasil”, dizia Simonal em entrevistas. Tinha razão.

Não foi bem assim
Roteiro toma liberdades

“País tropical” Jorge Ben mostra a canção pronta. Na verdade, Simonal arranjou e deu a forma final a ela
Agressão Simonal bate na mulher, Tereza. Ele nunca fez isso, diz o filho Simoninha
Prisão É preso no Rio de Janeiro. A prisão real ocorreu em São Paulo
O Beco É vaiado em um show no Beco das Garrafas (RJ). O espetáculo se deu de fato em 1976 no restaurante O Beco, em São Paulo

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