Comportamento

A usina nuclear de Bill Gates

O fundador da Microsoft aposta em projeto experimental que promete produzir energia de maneira mais segura que a tradicional. A primeira planta será construída no interior dos Estados Unidos com o objetivo de combater o aquecimento global

Crédito:  Rick Wilking

PARCERIA Bill Gates e Warren Buffett anunciam os planos de produção de energia (Crédito: Rick Wilking)

A pequena cidade de Kemmerer — localizada no estado Wyoming, maior minerador de carvão dos Estados Unidos, será o lar de um projeto de energia nuclear experimental apoiado pelo bilionário e filantropista Bill Gates. A usina nuclear Natrium foi autorizada pelas autoridades norte-americanas e substituirá a usina carvoeira Naughton, programada para encerrar as atividades até 2025. O objetivo de Bill Gates — e da empresa TerraPower, fundada por ele em 2006 — é evitar o consumo de combustíveis fósseis e combater o aquecimento global. Se a ideia não parece nova, já que há milhares de plantas nucleares ao redor do globo, a mudança está na maneira como o reator é resfriado e na velocidade da energia produzida. O sódio líquido no lugar da água produziria uma quantidade menor de lixo nuclear.

PESQUISA Nos laboratórios da TerraPower estuda-se a substituição da água pelo sódio líquido no resfriamento do reator nuclear (Crédito:Divulgação)

“Nossa tecnologia inovadora ajudará a garantir a produção contínua de eletricidade confiável, ao mesmo tempo em que faz a transição de nosso sistema de energia e cria novos empregos no Wyoming”, disse Chris Levesque, CEO da TerraPower, em nota da empresa. O projeto servirá como demonstração do reator Natrium, desenvolvido em parceria com a empresa de energia nuclear GE-Hitachi. A planta terá o custo de US$ 1 bilhão e divide opiniões. Enquanto ambientalistas afirmam que o foco de investimento deveria ser nas energias eólicas e fotovoltaicas, os defensores da energia nuclear dizem que é impossível viver sem ela: a usina não depende da natureza para produzir energia. Fábio Raia, especialista em energia elétrica e professor de Engenharia Mecânica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, diz que todas as formas de produzir energia limpa devem ser consideradas para o uso da humanidade.

“O grande problema da energia nuclear são os resíduos que ela produz. Sempre que uma planta vai ser construída, há uma análise de para onde será enviado esse material e quais são os riscos envolvidos. Por ser altamente radioativo, se não for bem armazenado, pode poluir o ambiente onde é descartado”, diz. O medo de grandes acidentes como o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e em Fukushima, no Japão, em 2011, foram pontos fora da curva segundo Raia. “Chernobyl poderia ter sido evitado e Fukushima foi atingida por um tsunami de grande proporção. O risco existe, mas é pequeno”, diz. A empresa fundada por Bill Gates, por exemplo, não dependerá da água, líquido que foi um dos fatores que agravaram o desastre japonês.

As opções nucleares ainda têm um ponto positivo que as outras fontes energéticas ainda não conseguiram alcançar: ocupam pouco espaço de superfície e geram uma quantidade alta e segura de energia. “A fotovoltaica é uma ótima opção, mas ocupa hectares para produzir uma quantidade menor de energia. Vamos ocupar terra de plantio? É algo a se pensar também. Se faltar água para as hidrelétricas como estamos vendo agora? Se a neve congelar a eólica?”, questiona o professor.

 Promessa cumprida

O projeto vai empregar até duas mil pessoas durante sua construção e cerca de 250 quando estiver em operação. Kemmerer, a cidade escolhida, possui apenas 2.600 habitantes e está localizada a 200 quilômetros de Salt Lake City, capital do estado do Utah. Se for tão confiável quanto a energia nuclear convencional, a usina de 345 megawatts produzirá energia compatível para atender cerca de 250 mil residências. Gates anunciou em junho, junto com o bilionário Warren Buffett, dono da empresa de energia PacificCorp, os planos para o projeto de Wyoming, juntamente com funcionários da Rocky Mountain Power, da administração de Joe Biden e do estado de Wyoming, que, vale ressaltar, produz cerca de 40% do carvão do país. “Acreditamos que Natrium será uma boa opção para a indústria de energia”, disse o bilionário no lançamento do projeto.

As propriedades de alta transferência de calor do sódio permitirão, se tudo correr como previsto, que a planta de Natrium seja resfriada a ar. Isso significa que a planta poderá ser desligada rapidamente em caso de emergência, e a ausência de geradores e bombas de emergência deixaram o projeto mais barato. Até hoje, o único país que aplicou tecnologia semelhante foi a Rússia e os resultados reais não são transparentes. Ou seja, ainda é cedo para cantar uma vitória. Mas Bill Gates parece que tem um novo caminho para seguir.