Edição nº2552 15/11 Ver edições anteriores

A tragédia de Natal

Se tem uma coisa sagrada para o tio Alcides, é a ceia de Natal.
Época de juntar a família e celebrar.
Viagens de férias, só depois do dia 25, a família toda já sabe.
Tio Alcides é o guardião da tradição.
– Tem de vir e pronto. Que nem o vovô Helio fazia.
Quem não vai fica três meses suspenso do grupo de WhatsApp “Famílião” (23 membros) que a Lucimara, filha do tio Inácio, administra.
2018, no entanto, foi o ano da tragédia.
A bem da verdade, tragédia anunciada.
Um bom observador teria percebido que a coisa não ia dar certo quando a tia Lúcia perguntou, no grupo, se queriam que ela fizesse o tender com cravo e abacaxi, receita da vovó Filó, que Deus a tenha.
Ursulina 14:22
Pode faltar o Papai Noel mas não pode faltar tender lucinha!!! :)
A semente da discórdia, no entanto, foi o comentário da Valéria:
Val (prima) 17:32
Fica Tender!
Falta de sensibilidade da moça, misturar a sagrada ceia com trocadilho político.
O Marcio, que é PM, marido da Carlinha, não deixou barato.
Marcio 17:33
Eita! Para tudo que tem petralha infiltrado no grupo kkkkkk
Tio Olavo, pai da Val, ex-militante do PT, não perdoou.
Respondeu grosseiro, prefiro não compartilhar aqui, em respeito aos leitores.
Dali para frente o grupo foi vendo escalar a violência.
Aos poucos, os familiares mostravam suas preferências políticas e criticavam os que pensavam diferente, com o ódio que rapidamente tomou a proporção de ofensa.
Claudio, o primo engraçadinho que mora em Londres ainda tentou aliviar:
Claudio Londres 11:23
Tia Lúcia, vai ter nozes?
Lúcia 12:17
Claro que vai, Claudinho, você vem né?
Claudio Londres 12:18
Deus me livre, tia. Quero fugir dessa história de “nozes” versus eles. Hahahahahaha.
Ninguém riu.
Alguns queriam mas não tiveram coragem de sair do grupo.
Tio Alcides informou que se alguém entrasse no recém-criado grupo “FaMito” seria suspenso por três semanas.
Estavam todos muito preocupados com a noite da ceia.
Tio Alcides, em seu depoimento na delegacia, dias depois do evento, disse que pensou em cancelar.
– Mas a tradição falou mais alto — lamentou olhando para o chão.
A ceia começou num clima falso e amistoso.
Até parecia que tudo estava superado.
Foi quando o Dorival, perguntou:
– Ô Lúcia, vai ter Peru?
– Claro Dodô! Por que?
– Porque Peru é pros Bolsonaro. Os petralha que fiquem com a Venezuela! – gargalhou cutucando a barriga do Miltinho.
Miltinho, que é gay assumido, ficou nervoso.
– Ô Miltinho… relaxa, até parece que faltou uns cascudos na infância pra você — mais gargalhadas.
Nossa.
Para que.
Perto da meia noite a coisa estava um caos.
O sarcasmo virou agressão verbal descarada de ambos os lados.
Se tivessem me perguntado, eu diria que era melhor todos irem para casa.
Então, justo no auge da tensão, tio Orlando chegou fantasiado de bom velhinho, como sempre:
– Hohoho!! — Papai Noel anunciou sua chegada.
Foram três tiros.
Não deu nem para o coitado desejar “Feliz Natal”.
O silêncio na mesa foi testemunha de Marcio, o PM, empunhando o 38 fumegante.
Meteu três tiros no Papai Noel, digo, no tio Orlando.
Na delegacia alegou lapso de sanidade.
– Eu vi a roupa vermelha…tava nervoso…não sei o que me deu…não sei…
Foi assim. Triste.
A família se distanciou muito depois disso tudo.
Se teve alguma vantagem é que a Lucimara apagou o grupo da família.
O tio Alcides ainda chegou a criar o “Familiamor” , mas ninguém entrou.
Graças a Deus.

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