Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

A tenda dos milagres de Messias

Crédito: Johannes EISELE / AFP

(Crédito: Johannes EISELE / AFP)

E Bolsonaro estreou na ONU. Ao seu modo. Com as platitudes bizarras de sempre. Lembrou o anedótico personagem da telenovela “O Bem Amado”, Odorico Paraguaçu, que sonhava em falar de suas ideias ao mundo, entendendo a cidade fictícia de Sucupira como o umbigo planetário. Chegou para a abertura da Assembleia-Geral em Nova York, com a presença de 150 chefes de estado na plenária, se achando no direito de cantar de galo perante os pares. Nada de tom conciliatório. Ao contrário. Fez louvações à ditadura, disparou contra indígenas e defensores de causas ambientais, atacou os parceiros europeus, chamou deus e o mundo de colonizadores. Sobrou até para a ONU, acusada por ele de respaldar o “trabalho escravo”. Queimadas e desmatamento? Não existem. Nem podia, não é? A negação de evidências estatísticas é parte da tática de alienação da verdade e munição de sua propaganda ideológica. Assim a floresta amazônica, nos termos que colocou, está “praticamente intocada”. Absurda é a quantidade de terras sob usufruto dos índios, embora tenham sido eles os primeiros a chegarem por ali. Conceitos risíveis o chefe da Nação apresentou. Havia um fiapo de esperança de um discurso restabelecendo o equilíbrio retórico. Expectativa logo afastada nos primeiros minutos. Ele, em pessoa, está crente que abafou. Os inimigos imaginários de seu cotidiano não foram esquecidos. Em uma espécie de resgate dos tempos da Guerra Fria, Bolsonaro saiu atrás de “comunistas”, fez ressuscitar o espectro do irrelevante Foro de São Paulo e de seus simpatizantes, como se estivessem permanentemente à espreita. Falou a toda hora de perigos iminentes e da “libertação” que promoveu. O Brasil, no seu entender, estava à beira do socialismo – quem sabe confundiu o antecessor Temer com um Trotsky da era moderna. Coisa dele. Para manter acesa a chama dos adoradores, o mandatário entoa costumeiramente a cantilena dos “comunistas”. Algo assim cafona, em desuso, mas que serve ao intuito da catequização. E dá certo para alguns. Bolsonaro não falou para o mundo. Não falou para os brasileiros. Seu alvo era tão somente a claque de convertidos. Deu recados domésticos à patota. E para essa turma talvez encarne o papel de Macunaíma, o herói sem caráter do livro escrito pelo polímata brasileiro Mário de Andrade. Falar grosso faz efeito junto à tropa, levanta os brios dos brucutus, mas na prática da vida real trás problemas concretos, típicos da antidiplomacia. Produtores do agronegócio, operadores de mercado, investidores, dirigentes de multinacionais aqui instaladas, muitos temem contabilizar prejuízos. Caberá ao Itamaraty reparar eventuais estragos. Messias quis usar o púlpito da ONU como palanque. Montou ali a sua tenda de milagres para propagar feitos que nem ao menos foram realizados. O acordo do Mercosul com a União Europeia, por exemplo. Já deu como certo, embora não recue um milímetro na estratégia de enxovalhar os participantes do entendimento. Como irá conseguir? Se é que já não colocou as negociações a perder. Membros das Nações Unidas, inúmeras autoridades internacionais, os espectadores na sua maioria, classificaram a experiência do que ouviram como “surreal”. Messias vive em um mundo particular ao lado do séquito de seguidores, arrotando sandices. No conceito internacional, entrou para aquela categoria de governantes patéticos, com patacoadas dignas dos espetáculos circenses. Em muitos pode ter provocado o sentimento de vergonha alheia. Ou existe alguém minimamente sensato que entenda tratamentos desrespeitosos como o melhor caminho para a inserção global? A estratégia tomada por Messias vai arrastando o Brasil para o isolamento externo. Que não se peçam concessões aos interlocutores para o diálogo multilateral, dado o ambiente conflagrado. No seu estilo servil aos americanos, o aprendiz de Trump, o autocrata bananeiro, o propagador incorrigível de fake news, vai alimentando repulsa, distanciando o Brasil da histórica relação de harmonia e neutralidade que costurou por décadas com a comunidade internacional. Ao alterego Trump, o ex-capitão Bolsonaro dispensa rapapés, adula como um sabujo na vã ilusão da amizade de interesses. Chegou a dizer “eu te amo” para o colega e não levou nem o esperado jantar a dois propalado por sua assessoria. Vai ser dominado e engolido pelo americano. Pode apostar. No universo bolsonarista, nas rodas de bajuladores e admiradores, tudo segue azul e cintilante. É o delírio coletivo. Vigaristas e trouxas se mancomunaram para emular uma versão dos fatos que não guarda qualquer relação com a realidade. Afinal, na tenda de milagres de Messias cabe tudo.


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