Comportamento

A segunda morte de Brumadinho

Quase um mês após o rompimento da barragem da Vale que resultou em mais de 300 mortos e desaparecidos, pouco foi feito para ressarcir os afetados

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

DESCASO Fabio Schvartsman, presidente da Vale, permanece sentado durante homenagem às vítimas: insensibilidade? (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

No final de janeiro, 12 mil toneladas de rejeitos de mineração desceram como um tsunami a Serra do Rola-Moça, em Brumadinho, Minas Gerais, destruindo tudo o que havia pela frente. Um mês depois, a busca por corpos ainda persiste. Até a quarta-feira 20, foram confirmadas 171 mortos. A cidade vive a síndrome do caixão vazio, um luto prolongado por causa das 139 pessoas que ainda estão desaparecidas. Diante de um luto sem fim, a cidade morre a cada dia um pouco mais. A dor se cristaliza e toma a forma de incerteza e abandono. A imagem que melhor simboliza esse sentimento é uma foto feita na quinta-feira 14, em audiência na Câmara dos Deputados. Nela, registra-se o momento em que os participantes da mesa e o público levantam-se para fazer um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, a pedido de Victor Hugo Fronner Bicca, diretor-geral da Agência Nacional de Mineração. Fabio Schvartsman, presidente da mineradora Vale — dona da barragem que estourou em Brumadinho e responsável por negligenciar relatórios técnicos que apontavam sua fragilidade — baixou a cabeça, mas permaneceu sentado.

Divulgação

“A Vale nos trata como cachorros. Sempre fui pobre, mas não precisava mendigar um pedaço de carne. Só recebemos uma cesta básica” Paloma Prates da Cunha, sobrevivente

A postura do chefe da empresa confirma a indiferença e a arrogância demonstrada pela cúpula da Vale diante da tragédia humana. Fontes da empresa afirmaram à ISTOÉ que, quando as ações da empresa subiram 9%, no final de janeiro, depois de uma queda abrupta, a cúpula celebrou avidamente a valorização, ignorando diante das cifras a destruição de centenas de famílias. Detalhe: isso aconteceu a menos de cinco dias da inundação de lama em Brumadinho que, nunca é demais lembrar, matou funcionários da própria Vale.

+ “Filho é um inferno e atrapalha”, diz Fábio Porchat sobre não querer ser pai

Até agora, migalhas

Sentado, assim ficou o presidente da empresa. E é exatamente nessa posição que a Vale deixa as vítimas de sua barragem, enquanto esperam por seus direitos. Que o diga a faxineira Paloma Prates da Cunha, de 22 anos, que estava em sua casa na comunidade de Córrego de Feijão, a mais atingida, quando aconteceu a enxurrada de rejeitos. Paloma tentou se agarrar à irmã e ao marido, mas a enxurrada arrastou a todos. Os dois desapareceram. A jovem ficou com o corpo preso a uma tora de madeira e foi arrastada por pelo menos cinco quilômetros. Paloma foi com a mãe ao centro que a mineradora mantém em Brumadinho para receber as vítimas, na segunda-feira 18, para reivindicar seus direitos. Diz ela: “Vim aqui para reclamar que a Vale nos trata como cachorros. Sempre fui pobre, mas não precisava mendigar um pedaço de carne. Desde que fomos hospedados na cidade, só recebemos uma cesta básica.”

A resposta da Vale para reparar o mal causado a Brumadinho é lenta quando confrontada com a força econômica da empresa. Até a quinta-feira 20, 26 dias após o rompimento da barragem na mina Córrego do Feijão, a empresa realizou 264 doações no valor de R$ 100 mil a familiares de mortos e desaparecidos e doações de R$ 50 mil a 55 pessoas que residiam na Zona de Autossalvamento da Barragem I. Esses números se tornam migalhas perto do salário de Fabio Schvartsman, estimado pelo mercado em R$ 50 milhões ao ano.

+ Polícia aborda ambulância com sirene ligada e descobre 1,5 tonelada de maconha

Na quarta-feira 20, a empresa prometeu, em conversa com o Ministério Público de Minas Gerais, pagar R$ 1 mil por mês a cada adulto morador da região, além de 50% de um salário mínimo para adolescentes e 25% para crianças, pelo período mínimo de um ano. “Se as vítimas de Brumadinho não colocarem as promessas no papel, nada virá”, disse à ISTOÉ Duarte Junior (PPS), prefeito de Mariana, cidade que há três viveu o maior desastre ambiental do País, com 19 mortos, com o rompimento de uma barragem de rejeitos da Samarco, empresa da qual a Vale é sócia. A Fundação Renova, criada para reparar o impacto do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, é conhecida pela mesquinharia. Entre suas estratégias está a de trocar periodicamente seus representantes, uma técnica de negociação que faz com que o outro lado da mesa esteja sempre em posição de desvantagem, tendo de começar as conversas constantemente do zero.

Oito funcionários da Vale, entre gerentes e integrantes de equipes técnicas, estão presos sob acusação de “conluio” para ocultar informações sobre os riscos da barragem de Brumadinho. O MP mira agora na cúpula da empresa. Na Câmara dos Deputados, Schvartsman afirmou que “a Vale é uma joia brasileira” que “não pode ser condenada”. Errado. Nenhuma joia vale mais do que uma vida.

SEM ESPERANÇA Máquinas são usadas para revirar a lama: 139 desaparecidos (Crédito:Divulgação)

Colaborou André Vargas

Veja também

+ A incrível história do judeu que trabalhou para os nazistas na Grécia
+ Teve o auxílio emergencial negado? Siga 3 passos para contestar no Dataprev
+ Caixa substitui pausa no financiamento imobiliário por desconto de até 50% na parcela
+ Novo Código de Trânsito é aprovado; veja o que mudou
+Jovem é atropelado 2 vezes ao tentar separar briga de casal em Londrina; veja o vídeo
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel
+Vídeo mostra puma perseguindo um corredor em trilha nos EUA
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ 12 razões que podem fazer você menstruar duas vezes no mês
+ Por que não consigo emagrecer? 7 possíveis razões
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Educar é mais importante do que colecionar
+ Pragas, pestes, epidemias e pandemias na arte contemporânea

Tópicos

Brumadinho Vale