A notícia de que, a partir desta sexta-feira (20), a Volkswagen interrompe a distribuição da sua famosa salsicha de fabricação própria Currywurst (também conhecida como a salsicha típica de Berlim) para seus funcionários em refeitórios e implanta um cardápio 100% vegetariano, em Wolfsburg, na Alemanha, explodiu no mundo todo.

E isso é apenas o início de uma brutal transformação, cuja meta é não servir mais carne de produção industrial aos trabalhadores da empresa até 2025. Tudo em nome da redução de emissão de gases do efeito estufa com a eliminação da proteína animal como alimento.

Cada região tem sua realidade quanto à produção de alimentos, mas é fato que tais atitudes acabam influenciando nações em todo o globo. No Brasil, por exemplo, muitos acreditam que deixar de comer carne é parte da solução desse problema ambiental. O que motiva a decisão da gigante automobilística e outras iniciativas semelhantes, entretanto, não encontra unanimidade na comunidade científica nem em documentos das Nações Unidas sobre o debate o tema.

“Acredito, sim, no aquecimento global e que, sim, o ser humano é responsável por isso. No entanto, a produção de alimentos mundial é responsável por apenas 26% das emissões dos gases do efeito estufa no mundo. O restante, 74%, vem principalmente das indústrias, dos meios de transporte e da geração de energia (queima de combustível fóssil)”, garante Sérgio Pflanzer, professor Doutor-MS3 na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, ao citar dados da FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas).

“Por exemplo, no Brasil, algumas reportagens mencionam que pouco mais de 70% das emissões nacionais viriam da atividade rural, não está certo. Esse número é resultante da soma do desmatamento (cerca de 44%) mais a agropecuária (cerca de 28%). E juntar ‘desmatamento + agropecuária’, quase como sinônimos, é descabido. Desmatamento ilegal (com ou sem queimada) é crime e não pode ser chamado de atividade rural”, alerta Sérgio.

E tem mais: a produção de carne pode fazer parte da solução no combate às mudanças climáticas com a pecuária regenerativa. “Sempre que emitimos CO2 queimando combustível fóssil, esse CO2 fica quase que para sempre aquecendo o planeta. Já na produção de bovinos, se o rebanho se mantem o mesmo, ou aumenta um pouco, mas se torna mais produtivo e sustentável (pecuária x lavoura x floresta ou pecuária regenerativa), ele não emite mais metano, pelo contrário, ele passa a sequestrar, além do CO2 do ciclo natural, parte do CO2 que veio do combustível fóssil, funcionando como um sumidouro de carbono”, explica Pflanzer.

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Então, deixar de comer carne, seja branca ou vermelha, não vai melhorar a nossa pegada ambiental em relação ao aquecimento global? “Temos que organizar nosso estilo de vida para consumir menos (de tudo), consumir local, desperdiçar menos e reciclar mais. Isso, sim, pode ajudar”, conclui o pesquisador brasileiro.


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