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A saga da vacina

João Doria enfrentou a sabotagem do governo Bolsonaro para viabilizar a vacina que mudou a história da pandemia no Brasil. As cenas emocionantes do dia 17 foram possíveis após um esforço que começou em 2019, quando o governador de São Paulo abriu uma representação comercial em Xangai. Depois de meses de luta, o Instituto Butantan já distribui o imunizante. A ciência triunfou e os farsantes serão julgados pela história.

Crédito: ALEX SILVA

HISTÓRICO Ao lado de João Doria, a enfermeira Mônica Calazans é imunizada minutos depois de a Anvisa liberar a Coronavac (Crédito: ALEX SILVA)

Mônica Aparecida Calazans

A primeira brasileira a ser imunizada foi a enfermeira Mônica Aparecida Calazans, de 54 anos. Ela é hipertensa, portadora de diabetes e obesa, mas não é por isso que foi escolhida para inaugurar a vacinação com a Coronavac. É por sua história de coragem pessoal e profissional. Ela trabalhou 20 anos no Hospital das Clínicas, como auxiliar de enfermagem. Só conseguiu se formar enfermeira mais tarde, em 2011. Mora no bairro de Itaquera, na zona leste paulistana

Há quase um ano, o Brasil esperava um sinal de esperança diante da pandemia que já vitimou mais de 210 mil brasileiros. Ele veio no domingo, 17, às 15h29. Este foi o dia D e a hora H do início da imunização no País, com a vacinação de Mônica Calazans, uma enfermeira negra e pobre da periferia de São Paulo. O momento histórico, que traz otimismo para 210 milhões de brasileiros, só foi possível graças à persistência e à resiliência do governador João Doria, que em dez meses viabilizou a Coronavac, enfrentando a sabotagem e a campanha de difamação movida pelo Palácio do Planalto. As cenas de vacinação pelo País foram emocionantes. Mais do que foi uma inflexão na história da doença, elas mostram uma mudança de humor com os rumos do País. O negacionismo do presidente e seus comandados não apenas multiplicou o desastre humanitário. Tirou a esperança de todos com base em desinformação e cinismo. A vacina, ao contrário, mostra que a vida voltará ao normal e que a aposta na ciência, nos profissionais de saúde e na boa política já aponta tempos melhores.

A concretização desse processo não foi um caso de sorte. A vacina do Butantan, feita em parceria com a a chinesa Sinovac, é resultado de uma aposta pessoal e de um estilo de trabalho focado em resultados, típico da iniciativa privada, que consagrou o governador. O espírito empreendedor e o pragmatismo nas negociações é o comportamento oposto do exibido pelo mandatário. O contraste entre as duas atitudes é a que se vê no momento. Doria viabilizou um imunizante para o País, Bolsonaro e seus auxiliares simulam canhestramente dar um cavalo de pau em seu discurso negacionista e tentam posar de patrocinadores da Coronavac.

Nada mais distante da realidade. Todo o investimento de R$ 500 milhões para a Coronavac foi feito exclusivamente pelo Instituto Butantan e pelo governo paulista, ao contrário do que o general Eduardo Pazuello afirma. Além de ridicularizar a Coronavac (por ser chinesa, “do Doria”, com eficácia de apenas 50% etc.) e criar diversos obstáculos para sua distribuição, o governo Bolsonaro ainda não pagou pelas doses que recebeu e distribuiu com logística desastrada para todos os Estados. Apesar da irresponsabilidade do presidente e de seus auxiliares, o governador redirecionou os insumos para todo o País e abriu mão do planejamento estadual para adequá-lo ao plano nacional. O governador paulista também agiu diante do colapso na saúde de Manaus. Enviou 40 respiradores da USP e também 50 mil doses da Coronavac da cota paulista.

Se houve uma guerra das vacinas, ela foi totalmente assimétrica. O presidente não ofereceu soluções, desinformou criminosamente a sociedade e criou barreiras para a chegada do imunizante. O governador paulista, ao contrário, desde o início seguiu as recomendações de distanciamento social e uso de máscaras, e mobilizou recursos no desenvolvimento da vacina — afinal vitorioso. Isso foi reconhecido no dia 17, quando o presidente se calou e Doria foi citado mais de 300 mil vezes no Twitter, 15 vezes mais do o usual. Mais de 15 governadores o procuraram para agradecê-lo. A sociedade deu a resposta em diversas cidades, com sorrisos e alívio.


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As dificuldades impostas pelo mandatário atrasaram em dois meses o início da vacinação. Além do boicote do Ministério da Saúde e da ameaça de bloqueio na Anvisa, Bolsonaro mobilizou as redes sociais para atacar o governador paulista e sua iniciativa. Houve a ameaça de confisco. No próprio dia do início da vacinação, o general Eduardo Pazuello insinuou que haveria um processo contra o governador por ter iniciado a imunização. Acusou Doria de um “golpe de marketing” — exatamente o que Bolsonaro tentou fazer com o imunizante da Oxford/AstraZeneca importado da Índia, que afinal nem estava disponível. A saga da vacina brasileira começou antes da pandemia, em agosto de 2019, quando o governador paulista percorreu com uma comitiva de empresários e autoridades várias cidades chinesas e abriu um negócio de representações do governo paulista em Xangai. Na missão estava Dimas Covas, o diretor do Instituto Butantan, que aproveitou a visita à farmacêutica privada Sinovac, em Pequim, para iniciar entendimentos que desembocariam num acordo de cooperação técnica. Com a eclosão da pandemia, a companhia informou que estava desenvolvendo um imunizante contra o novo coronavírus usando a mesma tecnologia já dominada pelo instituto paulista, com o vírus inativado. As negociações evoluíram para um contrato assinado em abril, que previa a transferência de tecnologia. Em julho, começaram os testes com a participação de 12,6 mil voluntários da área de saúde— Mônica Calazans era um deles. Em setembro, foi assinado o contrato para compra de 46 milhões de doses. Nessa época, o programa de imunização estadual já estava sendo elaborado.

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, teve um papel vital. Para ele, Bolsonaro deveria ter a “dignidade para defender a Coronavac”. A concretização do antídoto foi uma jornada. Desde que o primeiro contato com a Sinovac, Dimas fazia reuniões diárias utilizando o aplicativo WeChat, o whatsapp chinês. Seu interlocutor era o vice-presidente da companhia, Wining Meng. Falavam-se diariamente em inglês, às 6h ou 22h. Ele reforça a importância do primeiro encontro, em 2019, antes da pandemia. “Visitamos fábricas da companhia e fiquei impressionado com a biotecnologia e o know how. Não conhecia essa pujança tecnológica do país.” Segundo Covas, o relacionamento era entre iguais. “Em abril fizemos contatos para troca de informações confidenciais sobre a vacina. Os primeiros lotes chegaram em novembro.”

RESILIÊNCIA Dimas Covas, do Butantan: luta de quase um ano (Crédito: Amanda Perobelli)

O caminho até a aprovação da Anvisa foi cheio de obstáculos. A vacinação deveria começar em dezembro. Mas houve demora na autorização de importação de componentes. “O que mais prejudicou foi a determinação de Bolsonaro de que a vacina não seria comprada, em 20 de outubro”, diz Covas. Na ocasião, Bolsonaro disse que os brasileiros não serviriam de cobaia. Apenas em dezembro o governo federal se comprometeu com R$ 62 milhões para equipamentos de produção de vacinas. Até o momento, nada foi pago. Todo o esforço de Doria e Covas foi recompensado quando a Anvisa liberou o uso emergencial do fármaco.

O diretor do Butantan estava visivelmente aliviado, como se viu na TV. “Foi uma emoção indescritível. Todo o processo foi doloroso, exigiu ultrapassar barreiras políticas e ideológicas, muito além do desafio científico de produção de uma vacina. Tive medo, mas em nenhum momento desisti. Essa pressão abalou a produção da vacina porque tentou desacreditar, sem sucesso, a área científica centenária do Butantan”, diz. O instituto também desenvolveu um soro heterólogo para tratar infectados da Covid-19, que depende de aprovação da Anvisa para testes clínicos. “Tirei toneladas das minhas costas. Apesar das pressões, passei a sentir a satisfação do apoio da sociedade. Isso compensa todo o lado obscuro que vivemos.” Para João Gabbardo, assessor especial de Doria, a Coronavac não é fundamental apenas para a saúde. Também vai ajudar a reativar a economia.

A determinação para a produção da Coronavac levou Doria a madrugar vários dias para receber doses no aeroporto de Guarulhos. A celeridade no processo vai permitir um novo salto de abastecimento no segundo semestre. Em outubro, uma nova fábrica do Butantan estará produzindo a vacina. Vai abastecer o mercado brasileiro e garantir 100% de autonomia, com a produção do princípio ativo. Também permitirá exportação. A planta está sendo construída desde novembro passado com recursos privados, R$ 160 milhões, o que chama a atenção outra característica da ação do governador: engajar empresários para causas públicas.

É por causa da ação de Doria que Bolsonaro tem alguma iniciativa na área de vacinação a mostrar. O mandatário só correu atrás de um acordo para a produção do imunizante de Oxford/AstraZeneca, em agosto passado, após saber que o governador paulista tinha fechado a aquisição da Coronavac. Investiu R$ 1,9 bilhão nesse antídoto que deve ser produzido pela Fiocruz, no Rio, também com transferência de tecnologia. Mas está atrasado em função da dificuldade na importação do princípio ativo (chamado IFA). Segundo a instituição, apenas em março o imunizante fabricado no Brasil estará disponível. As 2 milhões de doses já envasadas da Oxford/AstraZeneca foram liberadas na quinta-feira, 21. Bolsonaro aplicou R$ 1,5 bilhão no consórcio Covax, da OMS, que também não gerou nenhuma dose até o momento. Além de recusar a Coronavac, Bolsonaro ignorou a busca por outros imunizantes — da Pfizer, Moderna etc. Apenas em 7 de janeiro, na iminência de a vacinação começar em São Paulo, anunciou a compra de 100 milhões de doses da Coronavac. Ainda não pagou.

IMPORTÂNCIA João Gabbardo: vacinação ajudará a economia (Crédito:Divulgação)

O País, felizmente, pode contar com a vacina do Butantan. Além das 6 milhões de doses distribuídas no dia 17, mais 4,8 milhões estão disponíveis no instituto, que já pediu autorização para o uso emergencial. Doria comemorou a liberação de 2 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca (“fico feliz, o Brasil precisa de mais vacinas”). Nesse momento, o Butantan e a Fiocruz estão na dependência dos IFAs produzidos na China. A importação está travada, e há a suspeita de entraves diplomáticos. As trapalhadas do governo federal com outros países têm levado políticos e empresários a tentar resolver a questão. O escritório de São Paulo em Xangai está em contato com as autoridades chinesas. Depois que a onda de otimismo se espalhou com a vacinação, Bolsonaro tentou se beneficiar chamando a Coronavac de “vacina do Brasil”. Já Pazuello afirmou que nunca recomendou remédios sem efeito comprovado, caso da cloroquina. Bolsonaristas que fizeram campanha contra a Coronavac passaram a celebrar o imunizante. “O governo Bolsonaro criou um ambiente dantesco contra as vacinas. A história vai julgar essas pessoas que urdiram contra a ciência nesse período de obscurantismo”, diz Covas.

Encontro de vidas

Divulgação/GABRIEL REIS

Profissional veterana de diversas epidemias atuando na rede pública de saúde, a enfermeira Jéssica Pires de Camargo não imaginava que participaria de um evento histórico no dia 17. Suas mãos tremiam e o suor na apareceu na testa, talvez por saber que aquele gesto seria o símbolo da superação e o início do fim da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Foi Jéssica que aplicou a Coronavac em Mônica Calazans, primeira brasileira vacinada. Ironicamente, Jéssica foi a última pessoa a tomar injeção naquele dia, no Centro de Convenções Rebouças. O ato de imunização colocou lado a lado Mônica, com o ombro à mostra, e Jéssica, com a seringa na mão. As duas se conheceram no momento e se tornaram a personificação da esperança para o País.

Entrevista com João Doria
“Poderíamos ter a vacina em novembro”

Como o senhor concluiu que a Coronavac era a vacina ideal?
A conclusão foi do Instituto Butantã, sob liderança de Dimas Covas. Em agosto de 2019, nós organizamos uma missão empresarial para a China. Em Pequim, conhecemos a Sinovac, um laboratório privado. Covas estava conosco. Um dos frutos dessa visita foi um acordo de cooperação entre o Butantan e o Sinovac. O que não havia era qualquer previsão de uma pandemia no mundo naquele momento.

INDIGNAÇÃO “Governo federal é irresponsável, incapaz e negacionista” (Crédito:VINICIUS NUNES)

Bolsonaro identificou a vacina como uma ameaça à reeleição dele?
Erroneamente, porque todas as ações que nós estamos tomando desde o início da pandemia são pela proteção e saúde à vida e ciência. Não é por razão política nem eleitoral.

Como os boicotes impactaram no planejamento da vacina?
Poderíamos ter uma vacina disponível em novembro do ano passado. Foram dois meses perdidos, por conta das ações ideológicas, ataques, as pressões sobre a própria Anvisa e as medidas negacionistas. Deixamos de salvar cerca de 60 mil vidas por essa estratégia do Bolsonaro.

O Brasil poderia ter sido um dos três primeiros países a vacinar do mundo.
E só vacinou depois de 65 outros países porque São Paulo agiu para isso.

Há o temor de que o governo federal não pague pelas doses da Coronavac?
Dá pra se esperar qualquer coisa de um governo irresponsável, incapaz e negacionista. Se não pagar, vamos acionar o STF. Se não pagar pelo primeiro lote que já recebeu, 4,6 milhões de doses, não vai receber mais nenhuma dose. Nós precisamos zelar pelo dinheiro público do contribuinte de São Paulo. O vencimento da primeira parcela de R$ 130 milhões vence no próximo dia 30. Se não houver o pagamento, suspendemos as entregas.

O sr. temeu que a Anvisa cedesse às pressões do Bolsonaro?
Nós estávamos cautelosos. Não desacreditando, mas cautelosos, porque pressão houve. Mas o voto da Anvisa foi um voto correto e bem fundamentado e que garantiu, pelo menos até a aqui, a sua respeitabilidade.

Bolsonaro deveria sofrer impeachment por tudo o que aconteceu na condução dessa pandemia?
O Congresso não pode fechar os olhos para a essa avaliação dada a quantidade de pedidos de impeachment que se avolumam. E ao dano que este homem está fazendo a milhares de pessoas e à nação como um todo. O sofrimento que o Brasil já passou nesses dois anos demonstra o que o País verá nos dois anos seguintes se Bolsonaro continuar na presidência.

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